Ela então me perguntou, à queima roupa e sem pestanejar, se eu era feliz. Por uma compulsão instantânea, eu quase lhe respondi. Estava pronto para lhe dizer que sim e tecer todo o meu discurso pronto e ensaiado sobre a felicidade. Os ingredientes da receita já estavam na ponta da língua. Mas, por uma fração de segundo que me pareceu mais uma eternidade, tive uma iluminação: esse modelo de felicidade não cabe; não serve. Ele é meu. E é quase indecente revelá-lo assim a outrem. Desnudá-lo sem pudores. Minha interpretação sobre a felicidade tem o alcance das minhas experiências e da minha elaboração do vivido. E tudo isso é tão íntimo que chega a ser violento e quase agressivo. Então me calei. Fiz calar também os meus pensamentos a um silêncio sepulcral. Eu não tinha o direito de apresentar àquela senhora as minhas cercanias e visões tão míopes sobre algo que me escapa. Não. Eu não tinha e não tenho a receita de felicidade. Não posso dizer a quem quer que seja o que isso significa: ser feliz. É preciso que cada pessoa descubra por si mesmo e encontre a sua noção do que é ser feliz. Eu tenho, tão somente, uma compreensão egoísta da felicidade. Eu sei o que é felicidade para mim. Defini, conceituei e assumi que ser feliz, para mim, tem este peso e esta medida. Dei forma a esse entendimento e nele me acomodei. Sinto-me, portanto, em águas claras e calmas; navego sem grandes atropelos. Pintei minha felicidade da cor que quis e a batizei com o nome que julguei razoável. Ela não tem parâmetros matemáticos e é impossível mensurá-la cientificamente. O laboratório mais sofisticado não a poderia diagnosticar. A minha felicidade não cabe em outro peito. Ela é totalmente pessoal. É minha. O modo como a vejo, a sinto e a vivo é único e intransferível. Não seria honesto desfilá-la para que outros a tomassem como modelo ou perfil de verdadeira felicidade. Seria um “felicídio”. Eu preferi escondê-la por sob o véu da minha face ante os olhos desacostumados de vê-la; a minha felicidade específica. Assim, resignado e quase sem ar, respondi: estou tentando. Afinal, quem não está? Ao menos é o que todos dizem, ponderei. Agora, ser ou estar já é de outra ordem. Talvez, volitiva. Cada um que se esforce por descobri-la por entre os melindres da própria vida. E entre os dentes segredei: perdoe-me, felicidade. É para resguardá-la que a omiti, e não a revelarei jamais. Tratei logo de me justificar. Afinal, minha felicidade é também clandestina.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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