Na Liturgia desse domingo, refletimos o capítulo 15 do Evangelho de S. João no qual Jesus se compara a uma videira: “Eu sou a videira verdadeira e vós sois os ramos”. Um discurso eloquente e que bebe da Tradição Profética das Sagradas Escrituras. Profetas como Isaías e Jeremias, por exemplo, usaram a mesma alegoria para se referir ao Povo da Antiga Aliança. Israel era tida como a vinha do Senhor. E, embora Ele tenha se dedicado com esmero, ela não conseguiu dar os frutos que o Senhor esperava, a saber, a justiça, a equidade, a fidelidade e o amor. Em Jesus, porém, descortina-se um novo Povo de Deus, uma nova Aliança e uma nova Vinha. Interessante notar nesse discurso o lugar que Jesus se dá: “Eu sou a videira verdadeira”, isto é, o Tronco de onde os discípulos – os ramos – extrairão a seiva necessária para se manterem vivos e poderem dar bons frutos. Eis porque a atitude mais sensata é a de manter-se fixo a Ele. Pois, o ramo que se desprender do Tronco, morrerá com certeza. Mas aquele que ficar, será podado mais de uma vez para que possa sempre dar frutos e “frutos saborosos ao paladar”. A mensagem é ainda para falar da vida cristã. Fora de Jesus, os cristãos nada podem fazer. A fé será tímida, a esperança, vã e a caridade inautêntica. Jesus é essencial para a sobrevivência dos ramos. Ele é o absoluto. Indispensável para a caminhada discipular. Se, por outro lado, nos retirassem Jesus, retirariam-nos tudo. Afinal, Ele é o ápice, o início e o fim da nossa vida. Ele dá e é o sentido da nossa existência. Fora dEle, o cristão não se reconhece e não existe ipso facto. Mas, por estarmos inseridos nEle, o Pai que é o agricultor há de esperar de nós bons frutos. E quais são esses frutos? Preferencial e indiscutivelmente, o fruto do amor. Mas não qualquer amor, senão, o amor que se traduz em serviço. Ora. Que ninguém se engane. A vida cristã é necessariamente serviço. “Filhinhos, amemo-nos uns aos outros não com palavras, mas com atos e em verdade” (I Jo 3, 18). Infelizmente, há muitos cristãos que, embora unidos ao Tronco, não produzem fruto algum: são até muito vistosos, floridos, verdes, mas os frutos nunca aparecem; não vingam. Por fora, belos, mas por dentro são ramos estéreis. Nunca estão dispostos nem disponíveis. Não se implicam nem querem dar a mínima contribuição para o bem de todos; para o crescimento da comunidade. Tais cristãos se esqueceram (ou nunca souberam?) de que a vida cristã é essencialmente serviço: a Deus e ao outro. E que tal serviço possui uma lei: não viver unicamente para si mesmo. Pois até na natureza essa ordem está impressa: “os rios não bebem da própria água, as árvores não comem do próprio fruto, o sol não brilha para si próprio e as flores não perfumam para si mesmas”. Não obstante toda essa lógica ensinada pelo Mestre, a Videira Verdadeira, na sua oferta de amor desmedido durante toda a sua vida, há aqueles cristãos que, livremente, resolveram se apartar do Tronco por um desentendimento com um irmão, por causa de um pecado alheio ou por um escândalo na Igreja. Esses se decidiram por seguirem sós ou foram se enxertar em outros troncos. Não compreenderam que fora do Tronco não serão sequer reconhecidos como galhos; que não se pode enverdecer, florir e dar bons frutos se não estiverem unidos a outros galhos e todos, juntos, ao mesmo Tronco. Que secos e estéreis, serão cortados e lançados fora. Eis o quê deveríamos, portanto, pedir ao Pai (que nada nos negará se seguirmos os seus mandamentos): o dom de permanecemos unidos a Jesus e ao Seu amor. Afinal, permanecer em Jesus é a nossa maior alegria, nosso tesouro mais valoroso e o nosso supremo bem. Que nunca aconteça de sermos lançados fora por ter nos tornado estéreis ou desprendidos do Tronco. Mas que saibamos reconhecer o Dom que Jesus é e ousemos apresentá-Lo a todos, indistintamente, com amor e alegria.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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