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Solenidade da Santíssima Trindade – o Deus que dança

Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. Não é a festa de um conceito, mas de uma realidade existente em Deus: Três pessoas distintas, e um só Deus. Ela é comunidade cujas pessoas divinas se amam, se respeitam e se promovem mutuamente. Nela, não há divisão nem competição. O Pai ama e gera eternamente o Filho. Amado, o Filho revela explicitamente quem é o Pai: um Deus rico em misericórdia e que só sabe amar. E ambos, Pai e Filho, enviam o elo desse amor, o Espírito Santo, para que Ele recorde aos crentes tudo quanto Jesus revelou e fez e os filialize no Pai, tornando-os filhos no Filho Unigênito.

Uma imagem bonita que a Teologia usa para falar da Trindade é a circunsecção ou circunspecção que, traduzida, pode-se usar a metáfora da brincadeira de roda: um Deus que brinca, se alegra e se diverte. Nele há comunicação de vida, de alegria, de intercâmbio de dons, pois Ele está permanentemente aberto à vida, ao diálogo e ao respeito. Ele é amigo da vida e do ser humano. Ele se fez próximo de cada homem e de cada mulher. Ele deixa vestígios de sua presença e de sua salvação em toda história, pessoal, comunitária, eclesial e mundial. Não há outro relato na história humana de tamanha ousadia: de um Deus que fez tanto por sua criatura; que se encarnou para ser um com ela e para revelar-lhe o seu eterno plano de amor.

A Festa da Trindade é a festa do amor. De fato, não cultuamos Deus porque Ele seja o “Todo Poderoso”, o “Altíssimo”, “Impassível” e “Perfeitíssimo” como outrora rezava o catecismo antigo. Não. Um Deus assim, soaria distante demais da suas pobres criaturas. Afinal de contas, Ele conhece nossas misérias e limitações, sabe das nossas fragilidades, da debilidade da nossa liberdade e da incoerência das nossas decisões. Por essa razão é que Ele acolhe qualquer sinal de resposta de nossa parte. Um pouco de amor já basta; Ele o aceita. Do contrário, um deus distante nas abóbodas celestes nos motivaria pouco.

Mas o Deus único e verdadeiro desceu dos céus, veio ao nosso encontro e se mostrou frágil, pequeno e pobre. Revelou-se pleno de amor. E porque ama, é vulnerável e sofre conosco e por nós. Ele, inclusive, se impôs um limite. Ele não pode tudo. Ele não pode, por exemplo, deixar de nos amar. E nada nem ninguém pode forçá-lo a fazer outra coisa senão isso: nos amar decididamente. A iniciativa foi d’Ele, pois n’Ele não há a menor sombra de egoísmo, de indiferença e de ensimesmamento. Deus não vive para si, senão para as criaturas às quais Ele se pôs a serviço no amor.

Pelo batismo fomos incorporados à vida da Trindade: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.Tornamo-nos filhos de Deus e co-herdeiros e irmãos de Jesus graças à ação do Espírito Santo em nós. Logo, todo aquele que cultua esse Deus age como age a Trindade: na abertura e na solidariedade ao outro. Eis por que é impossível nos dizermos cristãos e negarmos o perdão a quem nos ofendeu. É incompatível com a vida Trinitária em nós sustentar um desejo de vingança, de ódio e de morte contra quem quer que seja. Deus-Trino é doação, diálogo, partilha, perdão e comunicação. É incoerente rezar o CREDO se eu não estou disposto a viver a fraternidade, a comunhão e a unidade com todos. Não tem sentido rezar o PAI-NOSSO se é a minha vontade que deve prevalecer, antes e depois de tudo. Se em minha vida não há espaço para os valores do Reino de Deus. Se adiro à cultura da violência, da mentira, do ódio e da morte espraiada nas redes sociais, nos relacionamentos e na legalização do aborto, das drogas, da corrupção e das injustiças.

Infelizmente, muitas vezes, a TRINDADE vive exilada da nossa vida e da nossa práxis cristã, das nossas ações e dos nossos gestos. Dizemos crer no Deus de Jesus Cristo, mas somos insensíveis, desleais, violentos, presunçosos, pouco misericordiosos, apáticos diante dos sofrimentos do mundo e incapazes de sair de nós em direção aos mais necessitados, aos pequenos e sofredores. Expurgamos a Trindade de nós quando nos ocupamos demais conosco e sobra pouco espaço e tempo para o outro. Quando o que efetivamente importa é a nossa própria felicidade em detrimento da dos nossos semelhantes. Quando impomos pesados fardos sobre os ombros alheios e não nos movemos na intenção de aliviar o peso da existência de alguém.

Eis por que Deus nunca se coloca do lado dos poderosos deste mundo, dos sanguinários e opressores, dos déspotas que se fazem de surdos e de cegos diante dos clamores dos pobres, dos desempregados, dos doentes e dos desrespeitados em seus direitos. Dos que clamam por um mundo mais justo e equânime, com menos abismos sociais e com políticas públicas que garantam a saudabilidade do cidadão em todas as suas dimensões existenciais. O Deus-Trino não faz acordo com os Palácios, os Castelos, as Câmaras, os Senados e as Cortes. Ele não se alia aos governantes e líderes que oprimem, sufocam e matam o povo. O Deus único e verdadeiro está do lado do povo nas ruas, nos casebres, nos corredores dos hospitais, nas escolas sucateadas, nas favelas e nas estradas e rodovias, junto às paralisações. Deus é o “caminhoneiro” do amor, da solidariedade, da misericórdia, do perdão e da vida digna para todos.

Neste dia, portanto, é oportuno que nos perguntemos com honestidade: qual a imagem de Deus que trago comigo? A qual “deus” eu cultuo verdadeiramente: ao Deus Único e Verdadeiro ou aos falsos deuses deste mundo? Que “deus” eu tenho anunciado com a minha vida e com o modo de me relacionar com as pessoas? Que “deus”? Que mundo? E que homem convivem em mim e comigo?

“Padre, eu sou divorciado. Eu posso comungar?”

“Padre, sou divorciado e me casei novamente no civil. Eu posso comungar?”

Ouçamos o papa Francisco em alguns fragmentos extraídos do livro “Política e sociedade”, escrito pelo sociólogo francês Dominique Wolton, lançado ano passado (2017).

“[…] Algumas pessoas com tendências demasiadamente tradicionalistas combatem isso, dizendo que esta não é a verdadeira doutrina. Sobre a questão das famílias irregulares, eu disse no capítulo oitavo [da Exortação Apostólica Amoris Laetitia] que há quatro critérios: acolher, acompanhar, discernir as situações irregulares e integrar. Não se trata de uma norma rígida. Isso abre um caminho, um caminho de comunicação. Imediatamente, me perguntaram: ‘Mas é possível dar a comunhão aos divorciados?’. E eu respondo: ‘Conversem com o divorciado, com a divorciada, acolham essas pessoas, acompanhem-nas, integrem-nas, diferenciem as situações!’. Infelizmente, nós, os sacerdotes, estamos acostumados com normas rígidas. E assim é difícil para nós ‘acompanhar o caminho, integrar, discernir, dizer coisas positivas’. Na realidade, o que acontece é que as pessoas dizem: ‘Não podem comungar’, ‘Não podem fazer isso ou aquilo’: essa é a tentação da Igreja. Nós encontramos esse tipo de proibições no drama de Jesus com os fariseus. É a mesma coisa! Os grandes da Igreja são os que têm uma visão que vai além, os que compreendem: os missionários”.

De fato, aos recasados, no capítulo VIII da Exortação Amoris Laetitia, embora considere que “o divórcio é um mal” e que seja “muito preocupante o aumento do número de divórcios”, Francisco tem uma palavra de ânimo: “os divorciados que vivem em uma nova união podem encontrar-se em situações muito diferentes que não devem ser catalogados ou fechadas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral”. E recomenda: “quanto às pessoas divorciadas que vivem em uma nova união, é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que ‘não estão excomungadas’ nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial”. E aos pais separados, suplica: “nunca, nunca e nunca tomeis o filho como refém. (…). Que eles não sejam usados como reféns contra o outro cônjuge, mas cresçam ouvindo a mãe falar bem do pai, embora já não estejam juntos, e o pai falar bem da mãe”.

Em síntese, o papa pede um verdadeiro trabalho de “escuta e de atenção” para com esses fiéis por parte do clero: “o diálogo com o sacerdote, no foro interno, concorre para a formação de um juízo reto sobre aquilo que impede a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e levá-la a crescer”. Ele chama esse trabalho de discernimento de “a lógica da integração”. É preciso integrar e não apartar; incluir e não condenar: “já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”, sublinha.

É preciso, no dizer do papa, descer ao particular, se quisermos ser honestos e misericordiosos. “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais aos que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”. Ninguém deve ser condenado indefinidamente. Afinal, a família é “um ser vivo” e, como tal, não se pode pensar que as coisas sejam “preto ou branco”. A vida concreta das famílias é, por vezes, um amontoado de cores e em outros momentos cinza puro. Não é fácil ser família. E num momento de maior veemência do documento, Francisco chancela: “Há casos em que a separação dos corpos é moralmente aceitável e altamente recomendável, sobretudo, quando se envolve violência e põe em risco a integridade física da esposa e dos filhos”.

Portanto, à luz do Evangelho e do Magistério da Igreja, cada caso é um caso; olha-se para pessoa e não para o pecado. E, sim, em muitos casos, os divorciados e que assumiram nova união esponsal podem retornar à mesa da Comunhão Eucarística.

Pentecostes: a festa do amor

Era quase fim do inverno. Iniciávamos o segundo semestre na Faculdade do segundo ano do meu curso de Teologia. O professor de pneumatologia [estudo do Espírito Santo] entrou na sala de aula e à queima-roupa nos perguntou: “Quando foi que você experimentou pela última vez a ação do Espírito Santo?”.

Aquela questão, posta assim tão desconcertante, sem aviso-prévio, calou profundo dentro de mim, como se um pedra me tivesse sido lançada na alma. Fez-se em mim um silêncio perturbador. Eu não sabia o que dizer. Ninguém ali tinha a resposta. Todos se entreolhavam. Eu não tinha ideia de por onde começar. E não ousaria a ser o primeiro. A verdade é que eu não me lembrava de um dia realmente significativo nem de algo grandioso para ser dito como ação do Espírito Santo. Afinal, experiência com o Espírito Santo precisava ser, no mínimo, algo excepcional. Era o que eu acreditava à época.

Entretanto, daquele dia em diante eu passei a ficar mais atento às ações do Espírito. Às suas sutilezas. E para a minha surpresa, desde então eu o tenho visto nas miudezas da minha existência simplória e sem maiores notoriedades. Os instantes mais simples e fugidios estão eivados de sua presença. Como agora. Ei-lo aqui, agindo, quando me propus a escrever este texto e contar de forma despretensiosa essa minha experiência acadêmica. E esse simples gesto está tomado por uma verdade escriturística: O lugar onde Deus deseja se revelar não é mais no monte Horeb ou quiçá no Tabor. Não. O “monte” no qual Ele deseja escrever a sua vontade, manifestar a sua presença e o seu amor é o coração do homem.

De fato, não são poucos aqueles que têm o Espírito Santo como alguém distante e, apesar de nomeá-lo, não o sentem assim, tão próximo. Sim. O Espírito Santo é alguém, com personalidade e características próprias. Então, por que nos falta tanta convicção a respeito de sua ação em nós e no mundo? Por que somos ainda tão tímidos em nossa resposta à sua proposta? Qual? A de nos deixarmos conduzir por Ele. E pensar que Ele nos foi dado em profusão no dia em que fomos chamados à vida da trindade, no dia do nosso batismo: “eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A partir daquele dia, cada cristão se tornou sede da vida divina. Com o Pai e o Filho, veio-nos o Espírito Santo cuja missão é a de nos conformar à vontade do Pai e produzir em nós as feições do Filho. Santo Agostinho dizia que o Espírito Santo, por que mora dentro de nós, é “mais íntimo de nós do que nós mesmos”. Esta proximidade, por vezes, impede-nos de vê-lo nitidamente, à distância. É como se houvesse um ponto cego entre mim e Ele. Mas Ele está ali, presente e agindo em mim e através de mim.

O Espírito Santo é a pessoa mais presente na Teologia Bíblica. Ele esteve antes de tudo, na criação de tudo e depois de tudo. Permanece até hoje e estará até o fim. O livro do Gênesis afirma que “no princípio […] a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1, 2-3). Ele é referido como o sopro, o hálito de Deus. Ainda no poema da criação, quando se afirma por 10 vezes “Deus disse…”, percebemos que nesse falador de Deus – uma vez que o som necessita de ar (oxigênio) -, ali está o Seu Espírito. E se o Espírito é o “ar” que sai da “boca” de Deus, o fonema pronunciado através desse “aparelho fonador divino” é o Verbo, a Palavra Eterna do Pai.

Desse modo, habitando o coração do homem, a Ruah de Deus cria ponte entre o humano e o divino. E o faz num processo novo de comunicação: reza em nós e conosco, pois, “não sabemos orar como convém” (Rm 8,26). Por isso, “Ele vem em socorro à nossa fragilidade” (idem). O Espírito Santo é como os meandros de um rio que encontra labirintos existenciais no coração do ser humano e ali pode escoar levando-o a uma experiência concreta de Deus. Por isso, o Santificador não é propriedade nossa. Ele é livre. E de tão livre é subversivo: “Ele sopra onde quer” (Jo 3,8), como quer e se quiser. Não se deixa engaiolar. Nisso, a metáfora é perfeita. Como “pomba”, o Espírito de Deus dirige-se a lugares e ambientes que não ousaríamos chegar. Ele chega sempre antes de nós e permanece depois que formos embora.

Infelizmente, ainda somos “templos tímidos” (I Cor 6, 19). Entretanto, “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de desassombro e de intrepidez” (2 Tm 1,7), advertiu-nos o apóstolo dos gentios. Paulo foi um homem cheio do Espírito Santo, dessa fortaleza, desse amor e dessa coragem, assim como foram os grandes homens e mulheres da Bíblia. Mas o quê significa ser cheio do Espírito Santo?

Ora, ser cheio do Espírito Santo significa ser cheio de vida, de esperança, de fé, de ânimo, apesar das realidades de morte e de violência às quais somos expostos todos os dias e, não obstante, também aquelas que trazemos dentro de nós. A fé, porém, afirma-nos: “justamente por que espero na ressurreição dos mortos e na vida do mundo vindouro, eu já tenho aqui e agora que resistir aos poderes da morte e da destruição, e amar esta vida aqui de tal maneira que com todas as forças possa libertá-la da exploração, da opressão e da alienação. E vice-versa[1]“. Ter o Espírito Santo nos faz crer inexoravelmente na ressurreição. E crer na ressurreição não é fácil nem simples, ainda mais por que somos alimentados diuturnamente por uma cultura que fez aliança com o que há de mais podre e já em estado de decomposição nesse mundo.

Como no tempo do profeta Elias, também hoje há “Acab e Jezrael” que, para conseguirem o que pleiteiam, mentem, tramam e matam (cf. 2 Rs 21). Os dias atuais não diferem dos tempos monárquicos de um Israel distante. Ainda hoje somos solapados de todos os lados: política, cultural e religiosamente. Mas, se não há espaços para o azeite novo e a água límpida do Espírito de Deus, nem tampouco para a brasa do Seu fogo, como outrora incandescente fora posta sobre os lábios do profeta Isaías (Is 6, 1ss), Ele provoca em nós aquela resiliência que não nos deixa desistir frente às inúmeras batalhas, mas, ao contrário, levanta-nos ainda mais fortes e nos leva a experimentar na dor e na luta “céus novos e uma terra nova” (Ap 21, 4).

O Espírito Santo, Sabedoria do Pai e do Filho, é companhia constante do homem e da mulher de boa vontade. Não apenas dos cristãos. Ele não é propriedade nossa. Ele motiva todos os homens de ontem e de hoje, e os motivará sempre onde quer que estejam. Ele inspira nos corações os melhores sentimentos de paz, de amor e de fraternidade, mas não só; interpela-nos àquela paz inquieta que nos faz gritar a plenos pulmões pelos nossos direitos e reivindicar nossa dignidade usurpada. É também Ele que inspira nos artistas o melhor da sua arte, nos músicos o melhor da sua canção e nos poetas o melhor das suas poesias. Com Sua ciência, contribui com descobertas novas e significativas para a humanidade. É dele a façanha de descobrir sempre o novo, dar a um o dom da peculiaridade e outro o da genialidade. Homens e mulheres que talvez jamais tenham ouvido falar do Cristo, mas que foram interiormente inspirados pelo sopro de um Criador que também os chamou à vida. Afinal, vida é o dom primordial dEle.

O Espírito do Senhor, às vezes, causa certo barulho. Basta recordarmo-nos de Pentecostes. Estando todas as gentes reunidas em Jerusalém para a festa judaica das Colheitas ou Semanas, eis que surge um vento impetuoso e desestabilizador; descortina o medo e desobstrui os canais de comunicação. Pedro, e os mais próximos do mestre, recebem-no com tamanha força que, rompidas as portas e janelas, fala a todos os presentes, anunciando-lhes o “mundo novo”: “[…], pois para vós é a promessa, assim como para vossos filhos e para todos aqueles que estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2, 39). O primeiro dos apóstolos falava-lhes do dom do Espírito Santo e, encorajado por Ele, fez o seu mais eloquente discurso. Não havia receio nas palavras de Pedro e, se seus lábios tremiam, era por que as palavras lhe queimavam, antes, o coração: “a este Jesus [que vós crucificastes], Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32).

O Espírito Santo nos faz testemunhar Jesus. Testemunhá-lo perante o mundo que é contrário ao Seu projeto. E em Jesus está a síntese perfeita da ação do Espírito Santo. Esse Espírito foi companhia constante em toda a vida daquele homem de Nazaré. Graças à Sua ação, o Verbo se encarnou no seio de uma virgem. E por que unidos, a palavra de Jesus era uma palavra poderosa, isto é, cumpria o que dizia [performática]. Dos lábios dEle, de Suas mãos e do Seu relacionamento com as pessoas, e em Sua relação filial com o Pai, o Espírito Santo tinha sempre a liberdade de atuar. Ele esteve antes, durante e continuou após a volta de Cristo à direita de Deus. Foi por meio dessa ação divina que Jesus se entregou sem reservas ao anúncio do Reinado de Deus e a Ele se deu inteiramente. Numa palavra, o Espírito Santo foi o receptáculo da vida de Jesus. Ele a fecundou, plasmou e conduziu. O Espírito Santo foi quem, paulatinamente, propiciou que Jesus fosse se assenhoreando de Sua missão e de Sua vocação. Desde o deserto, no confronto com o inimigo de Deus, até a cruz, lugar da entrega por excelência, foi o Espírito quem contribuiu para que Jesus cumprisse com eficácia e obediência a vontade do Pai. E quando terminada a sua missão no mundo, o Espírito foi o último suspiro do Filho, ajudando-o a morrer no Pai: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu Espírito” (Lc 23, 46).
Depois, na ressurreição, por meio do Espírito, o Pai arranca o Filho das garras do poder da morte, dos ditames e do império que ela governava e O traz à vida plena. E, por que de junto do Pai, o Filho envia aos seus seguidores a plenitude do Seu Espírito. O Espírito do Pai é também o do Filho.

Desde então, os que se dizem cristãos não deveriam mais duvidar desta presença atuante, às vezes silenciosa, em outras um tanto “barulhenta”, mas sempre atuante no mundo. Num mundo que é obra da ação do Espírito de Deus; que Ele ama e pelo qual ficou profundamente admirado ao constatar que “tudo era muito bom”. O mundo é objeto do amor de Deus: um lugar onde se canta, se dança e se ama, mas também, infelizmente, onde se cala, se reprime, se odeia e se mata. É neste mundo, e não em outro, que o Espírito anseia por corações sobre os quais Ele possa agir neles e através deles. Este mundo não é, e jamais será, entregue aos poderes do diabólicos, que terminam na carne por não conhecerem a novidade e a santidade do Espírito. Esse mundo sempre pertenceu ao Espírito de Deus. E, por isso, Ele tem derramado com profusão e largueza sobre toda a sua criação o dom do Seu Espírito. Este mundo, obra do hálito criador de Deus, lhe foi consagrado desde sempre.

Por vezes, ouvimos falar de pedidos por consagração do mundo ao Espírito Santo. É preciso que se diga com honestidade e coragem: o mundo já o foi de uma vez por todas na cruz de Cristo, de modo pleno e acabado. De fato, não há altar melhor, maior e mais santo do que este: a cruz do Senhor. De lá, antes de expirar, Jesus entregou o Seu Espírito (cf. Jo 19, 30). E o entregou para quem? Para nós, para este mundo, para quantos se abrirem à sua presença. E por que Ele no-lo deu/ Para que nós, e toda gente e em todo lugar, pudéssemos ter hoje, como ontem, amanhã e sempre, a nossa mais profunda, pessoal e comunitária, “experiência com o Espírito Santo de Deus”. Quem a tiver, verá tudo transformado, inclusive e, sobretudo, a face do próprio coração.

A Videira Verdadeira

Na Liturgia desse domingo, refletimos o capítulo 15 do Evangelho de S. João no qual Jesus se compara a uma videira: “Eu sou a videira verdadeira e vós sois os ramos”. Um discurso eloquente e que bebe da Tradição Profética das Sagradas Escrituras. Profetas como Isaías e Jeremias, por exemplo, usaram a mesma alegoria para se referir ao Povo da Antiga Aliança. Israel era tida como a vinha do Senhor. E, embora Ele tenha se dedicado com esmero, ela não conseguiu dar os frutos que o Senhor esperava, a saber, a justiça, a equidade, a fidelidade e o amor. Em Jesus, porém, descortina-se um novo Povo de Deus, uma nova Aliança e uma nova Vinha. Interessante notar nesse discurso o lugar que Jesus se dá: “Eu sou a videira verdadeira”, isto é, o Tronco de onde os discípulos – os ramos – extrairão a seiva necessária para se manterem vivos e poderem dar bons frutos. Eis porque a atitude mais sensata é a de manter-se fixo a Ele. Pois, o ramo que se desprender do Tronco, morrerá com certeza. Mas aquele que ficar, será podado mais de uma vez para que possa sempre dar frutos e “frutos saborosos ao paladar”. A mensagem é ainda para falar da vida cristã. Fora de Jesus, os cristãos nada podem fazer. A fé será tímida, a esperança, vã e a caridade inautêntica. Jesus é essencial para a sobrevivência dos ramos. Ele é o absoluto. Indispensável para a caminhada discipular. Se, por outro lado, nos retirassem Jesus, retirariam-nos tudo. Afinal, Ele é o ápice, o início e o fim da nossa vida. Ele dá e é o sentido da nossa existência. Fora dEle, o cristão não se reconhece e não existe ipso facto. Mas, por estarmos inseridos nEle, o Pai que é o agricultor há de esperar de nós bons frutos. E quais são esses frutos? Preferencial e indiscutivelmente, o fruto do amor. Mas não qualquer amor, senão, o amor que se traduz em serviço. Ora. Que ninguém se engane. A vida cristã é necessariamente serviço. “Filhinhos, amemo-nos uns aos outros não com palavras, mas com atos e em verdade” (I Jo 3, 18). Infelizmente, há muitos cristãos que, embora unidos ao Tronco, não produzem fruto algum: são até muito vistosos, floridos, verdes, mas os frutos nunca aparecem; não vingam. Por fora, belos, mas por dentro são ramos estéreis. Nunca estão dispostos nem disponíveis. Não se implicam nem querem dar a mínima contribuição para o bem de todos; para o crescimento da comunidade. Tais cristãos se esqueceram (ou nunca souberam?) de que a vida cristã é essencialmente serviço: a Deus e ao outro. E que tal serviço possui uma lei: não viver unicamente para si mesmo. Pois até na natureza essa ordem está impressa: “os rios não bebem da própria água, as árvores não comem do próprio fruto, o sol não brilha para si próprio e as flores não perfumam para si mesmas”. Não obstante toda essa lógica ensinada pelo Mestre, a Videira Verdadeira, na sua oferta de amor desmedido durante toda a sua vida, há aqueles cristãos que, livremente, resolveram se apartar do Tronco por um desentendimento com um irmão, por causa de um pecado alheio ou por um escândalo na Igreja. Esses se decidiram por seguirem sós ou foram se enxertar em outros troncos. Não compreenderam que fora do Tronco não serão sequer reconhecidos como galhos; que não se pode enverdecer, florir e dar bons frutos se não estiverem unidos a outros galhos e todos, juntos, ao mesmo Tronco. Que secos e estéreis, serão cortados e lançados fora. Eis o quê deveríamos, portanto, pedir ao Pai (que nada nos negará se seguirmos os seus mandamentos): o dom de permanecemos unidos a Jesus e ao Seu amor. Afinal, permanecer em Jesus é a nossa maior alegria, nosso tesouro mais valoroso e o nosso supremo bem. Que nunca aconteça de sermos lançados fora por ter nos tornado estéreis ou desprendidos do Tronco. Mas que saibamos reconhecer o Dom que Jesus é e ousemos apresentá-Lo a todos, indistintamente, com amor e alegria.

O Bom Pastor

“Eu sou o bom pastor. Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas… O mercenário, que não é pastor, quando vê o lobo, abandona as ovelhas e foge…” (Jo 10, 11ss).

O discurso de Jesus é uma dura crítica aos religiosos do seu tempo. Ele nem sequer os chama de “maus” ou “falsos” pastores. Ele não os reconhece. Antes, chama-os de ladrões e mercenários. E o motivo é notório: aqueles líderes religiosos fizeram da religião um trampolim para os seus interesses próprios. Colocaram pesados fardos sobre os ombros do povo, e impostos altíssimos. A participação no culto era oneroso e os sacrifícios enriqueceram ilicitamente os sacerdotes. Eles, no entanto, estavam a serviço das castas superiores e dos abastados da sociedade. Serviam aos ricos e não se condoíam com as mazelas dos pequenos e indefesos. Eram insensíveis e surdos aos clamores dos pobres e infelizes. O sumo sacerdote e seu séquito instrumentalizaram a religião e tornaram-na manipuladora das consciências. De fato, a religião se tornara perversa, desumana e insensível. Ela já não era mais capaz de propor a humanização do homem nem tampouco cumprir com a missão de religar os corações. Indiferente às dores do mundo, ela se alienou [e por isso alienava]. Os seus muitos dogmas, sua doutrina erudita, suas celebrações apoteóticas e suas rubricas rituais conservavam uma religiosidade apenas ritual, além de criar um grande abismo entre o “profano” e o “sagrado” opondo-os, inclusive. Deus era apresentado como algo distante do ser humano (residia no sétimo céu) e era “propriedade de poucos privilegiados”. O povo, os pobres, os pecadores, as prostitutas, as adúlteras, os publicanos, os cobradores de impostos, os doentes, os leprosos, os paralíticos, os cegos, os estrangeiros e os escravos eram postos à margem dessa relação. Não por acaso, o discurso de Jesus foi proferido no “Pórtico de Salomão”, entrada que dava acesso ao interior do Templo e dito logo após a cura do cego de nascença. Afinal, todos esses ditos acima não eram aceitos no Templo, pois eram considerados “impuros”. A denúncia de Jesus, portanto, é clara: “Como vocês não foram capazes de pastorear o rebanho do Senhor, mas ao contrário, o extorquiu, manipulou e subjugou em proveito próprio, Eu mesmo, o Bom Pastor, isto é, o único e verdadeiro, vou arrancá-lo de suas garras de lobos e mercenários para conduzi-lo às pastagens seguras”. Infelizmente, o contexto do Evangelho ainda é muito atual. A religião continua sendo, em muitos casos, usada para apaziguar as consciências e adormecer as indignações justas e necessárias. E não são poucos aqueles que preferem e anunciam um “deus ditador, tirano e legislador”, insensível e distante da história e da vida do homem. Para muitos desses, a religião deveria se ocupar unicamente da dimensão espiritual do homem. Ainda temos medo da liberdade e da autonomia de filhos de Deus que Cristo nos conquistou com a doação da sua vida. Nossas igrejas estão abarrotadas de “pastores-legisladores”, mas pouco “misericordiosos” segundo o modelo do Cristo Bom Pastor. E há ovelhas que preferem a “canga” da lei e o peso da “mão da justiça” por temerem a vastidão da planície e do novo modelo de redil inaugurado por Jesus de Nazaré: sem porteira e sem distinção de nenhuma forma. Não por acaso, Ele relativizou tudo isso: templo, sacerdotes, culto, sacrifícios, uma vez que não há mais distâncias entre Deus e o mundo, e nenhum outro mediador será aceito se não for o próprio Cristo – o Sumo Pontífice – que se fez ponte definitiva entre Deus e o homem. Eis o modelo irrevogável do ” Bom Pastor”. Quem O conhecer de fato – não pelo intelecto nem pela doutrina, senão pelo encontro pessoal – reconhecerá Sua voz, única e inconfundível, entre inúmeras outras e verá n’Ele a face do Pai Misericordioso e Perdoador, e seremos, enfim, um só rebanho-Pastor. Ousaremos hoje tamanha conversão; de sentido e de vida?

Perdoar: como e por quê?

Perdoar não é coisa simples nem fácil, e não ocorre de um dia para o outro. Às vezes, leva-se uma vida inteira. Inúmeras são as formas de perdão, pois variadas são as ofensas, as agressões, as decepções, as frustrações e os equívocos ao longo da vida. Pode ter sido uma palavra torpe, rude, dirigida num momento impróprio, uma calúnia, uma mentira, uma promessa não cumprida, uma agressão física, verbal, algo contra nós ou, até mesmo, contra alguém que queremos muito bem e de quem tomamos as dores. Não faltariam justificativas para nos mantermos na raiva, no rancor, no ódio, no ressentimento, no desejo de vingança, no desejo de nunca mais perdoar. Há situações em que a simples presença da pessoa por quem nutrimos algum desafeto nos constrange, azeda o nosso dia, faz a pele até arrepiar, o coração dar sinais de taquicardia. Enfim… A falta de perdão é, na verdade, um veneno que vamos tomando em goles suaves e que vai aos poucos nos entorpecendo. Todavia, perdoar é antes de tudo um sinal de sabedoria e de inteligência. De sabedoria porque, ao perdoarmos, nós abrimos a cela na qual duas pessoas estão aprisionadas: eu e a pessoa por quem nutro algum sentimento ruim. Ao perdoá-la, eu a libero ao mesmo tempo que me deixo mais livre. Depois, é inteligência porque ao perdoar alguém eu estou retirando um fardo insuportável do coração. Desse modo, poderei seguir mais leve pela vida. Pois, do contrário, eu terei sempre que me recordar do mal sofrido e dizer à minha bílis o motivo do ódio ou do ressentimento por aquela pessoa. Sem falar o quanto isso nos desgasta, uma vez que exige uma enorme quantidade de energia. Ficamos exauridos. Há quem diga que não é ódio, nem nada. É só uma indiferença, uma certa apatia, um não-sei-o-quê. Pior. Quando não conseguimos dar nome ou tratamos o outro como se ele não existisse, é porque o “mal sentimento” já se cristalizou dentro de nós. Impregnou-se de tal modo que já não nos incomoda mais; faz parte de nós. Isso seria péssimo para a vida presente e, sobretudo, para a vida futura. O conselho de Jesus é para que perdoemos sempre: “setenta vezes sete”. Perdoar não porque o outro mereça – às vezes não merece mesmo; não porque estou me sentindo à vontade ou porque sou magnânimo. Perdoar começa por uma decisão livre, mas consciente, por saber que Deus, o único Justo e Santo, nos perdoa sempre e todos os dias. E que não há pessoa sobre esta terra que não precise pedir ou dar o seu perdão. Perdoamos porque queremos receber de Deus o seu perdão que não questiona o porquê nem o como pecamos, e que não se interessa pelas minúcias do nosso pecado, mas que simplesmente perdoa sem nem mesmo pedir provas de que não retornaremos a pecar. Perdoamos porque condicionamos o perdão de Deus ao perdão que damos ao outro: “Perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem nos tiver ofendido…”. Por fim, perdoar não quer dizer que voltarei a me relacionar com a pessoa em questão ou que simplesmente, como num passe de mágica, esquecerei o que ela me fez. Isso seria hipocrisia ou mentira. Quem perdoa passou por um processo de cura e de conversão, mas pode ser que o outro, que causou a ferida, ainda não. Logo, é prudente não lhe dar margem para novas ofensas ou feridas. Porém, não lhe deseje o mal, mas, se tiver a oportunidade, faze-lhe o bem. Não é preciso evitá-lo, mudar de rua, de calçada, de shopping, de cidade e até de igreja para não encontrá-lo. Isso não seria verdadeiro perdão. Quando verdadeiro, o perdão nos possibilita seguir com naturalidade a vida. Por isso, se no meio da travessia encontrar a pessoa que foi perdoada, estenda-lhe a mão, cumprimente-a e siga o seu caminho em paz. Afinal, o perdão é também uma forma genuína de amar por que se sabe profundamente amado, e sem merecimento.

 

“Orar costuma fazer bem”

“Orar costuma fazer bem”. Eu era criança, e me lembro de ter ouvido essa expressão certa vez na voz do maior poeta/compositor católico brasileiro: Pe. Zezinho. Ainda hoje, volta-e-meia, ela me vem ao coração. Orar é uma forma humilde de reconhecer que há alguém maior do que nós. Um Ser que tudo criou e fez por amor. Que me ama infinitamente e que deseja o meu bem e a minha felicidade. Orar me coloca em conexão com Ele. Nesse sentido, a oração cria em mim um espaço adequado para Ele vir ao meu encontro, embora Ele já esteja o tempo todo comigo; dentro de mim. Na verdade, a oração me torna mais sensível para percebê-lo. Ela me predispõe a ouvi-lo, prescrutar sua vontade e estar em relacionamento afetivo com Ele. A oração me torna, igualmente, mais sensível ao outro, compassivo e misericordioso. Faz com que eu me responsabilize pelo mundo. Não se ora apenas para pedir, embora eu possa e deva lhe apresentar as minhas necessidades e as dos meus irmãos e irmãs. A petição é também uma forma de orar e que Lhe agrada. Por isso, os pais oram pela conversão dos seus filhos, para que se endireitem na vida e progridam. Se as coisas estão difíceis; se os filhos se tornaram desobedientes, arredios e tendem para caminhos maus, não há melhor coisa a fazer senão isso: orar. Pedir a Deus que os alcance e os instrua. Que os traga de volta para o bom caminho. Talvez nos relacionamentos afetivo-sexuais, na vida profissional, na saúde e nas demais áreas da vida tudo esteja reclamando atenção. Orar é um bom começo. É que a oração nos recentra. Ela nos coloca de novo no eixo, sobre os trilhos da nossa própria história. A oração, quando verdadeira, nos torna mais sadios e equilibrados. Ela nos dá a real dimensão de tudo. Ela nos torna autônomos e proativos. A oração nos apazigua quando tudo lá fora, ou às vezes dentro da gente, está em completa desarmonia. A oração nos repropõe o essencial. Ela nos ajuda a discernir e a obter sabedoria. Ela nos cura da dispersão. Se constante, ela cria intimidade entre Deus e o fiel que reza. Se autêntica, ela provoca sincera mudança interior. Há inúmeros modelos de oração e são todos válidos, sobretudo, a comunitária, aquela que se faz em Igreja. Mas só essa, não basta. É preciso que cada pessoa tenha seu momento especial com Deus, reservado e a sós; em silêncio ou entre lágrimas, e de preferência com a Sua Palavra nas mãos. Daí o conselho de Jesus: “Quando fores orar, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao Teu Pai que está no segredo…” (Mt 6,6). Orar é entrar no segredo de Deus e permitir que Ele adentre o nosso. É deixá-lo vir e lançar suas luzes sobre as trevas da nossa existência. Acender esperança e fé onde jaz a escuridão do medo e da morte. Todavia, há uma lógica na oração: Peça insistentemente e espere pacientemente (cf. Lc 18, 1-7). Pois, a oração quando honesta provoca um tsunami, um terremoto e uma tempestade invisíveis no mundo: ninguém os vê, mas sente. A oração sincera, autêntica e constante é capaz de tudo: de lançar montanhas ao mar e de tornar possível o impossível (cf. Mt 17, 20) e de, inclusive, converter o coração do crente.

 

Minhas impressões sobre GAUDETE ET EXSULTATE

Minhas impressões acerca da Exortação Apostólica – Gaudete et Exsultate – do papa Francisco

São apenas 5 capítulos, 44 páginas, 117 parágrafos e pode ser lida gratuitamente no site do Vaticano, conforme link.

A linguagem coloquial do papa Francisco ainda me surpreende. Sua maneira direta e simples de dizer as coisas o coloca em diálogo direto com o leitor. É para mim que ele escreve. Ele está falando comigo. Nesta sua 3º Exortação Apostólica (a 1ª foi Evangelii Gaudium e a 2ª Amoris Laetitia), ele aborda o tema da universalidade do chamado à santidade que nos faz parecer com Deus, o Pai, no amor.

Além de desmistificar o conceito de santidade, comumente associado a pietismos, semblante cerrado, mãos postas, e caricaturas pejorativas como “carola” ou “beata”, o papa propõe a santidade como fonte e esplendor da verdadeira alegria cristã. Afinal, não se pode conceber um santo triste e muito menos carrancudo, pessimista, negativo e fechado em si mesmo. Um santo é, antes de tudo, um bem humorado que encontrou a Graça de Deus e a vê em todo e qualquer lugar.

Depois, o papa cita os grandes mestres da espiritualidade cristã, mas não os propõe como únicos modelos a serem seguidos. Eles são exemplos e até podem nos estimular, mas, por vezes, seus modos de viverem a santidade são distantes da nossa realidade e podem até nos desanimar. Por isso, o papa faz questão de propor modelos mais próximos da nossa realidade, sugerindo-nos, inclusive, que prestemos atenção nos próximos de nós; nos da nossa casa, entre nossos parentes e amigos:

“Por exemplo, uma senhora vai ao mercado fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e… surgem as críticas. Mas esta mulher diz para consigo: «Não! Não falarei mal de ninguém». Isto é um passo rumo à santidade. Depois, em casa, o seu filho reclama a atenção dela para falar das suas fantasias e ela, embora cansada, senta-se ao seu lado e escuta com paciência e carinho. Trata-se doutra oferta que santifica. Ou então atravessa um momento de angústia, mas lembra-se do amor da Virgem Maria, pega no terço e reza com fé. Este é outro caminho de santidade. Noutra ocasião, segue pela estrada fora, encontra um pobre e detém-se a conversar carinhosamente com ele. É mais um passo” (n.16).

E nos adverte quanto aos dois inimigos atuais e sutis na Igreja que atentam contra a nossa santidade: o gnosticismo e o pelagianismo. Sobre o gnosticismo, disse:

“O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério», tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros. Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus” (nn. 40-1).

E acerca do pelagianismo, afirmou:

“Com efeito, o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade. Esquecia-se que «isto não depende daquele que quer nem daquele que se esfoça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso» (Rm 9, 16) e que Ele «nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Quem se conforma a esta mentalidade pelagiana ou semipelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, «no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico». Quando alguns deles se dirigem aos frágeis, dizendo-lhes que se pode tudo com a graça de Deus, basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça. Pretende-se ignorar que «nem todos podem tudo», e que, nesta vida, as fragilidades humanas não são curadas, completamente e duma vez por todas, pela graça. Em todo o caso, como ensinava Santo Agostinho, Deus convida-te a fazer o que podes e «a pedir o que não podes»; ou então a dizer humildemente ao Senhor: «dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes” (nn. 46-9).

E denuncia:

“Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurarem os afastados nessas imensas multidões sedentas de Cristo.. Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos. Assim se habituam a reduzir e manietar o Evangelho, despojando-o da sua simplicidade cativante e do seu sabor. É talvez uma forma subtil de pelagianismo, porque parece submeter a vida da graça a certas estruturas humanas. Isto diz respeito a grupos, movimentos e comunidades, e explica por que tantas vezes começam com uma vida intensa no Espírito, mas depressa acabam fossilizados… ou corruptos. Sem nos darmos conta, pelo facto de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue. São Tomás de Aquino lembrava-nos que se deve exigir, com moderação, os preceitos acrescentados ao Evangelho pela Igreja, «para não tornar a vida pesada aos fiéis, [porque assim] se transformaria a nossa religião numa escravidão» (nn. 58-9)

Para tanto, Francisco [re]propõe as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23) como modelo inequívoco de santidade e códice de um verdadeiro santo. Afinal, a santidade nos leva a reconhecer no outro o Cristo que se fez um conosco, assumindo nossa condição humana em sua totalidade. Exorta sobre a figura pessoal do demônio, pai e artífice da mentira, inimigo de nossa santidade, e repropõe a intimidade como Maria, mãe de Jesus. Por fim, ele apresenta a oração como condição indispensável para se alcançar a santidade querida por Deus, por meio da qual se pode pedir o dom do discernimento e da sabedoria, bem como da ousadia e do ardor em anunciar o Evangelho do Mestre em Santidade, Jesus Cristo. E, no mais, a vida na graça sacramental e na atenção ao outro como forma de se crescer e se manter na santidade querida por Deus. Pois, onde houver fechamento, egoísmo, inveja, orgulho, vaidade, intimismo e autorreferencialidade, Deus, o único e verdadeiro Santo, não poderá atuar.

 

O ócio é essencial para a vida

Tão importante quanto trabalhar, é o ócio; o não-fazer-nada. “Ficar de bobeira”, de “papo-pro-ar”. Os antigos o viviam com excelência. Na rotina de um homem livre, havia tempo para o trabalho (normalmente na parte da manhã), banhos públicos (onde se vivia a dimensão social), um breve repouso no início da tarde, a leitura de algum poema (dos chamados poetas “rapsodos”) e no fim do dia, normalmente, era destinado às artes: à música e ao teatro. Havia ainda tempo para os exercícios físicos que davam resistência e robustez ao corpo. Sem falar que o homem primitivo vivia do que coletava e respigava. E para sermos honesto com a história, é preciso dizer: o homem mais preguiçoso de hoje trabalha mais do que o homem medieval.

Todavia, desde o advento da revolução industrial (séc. XVIII) quiseram – e conseguiram – nos convencer de que só o trabalho braçal, cansativo, fatigoso, é capaz de nos dignificar. Que é preciso estar o tempo todo ocupado em algum afazer. Vagabundear, andar a esmo ou simplesmente ficar recostado em algum canto fora definido como “pecado capital” ou coisa de malandro, de gente folgada que não tem o que fazer. Desde então, é impensável que um homem não venda a sua “força de trabalho”, não “arregace as mangas” e não vá à luta. A vida passou a ser conjugada como sendo uma entrega “voluntária”, mas necessária, ao trabalho. O o escambo, antes vivenciado entre as culturas, tribos e clãs, foi alterado sistematicamente para a moeda corrente; quem a tinha, detinha o poder de compra. Quem não a possuísse, mendigava. E mendigar era uma indignidade intolerável.

Na sociedade atual, o trabalho ocupa a maior parte do dia de uma pessoa. Somos instados a trabalhar para ganhar cada vez mais dinheiro pois, só assim, conquistaremos todos os nossos sonhos – quase sempre vinculados às coisas materiais, como posses e bens, por exemplo – e poderemos dar vazão aos nossos muitos desejos – especialmente aqueles sugeridos pela mídia, pelo marketing e pelas campanhas publicitárias. Se uma pessoa não produz, não trabalha, será tida como inútil e pesada para o sistema, para o mundo e para a família. E por sermos uma sociedade eugenista, toda e qualquer pessoa que não produz é considerada inútil. Crianças, idosos e doentes são vistos como dispendiosos e, por isso, dispensáveis. Não poucas vezes são descartados como lixo. O contrário é igualmente perverso: uma pessoa que trabalha oito horas por dia, seis dias por semana, na verdade é um “escravo”. Alguém ainda se lembra do conceito de “mais-valia”? Quatro horas trabalhadas são o suficiente para se pagar um dia inteiro de trabalho. As demais outras quatro horas vão de graça para o patrão. Todo esse tempo, irrecuperável, será vendido em troca de um salário quase sempre insuficiente. O trabalhador, no entanto, não terá tempo qualitativo para mais nada. Todos as suas demais dimensões da vida serão desconsideradas radicalmente: lazer, cultura, sociabilização, afetividade, sexualidade, espiritualidade, entre outras, enfim, estarão seriamente comprometidas..

Nessa vivência insana da vida, não haverá tempo suficiente e de qualidade para o ócio, para a reflexão, para a tomada de consciência e para simplesmente “não fazer nada”. Uma pessoa que vive uma rotina pesada e entregue quase que exclusivamente ao trabalho se tornará, inegavelmente, numa pessoa alienada, isto é, sem consciência de si, do outro, do mundo, do próprio corpo, de suas reais necessidades, de suas emoções e de suas aspirações mais profundas. O corpo será o primeiro a ressentir e a somatizar todo o estresse dessa rotina e dessa lógica. Começarão a aparecer inúmeras doenças e enfermidades, até ser demitida ou “encostada” porque já não “produz como antes” ou não atinge mais a meta imposta pela empresa. Todo este aparato é perverso demais. Os pais não têm tempo para os filhos e transferem a educação e o afeto deles para terceiros (avós, escola, igreja). As crianças não dispõem da presença e da autoridade dos pais para educá-las e acompanhá-las em seu processo de individuação. Os jovens facilmente se cansam e chegam exauridos à fase adulta. Os idosos se tornam “peças de decoração” nas famílias quando não relegados aos asilos.

Entretanto, viver pede mais, muito mais, do que uma busca frenética por ganhar dinheiro e por fazer fortuna. Não é nem de longe sábio ou prudente entregar-se a um emaranhado de coisas, enquanto a vida vai passando ao largo. “O trabalho dignifica o homem” foi o slogan criado por uma casta que, desde sempre, aprendeu a explorar e a manipular as camadas mais pobres. A lógica deste mundo, mergulhado no desespero e no caos, é da servidão voluntária ao deus “mamon“, o dinheiro. Há muitos miseráveis entre nós que só tem o dinheiro que acumularam ao longo dos anos. Há inúmeros mendigos com bolsas cheias de experiências profissionais, moedas de prata e de ouro em suas aljavas, mas que não dispõem de afeto nem de gratuidade nas relações. Há bastante jovens e crianças que já vivem o frenesi do mundo e se apressam por viver tudo aqui e agora, sem consistência nem maturidade suficientes. Há trabalhadores que depois de um mês exaustivo e de dias realmente cansativos, retornam para suas casas e não têm com que prover o cuidado da própria família de forma digna e honrada. O “sol” parece não ter nascido para todos.

Nesta lógica diabólica, pois divide o homem e o cinde até a medula, há um contingente enorme de desempregados que não serão realocados em postos de trabalho porque a própria lógica do sistema capitalista está sucateada, defasada e impõe que nem todos possam ascender de suas misérias. Não há como criar 13 milhões de novos empregos – só no Brasil – se não se pensar, urgentemente, numa nova forma de intercambiar as relações trabalhistas. O consumismo desenfreado, sem noção e sem razão, agiganta ainda mais o problema do mundo, do meio-ambiente, da natureza maltratada e cria-se problemas endêmicos de saúde pública. A dinâmica do “ter para ser” é desumana, insensível e homicida. A pessoa não é o que ela é, mas o que ela tem ou produz. Isso tem que mudar. Afinal, toda pessoa é valorosa por ela mesma, sem definições a priori ou posteriormente. Ninguém deveria valer mais por ter uma poder aquisitivo maior ou por causa do montante acumulado nas instituições financeiras que continuam arrecadando bilhões com sonegações e explorações de todo tipo. A vida humana não pode ser pautada pelo “toma-lá-dá-cá” que vivemos desde que passamos a considerar a moeda como a verdadeira detentora de todo e qualquer poder, seja ele de compra, de satisfação ou de felicidade. Há um tesouro que o dinheiro não pode comprar nem tampouco o tempo haverá de recuperar: a vida da pessoa humana.

Portanto, é preciso voltar a ler os clássicos. Eles, como luz de fósforo em meio à imensidão escura, nos darão clareza quanto ao tamanho da nossa ignorância. É indispensável “tirar o pé do acelerador”, dizer “NÃO” e aderir a uma agenda minimamente saudável em que o essencial da vida não seja preterido nem relegado para mais tarde, para depois ou quem sabe para nunca mais. É salutar que não se tenha medo de viver simples, básico, de forma cômoda, mas de modo a priorizar o “olho-no-olho” e, sobretudo, o “dar tempo ao tempo”, inclusive para que tudo pegue verdadeiro sabor e gosto como uma comida feita no fogão à lenha, como na tempo das “matronas” em que um cozido ficava por dias “decantando” até atingir o ponto e a consistência ideais. Desse modo, também as relações, os sonhos e, sobretudo, a vida, necessitam de tempo. Sem isso, não viveremos de fato, mas sobreviveremos. E não há forma pior de morrer, embora ainda se viva. Ou é isso ou a vida foi em vão; não mais do que um trabalho tedioso e estafante.

 

Discípulos alegres, filhos da Ressurreição

No Domingo de Páscoa, a Liturgia nos fez acompanhar Pedro e o discípulo amado em direção ao sepulcro em que Jesus havia sido posto, logo após Maria de Magdala lhes ter dito que o corpo do Senhor havia sumido (cf. Jo 20, 1-9).

O artista Eugène Burnand (30 de agosto de 1850 – 4 de fevereiro 1921) pintou essa passagem do Evangelho com grande maestria, aliás, como é próprio da arte e dos pintores, de um modo geral. Ele descreve os discípulos pressurosos, tal como sugere o Evangelista João. Pedro e o discípulo amado vão, cada um à sua maneira, comprovar se o que aquela mulher, Madalena, de quem o Senhor havia expulsado sete demônios (cf. Lucas 8,2), falava-lhes a verdade. Afinal, uma mulher, uma criança e um animal valiam a mesma coisa e, exatamente por isso, não eram dignos de crédito.

Pedro segue pesado, face enrijecida, semblante desconcertado por aquele anúncio tão incomum. Ele conserva ainda a dor e o remorso de ter negado o Senhor por três vezes. Seu coração ressente aquela sua postura tão anti-discipular. Ele teme não ser perdoado, não ser digno do Senhor. Suas entranhas se contorcem de tristeza, de frustração e de decepção. Como pode negar o Senhor? Como seguir se apresentando como seu discípulo? Como confirmar seus irmãos na fé e olhá-los nos olhos? À medida que segue, seus passos se tornam pesados como chumbo e o desejo é de não chegar. Seu corpo treme e tem calafrios. Se pudesse, ele fugiria daquele momento tão emblemático, tão duro e de de confronto. Ir ao sepulcro é dizer para si mesmo que nada daquilo do qual tem receio foi sonho ou um terrível pesadelo. Infelizmente, tudo aquilo ocorreu. É uma realidade dura demais, incruenta, extremamente difícil, mas verdadeira.

João, por sua vez, foi o único discípulo que se manteve de pé diante da cruz de Jesus. Foi consolo para Maria e as outras mulheres. Não julgou seus colegas, não lhes reivindicou fidelidade ou lealdade ao Senhor. Guardou silêncio e profunda reverência. Estava absorto demais na dor e na tristeza para se colocar como juiz. Compreendeu que não era mesmo fácil para os demais discípulos se colocarem ali, no patíbulo da cruz. Sabia que nem mesmo Jesus os julgava por isso. Antes, lançava-lhes um olhar profundo de amor e de misericórdia. E foi precisamente esse olhar que mais doeu no coração de Pedro. Ao negá-lo, o galo cantou. Ele se deu conta da advertência do Mestre: “antes que o galo cante três vezes, tu me negarás” (Mt 26, 34). E a cena não poderia ter sido mais dolorosa e dilacerante. No mesmo instante em que negou, Jesus passou por ele, levado pelos soldados, e o fitou. Seus olhos se encontraram. É mesmo uma cena indescritível tal como um rasgão no peito. Mas o olhar de Jesus, já macerado pela dor e pelo sofrimento, não o condenou. Amou-o. E nada é mais pungente do que ser amado quando não se merece; quando se sabe indigno. Pedro tinha consciência de que era indigno do amor do Senhor.

Ambos correm. João chega primeiro. Está mais leve. É jovem. Seu coração como águia salta de alegria pela possibilidade da verdade: a de que o Senhor está mesmo vivo. Há em seu interior uma grande abertura para crer. Ele não requer provas em definitivo. Aprendeu a confiar na Palavra de Jesus. Ele havia descansado o seu ouvido no peito do Senhor naquela noite tenebrosa de negação, traição e condenação. Ele escutara o ritmar do coração de Jesus e nele descansou as suas aspirações. Agora, nada o poderia abalar. Ele sabe, por experiência, que tudo quanto o Senhor disse haverá de se cumprir com certeza. Aliás, ele aguarda ansiosamente por isso; pela realização de todas as promessas. Embora o seu amor tenha sofrido um duro golpe pela perda de Jesus, ao mesmo tempo ele se dá conta de que algo maravilhoso está por cumprir. Ainda não sabe como nem quando, mas por que ama, sabe que algo inédito, fabuloso, sem precedentes na história está por se realizar. Seu coração descansa nessa certeza. Ele é o primeiro a chegar.

Ao entrar no sepulcro, viu para além do visto, do visível e do material. Não eram mais o lençol mortuário, o sepulcro vazio e a pedra retirada. Nada daquilo comprovava absolutamente nada. Era algo mais profundo, mais verdadeiro, mais real: Jesus tinha sido realmente arrancado do poder da morte, do mais baixo dos infernos. Ele tinha sido elevado do mundo dos mortos. Ele, o Senhor da vida, não poderia mesmo ficar circunscrito à região da morte nem tampouco aos seus resquícios e ditames. Ela, a morte, enfim, tinha vencida precisamente no reino dela, lá onde ela era senhora absoluta. Desbaratada no seu reino, ela perdeu o seu poder destrutivo, seu quinhão inconteste. O Rei da vida a venceu de uma vez por todas. Num golpe extremado de amor, ela foi derrotada para sempre.

Eis agora o enorme desafio para os cristãos; o de sermos filhos da Ressurreição, isto é, alegres e convictos no anúncio a este mundo, mergulhado na tristeza, na desesperança, na discórdia, no medo e na morte, da mensagem da vida ressurreta do Cristo que vibra em nós, dentro de nós, e nos faz comprometer com a transformação de todas as realidades de morte onde quer que elas estejam. Ousaremos, também nós, ir pressurosos a fim de anunciá-Lo vivo e ressuscitado aos nossos irmãos e irmãs, muitos desses cabisbaixos, entristecidos e fatigados pelos caminhos da vida à espera da Boa-Nova da Salvação?