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Solenidade da Imaculada Conceição de Maria

Em 8 de dezembro de 1854, o papa Pio IX proclamou, com a bula “Ineffabilis Deus”, o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria, ou seja, que Nossa Senhora foi preservada por Deus, desde o instante da sua concepção, pelos méritos da redenção de Cristo, do pecado original que mancha todos os homens devido à transgressão de Adão, a fim de preparar a mais perfeita Mãe para o seu Filho.

Celebrar Maria em sua Conceição Imaculada é celebrar a ação miraculosa de um Deus cujos planos na história são eternos. Desde sempre, a Trindade decidiu que uma das pessoas divinas haveria de se encarnar para revelar ao mundo o grande amor de Deus pelos homens.

Logo, não foi o pecado dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, quem “forçou” a encarnação do Filho de Deus. Foi a decisão eterna do Seu amor por nós que quis experimentar conosco esta aventura de ser gente.

Todavia, o Santo dos santos não poderia herdar dos homens a mancha do pecado original à qual todos os nascidos de mulher estão submetidos e que “ofusca em nós a semelhança com Deus” (Santo Agostinho).

Portanto, era preciso que aquela que viria a ser a Mãe do Verbo Encarnado fosse toda pura, toda bela, sem rugas nem mancha, mas fosse toda de Deus para ser toda para os homens.

Se Eva, a mãe de todos os viventes, não conseguiu corresponder a esse plano amoroso de Deus, a pobre Maria de Nazaré foi achada digna de tão excelsa missão: “Alegra-te, Maria, pois encontrastes graça diante de Deus. Irás conceber um filho por obra do Espírito Santo e porás n’Ele o nome de Jesus”.

Sem “conhecer” homem algum, isto é, sem ter tido relação sexual e, por isso, ser virgem também no corpo, Maria foi tocada pelo poder de Deus para quem “nada é impossível”. No seu “fiat”, Maria vive a disponibilidade e a entrega dos grandes santos de todos os tempos: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”.

O ventre de Maria tornou-se o lugar privilegiado da ação esponsal de Deus que a cobriu com a sua sombra. Ele a desposou. E sem intervenção humana, o Filho do Homem, Jesus Cristo, veio ao mundo por meio do Sim generoso e fiel daquela que os primeiros cristãos já cultuavam como a “Imaculada Conceição”. A fé simples e humilde dos pequenos de Deus já intuia desde tempos remotos: não pode ter pecado a Mãe do Salvador que tira o pecado do mundo. E rezavam: Ó Maria Concebida sem pecado original, rogai por nós que recorremos a vós.

Animados com tamanho mistério de amor, também nós, Igreja peregrina, queremos entoar o nosso hino de louvor e de reconhecimento, como nos ensinou Maria: O Senhor fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome.

Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Tempo do Advento

Iniciamos hoje, na Igreja, o Tempo Litúrgico do Advento. Tempo de espera e de vigilância; Tempo de renovação das esperanças e da fé em dias melhores; de crença no homem e na sua capacidade de superação. Fé no porvir, na resiliência daqueles que superam os maiores obstáculos e ainda encontram forças para motivar os que insistem em permanecer caídos. É o Tempo da teimosia em avançar, não obstantes os muitos entraves. A vida segue pedindo passagem. O novo, tão temido, mas tão desejado, já se deixa entrever. Ele virá com certeza. É o tempo de crer nas promessas de um Deus muito próximo de nós. De tão perto, Ele quis se fazer um conosco; humanou-se. Sua humanidade nos revela nossa verdadeira altura: podemos ser do tamanho de Deus. Foi o tempo em que “ser humano” era sinônimo de sensibilidade, coerência, solidariedade e compaixão. “Fulano é tão humano…”, “é preciso humanizar as relações…”. Hoje, temos medo do humano. O homem brutalizou-se. Tornou-se uma ameaça para a própria espécie. De novo precisamos de um Deus, do único Deus, para nos recordar nossa verdadeira essência. Só um Deus poderia nos salvar de nós mesmos. Só um Deus cujas entranhas são de misericórdia poderia alçar nosso voo e descer conosco às nossas estreitezas mais intimas e imperscrutáveis. De novo é Ad-vento. Aquele que há de vir está pra chegar. Já se ouvem seus passos e seu perfume, odorífico, é sentido a distância. Seu brilho dissipa as escuridões da noite e sua face já rejuvenesce nosso coração, por vezes entristecido, desesperançado e só. Vem, Menino-Deus, e acenda de novo as nossas lâmpadas com o óleo da Tua presença. Vem, pobre-criança-indefesa e nos ensina de novo a confiar, na vida, em nós mesmos, nos outros e, sobretudo, em Deus. Vem, ó recém-nascido-sem-lugar de um Belém distante, e se hospede em minha casa, em minha história e na minha vida. Permaneça comigo. Preciso tanto ouvir tua voz! Vem, Emanuel, e fica antes, durante e depois de tudo. E desperta-me do sono em que me encontro e coloca-me de pé e no prumo, sobre os trilhos da vida ensaiada e pouco vivida, e anuncia-me de vez, em alto e bom som, o inaudito do mundo que de outro modo eu não saberia alcançar, nem perceber. Vem! Maranathá!

O tempo, Sinhá…

Ah, Sinhá, a vida passa tão rápido que a gente nem vê!
Não vê, mas sente
Ela se esvaindo
Se consumindo
Fugindo
Escorrendo por entre as vigas do tempo
Ah, o tempo
Segue triturando tudo
Moendo sonhos
Cozendo esperanças
Sorvendo lutas
Apagando chamas
Dando menos do que ousou pedir
É esse sentimento de urgência que me consome
É um não sei o quê de inadequação que me toma
Que me assalta
Que me transtorna
Quando vejo, é um estar sem estar
Uma saudade sem nome
Sem face
Sem corpo
Sem alma
Uma saudade etéria
Tudo indo…
E eu ficando
Outras vezes, sou eu que vou…
E tudo fica.
Houve tantos hiatos
Hiatos abismais
Abissais
Demais
Tantas interrupções
Desnecessárias
Irrefletidas
Insanas
Desmedidas
Tantas tarefas por fazer
Por construir
Por terminar
Tantas…
Mas quando vejo
Já são 18h
É sexta-feira
Já chegou dezembro

Ainda haverá tempo?
“Segue o bonde”, dizem-me alguns…
Seguir como?, pergunto-lhes
[…]
Silente prossigo
Silente e só
O tempo é inimigo da gente, Sinhá!
Ele há de nos levar tudo…
E quando nada mais restar,
Levar-nos-á.

“Você é feliz?”

Ela então me perguntou, à queima roupa e sem pestanejar, se eu era feliz. Por uma compulsão instantânea, eu quase lhe respondi. Estava pronto para lhe dizer que sim e tecer todo o meu discurso pronto e ensaiado sobre a felicidade. Os ingredientes da receita já estavam na ponta da língua. Mas, por uma fração de segundo que me pareceu mais uma eternidade, tive uma iluminação: esse modelo de felicidade não cabe; não serve. Ele é meu. E é quase indecente revelá-lo assim a outrem. Desnudá-lo sem pudores. Minha interpretação sobre a felicidade tem o alcance das minhas experiências e da minha elaboração do vivido. E tudo isso é tão íntimo que chega a ser violento e quase agressivo. Então me calei. Fiz calar também os meus pensamentos a um silêncio sepulcral. Eu não tinha o direito de apresentar àquela senhora as minhas cercanias e visões tão míopes sobre algo que me escapa. Não. Eu não tinha e não tenho a receita de felicidade. Não posso dizer a quem quer que seja o que isso significa: ser feliz. É preciso que cada pessoa descubra por si mesmo e encontre a sua noção do que é ser feliz. Eu tenho, tão somente, uma compreensão egoísta da felicidade. Eu sei o que é felicidade para mim. Defini, conceituei e assumi que ser feliz, para mim, tem este peso e esta medida. Dei forma a esse entendimento e nele me acomodei. Sinto-me, portanto, em águas claras e calmas; navego sem grandes atropelos. Pintei minha felicidade da cor que quis e a batizei com o nome que julguei razoável. Ela não tem parâmetros matemáticos e é impossível mensurá-la cientificamente. O laboratório mais sofisticado não a poderia diagnosticar. A minha felicidade não cabe em outro peito. Ela é totalmente pessoal. É minha. O modo como a vejo, a sinto e a vivo é único e intransferível. Não seria honesto desfilá-la para que outros a tomassem como modelo ou perfil de verdadeira felicidade. Seria um “felicídio”. Eu preferi escondê-la por sob o véu da minha face ante os olhos desacostumados de vê-la; a minha felicidade específica. Assim, resignado e quase sem ar, respondi: estou tentando. Afinal, quem não está? Ao menos é o que todos dizem, ponderei. Agora, ser ou estar já é de outra ordem. Talvez, volitiva. Cada um que se esforce por descobri-la por entre os melindres da própria vida. E entre os dentes segredei: perdoe-me, felicidade. É para resguardá-la que a omiti, e não a revelarei jamais. Tratei logo de me justificar. Afinal, minha felicidade é também clandestina.

Católicos que saem antes da benção final

Quanto “dó” eu tenho daqueles que não esperam pela Benção no fim da Missa. Sem falar que é litúrgico, elegante e educado aguardar a completa saída da equipe de liturgia, o padre e seus ministros. Muitos saem após receberem a comunhão. Alguns chegam depois do Ato Penitencial e entram na procissão da Comunhão sem nenhum peso de consciência. Não entenderam nada. Não são fiéis; são “turistas dominicais”. Vão por ir; por pura eventualidade social. Não descobriram, ainda, o grande Tesouro que a Missa é. Não se preparam para ela e quando chegam não a vivem com a reverência e a disposição que ela enseja. Se faltarem, não sentem nenhum torpor. Domingo após domingo, e nada muda. Se vão; se ficam, tanto faz. Mas o que mais me entristece é ver pessoas saindo pelas portas laterais, pela porta principal, quando nem mesmo estendi as minhas mãos para abençoá-los. Não sabem eles que quem abençoa é o próprio Deus? Não precisam, também eles, desta Benção que é capaz de tudo; de nos salvar, de nos curar, de nos transformar profundamente? Há aqueles que, sem terem a ciência do poder salvador e libertador dessa Benção, vão depois à sacristia pedir uma benção especial. Depois da Missa! Como isso é possível? Ora, não há benção “maior” e “melhor” do que essa. É o próprio Cristo, morto e ressuscitado, no alto da Cruz e à Direita do Pai, quem abençoa. É Ele que se estende em Benção sobre o seu povo. É a Trindade que, reunida, se derrama copiosamente sobre a Assembleia e dá a ela todas as Graças de que necessita. É a Benção das bençãos. Não há nada mais nobre, mais santo e mais restaurador do que participar da Santa Missa (SC 7). Feliz de quem dela participa do início ao fim. Quem, ao sair de casa, já vai pensando em Deus e nos irmãos que irá encontrar. Quem chega com antecedência e se coloca em súplice oração. Quem ouve atentamente as leituras e se deixa alcançar pela Palavra de Deus que é sempre Palavra de Salvação. Feliz de quem comunga do Pão da Palavra e do Pão Eucarístico e, sem pressa, mas com o coração dilatado e com muita fé e esperança, abre-se inteiro para receber aquela Benção que é “Benção do Céu”, que desce direto do coração de Deus e nos mergulha em seu amor. A cada Missa somos imersos neste grande “Mistério da Fé” e que nos transubstancia como transubstancia as espécies do Pão e do Vinho. Também nós saímos transfigurados. Deveríamos sair todos transfigurados. Mas quem não tem tempo para Deus e não é generoso para com Ele jamais poderá fazer essa experiência que requer paciência e docilidade de espírito. Os aventureiros e os apressados jamais entenderão o que significa isso: “Ide em paz, o Senhor vos acompanhe”. Confesso: nessas horas tenho vontade de lhes dizer: Ide em paz e que o Senhor os alcance. Ele certamente os alcançaria, se lhe dessem mais um minuto.

Sexta-feira da 33ª Semana do TC

No Reino de Deus não tem Black Friday. Não se paga menos. Aliás, não se paga. A adesão ao Reino deve ser de modo livre, gratuito e consciente, afinal, ele nos é apresentando como proposta e não como imposição. É impossível comprá-lo ou negociar os seus termos ou valores. O Reino de Deus é inegociável. Ali, não se admite nenhuma forma de corrupção, barganhas ou propinas. Os bens deste mundo não nos asseguram um lugar definitivo junto de Deus. Deus não se deixa manipular.

O Evangelho de hoje (Lc 19,45-48) apresenta Jesus profundamente irado com os vendilhões do Templo, homens que tornaram a “casa de oração” numa feira livre. Ali se fazia de tudo, menos o essencial: promover o direito e a justiça e, sobretudo, o encontro genuíno e fecundo com um Deus justo, fiel e misericordioso para com todos e cujo amor nada pode abalar. Ele não pode nos amar mais ou melhor, pois nada nem ninguém pode aumentar ou diminuir sua ternura. Ela já é infinita.

A Polícia Federal deflagrou esta semana uma operação chamada de “Ouro de Ofir’, numa clara referência à riqueza do Templo de Jerusalém. Nela, a PF investiga pastores que usam da chamada “Teologia da Prosperidade” para incutir nos fiéis uma expectativa ilusória: a de que se pagarem o dízimo integralmente, irão receber o dobro do que ofertarem. Muitos fiéis se desfazem de seus únicos pertences, como o carro da família, a casa própria ou outros bens, esperando receber um carro do ano, uma casa muito melhor, o emprego dos sonhos ou outras coisas similares. O charlatanismo de muitos desses “pastores” não tem limite e vai ao encontro da pouca formação e bom-senso dos fiéis. Outrora, por meio do seu profeta, Deus já havia se lamentado: “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). De fato, o Dízimo é bíblico, teológico e expressão da caridade do fiel.

Por isso, só uma pessoa eminentemente convertida é capaz de pôr a mão no bolso e ofertar do pouco ou do muito que possui. O anúncio do Evangelho necessita da ajuda concreta dos cristãos, afinal estamos radicados no tempo e no espaço e não vivemos de brisa. Faz parte da ética cristã a doação financeira para a manutenção dos Templos. Mas que ninguém se engane. A fidelidade na parte financeira não obriga Deus a nos abrir os cofres desta vida. Ninguém será mais abençoado por Ele se for fiel no Dízimo ou se fizer doações poupudas. Riqueza não é sinônimo de bênção. Deus e o Seu Reino não estão à venda. Nunca estiveram e jamais estarão. Uma compreensão assim, ditada pelo lucro e por uma visão capitalista, é contrária à Teologia Bíblica. É nefasta e perigosa. Aos maus pastores é sempre bom recordar: Jesus, o único autorizado do Pai, viveu e morreu pobre. Deus é “Javé dos pobres” e escolheu os pobres para manifestar o seu amor e a sua predileção.

Ai de quem subverter o Evangelho, diminuir a sua força reparadora, as exigências de adequação aos valores do Reino e a necessidade de conversão constante em benefício próprio. Ai de quem, na pregação e na vida, trair o Cristo da cruz que, de chicote nas mãos, continua a expulsar os “vendilhões” dos Templos de hoje. Ai de quem usar da fé dos pobres e dos simples como trampolim para enriquecimentos ilícitos. “Seria melhor que tal pessoa se atirasse ao mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço, do que induzir um desses pequeninos a pecar” (Lc 17, 2).

Deus confiou talentos a todos

A Liturgia deste Domingo, 19, contava a parábola dos talentos: Mt 25,14-30. As interpretações podem ser variadas, mas como teólogo, prefiro ser fiel ao texto, ao contexto e ao autor. Mateus não conta por contar. Sua intenção é pedagógica. Ele deseja incutir no coração dos crentes de sua comunidade esta mensagem: a de que todos receberam do “patrão” que é Deus uma quantidade de talentos (dons e bens) e que cada um é responsável por sua manutenção e progresso. Uns receberam 5, outros 2 e há quem tenha recebido um único talento. O acento não está – ou ao menos não deveria estar – sobre a quantidade. Esta nunca foi a lógica de Deus, mas, sim, a qualidade. O que Deus não tolera é a ingratidão, a indiferença e o comodismo. Na Teologia Mateana, Deus deseja ver todos trabalhando. O Reino dos céus é uma conquista dos que trabalham, dos que põem a “mão na massa”.

De fato, os preguiçosos e os apáticos não terão lugar nesse Reino. Logo, é preciso pôr os talentos em ação, fazê-los multiplicar. Quem entende esta dinâmica e estratégia divinas, ouvirá do “Patrão Celeste”: “Muito bem, servo bom e fiel. Vinde participar da minha alegria”. Aqueles, porém, que preferem ficar no ostracismo e sem nada fazer, ouvirão o contrário: “Afastai-vos de mim. Eu não vos conheço”. Trabalhar no Reino deste Patrão é um privilégio. Servi-lo deve ser a alegria das alegrias. Por isso, todo discípulo que se preza deve se perguntar com honestidade: “Que talentos o Senhor me confiou?”.

E, uma vez identificados, é preciso colocá-los em prática e fazê-los multiplicar. E pensar que na comunidade cristã há tantos “dons enterrados”; tantas pessoas que poderiam colocar seus talentos em evidência, mas preferem o anonimato, têm medo de críticas, não querem se expor e preferem não se fatigar com os desafios de uma vida posta a serviço dos outros. Há tantos ministérios parados, campos da seara do Senhor não cultiváveis, por falta de mão-de-obra, embora muitos estejam sentados de braços cruzados. E muitos dizem não ter tempo ou que o farão depois, mais tarde; noutro dia, ano que vem, quando se aposentarem e os filhos já estiverem criados. E o “rosário de desculpas e justificativas” segue sendo desfiado indefinidamente.

Por saber que o “Patrão” chegará a qualquer momento para nos pedir contas dos talentos que Ele nos confiou, ando me perguntando com renovado entusiasmo: Senhor, que talentos a sua bondade me concedeu? Quero pô-los todos a serviço do Teu Reino. Ajuda-me a não negligenciá-los jamais. Quero honrar a tua confiança em mim.

“Padre, é pecado eu acreditar na reencarnação, sendo cristão?”

“Padre, é pecado eu acreditar na reencarnação, sendo cristão?”
 
Somos seres únicos e irrepetíveis. Nós, cristãos, acreditamos em um Deus pessoal que, eternamente, pensou em nós e nos chamou à existência. Nunca antes havíamos vivido esta experiência humana e nunca mais tornaremos a vivê-la. Nossa passagem por este mundo será única e é inédita. Quando findar nossa jornada aqui na terra, lugar de passagem, retornaremos para a casa do Pai, a morada eterna, de onde saímos do seu amor e da sua vontade. Por que cremos assim? Por Jesus, o Filho de Deus encarnado assim nos assegurou:
“Não se perturbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar um lugar, virei outra vez, e vos levarei comigo, para que onde eu estiver estejais vós também. Vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho. Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14,1-6). E nós cremos na palavra de Jesus. Como Ele ressuscitou, nós também haveremos de ressuscitar.
De fato, não queremos deixar ninguém na ignorância a respeito dos mortos, para que não fique triste como os outros, que não têm esperança. Com efeito, “se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos igualmente que Deus, por meio de Jesus, com ele conduzirá os que adormeceram. Eis o que temos a vos dizer, de acordo com a palavra do Senhor: nós, os vivos, os que ficarmos em vida até a vinda do Senhor, não passaremos à frente dos que tiverem morrido. Pois o Senhor mesmo, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu. E então ressuscitarão, em primeiro lugar, os que morreram em Cristo; depois, nós, os vivos, que ainda estivermos em vida, seremos arrebatados, junto com eles, sobre as nuvens, ao encontro do Senhor, nos ares. E, assim, estaremos sempre com o Senhor” (I Ts 4, 13-18).
Ao morrer, toda pessoa terá o seu juízo particular, isto é, aparecerá diante de Deus. Diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC) que, “cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre” (§1022). E, no fim dos tempos, na Parusia, a segunda volta de Cristo, haverá o juízo final de todos na presença de todos, vivos e mortos. Acerca do paraíso, diz a Igreja que “na glória do Céu, os bem-aventurados continuam a cumprir com alegria a vontade de Deus em relação aos outros homens e à criação inteira. Já reinam com Cristo; com Ele ‘reinarão pelos séculos dos séculos” (CIC 1029).
Sobre o purgatório, afirma: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu” (CIC 1030). E quanto ao inferno, “o ensinamento da Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, “o fogo eterno”. A pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira” (CIC 1035).
Logo, é impossível professar a fé na ressurreição do Senhor e na nossa e acreditar, ao mesmo tempo, que somos passíveis de reencarnação. Jesus não é um iluminado. Jesus não é um reencarnado. Ele, sendo Deus, quis viver uma vida como a nossa, verdadeiramente humana, exceto o pecado (cf. Hb 4, 1ss). Jesus passou pelos mesmos percalços que nós passamos e experimentou a nossa pior dor; a dor da morte. Mas ela não teve poder absoluto sobre Ele. O Pai, doador de toda vida e, sobretudo, da vida verdadeira, o Ressuscitou do mundo dos mortos e lhe concedeu a vida que nunca mais lhe será tirada. Também a nós, aos que crerem e aos que nEle esperarem, será concedida a mesma graça: a de ressuscitarmos com Cristo para Deus, de uma vez por todas. A Eternidade é o nosso destino. Afinal, caminhamos todos para lá, jundo de Deus, onde o seu amor nos espera e onde teremos todos uma morada fixa.

Missa não é espetáculo para foto, é o encontro com Cristo

Cidade do Vaticano (RV) – A Praça S. Pedro acolheu milhares de fiéis para a Audiência Geral desta quarta-feira ensolarada de outono (08/11) no Vaticano.

Após saudar os peregrinos de papamóvel, ao se dirigir a eles o Papa Francisco anunciou um novo ciclo de catequeses depois concluir na semana passada a série sobre a esperança. A partir de agora, o tema será dedicado ao “coração” da Igreja, isto é, a Eucaristia. Para Francisco, é fundamental que os cristãos compreendam bem o valor e o significado da missa, para viver sempre mais plenamente a relação com Deus.

“Não podemos esquecer o grande número de cristãos que, no mundo inteiro, em 2000 anos de história, resistiram até a morte para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar da missa dominical.”
De fato, Jesus diz aos seus discípulos: “Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. (João 6,53-54)”.

O Papa então manifestou o desejo de dedicar as próximas catequeses para responder a algumas perguntas importantes sobre a Eucaristia e a Missa, para redescobrir, ou descobrir, como a fé resplende o amor de Deus através deste mistério. Francisco citou o Concílio Vaticano II, que promoveu uma adequada renovação da Liturgia para conduzir os cristãos a compreenderem a grandeza da fé e a beleza do encontro com Cristo. Um tema central que os padres conciliares destacaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação.

“E esta é justamente a finalidade do clico de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos doou na Eucaristia.” A Eucaristia, explicou o Papa, é um acontecimento “maravilhoso”, no qual Jesus Cristo, nossa vida, se faz presente. “Participar da missa é viver outra vez a paixão e a morte redentora do Senhor. É uma teofania: o Senhor se faz presente no altar para ser oferecido ao Pai para a salvação do mundo.

“O Senhor está ali conosco, presente. Mas muitas vezes, nós vamos lá, conversamos enquanto o sacerdote celebra a eucaristia, mas não celebramos com ele. Mas é o Senhor. Se hoje viesse aqui o presidente da República, ou uma pessoa muito importante, certamente todos ficaríamos perto dele para saudá-lo. Quando vamos à missa, ali está o Senhor. Mas estamos distraídos. Mas, padre, as missas são chatas. A missa não, os sacerdotes! Então eles devem se converter.”

O Pontífice fez algumas perguntas às quais pretende responder como, por exemplo: por que se faz o sinal da cruz e o ato penitencial no início da missa? “Vocês já viram como as crianças fazem o sinal da cruz? Não se sabe bem o que é, se é um desenho… É importante ensinar as crianças a fazerem o sinal da cruz, pois assim tem início a missa, a vida, o dia.”

E as leituras, qual o seu significado? Ou por que, a um certo ponto, o sacerdote diz ‘corações ao alto? “Ele não diz celulares ao alto para tirar foto! Não! Fico triste quando celebro e vejo muitos fiéis com os celulares ao alto. Não só os fiéis, mas também sacerdotes e até bispos. A missa não é espetáculo, é ir ao encontro da paixão e ressurreição do Senhor. Lembrem-se: chega de celulares.”

“Através dessas catequeses, concluiu o Papa, gostaria de redescobrir com vocês a beleza que se esconde na celebração eucarística e que, quando desvelada, dá pleno sentido à vida de cada um de nós. Que Nossa Senhora nos acompanhe nesta nova etapa do percurso.”

Fonte: Rádio Vaticano

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Comentário

Confesso que eu aplaudi a crítica do papa. Tão pertinente. Infelizmente, não há nada mais constrangedor do que um ministro ordenado registrar, ele mesmo, uma ação litúrgica; seja missa, casamento ou outro sacramento. Repito: é constrangedor só de olhar. Nosso ministério é para nos fazer apaixonar pelo Cristo e dá-lo àqueles que o buscarem com coração sincero. Ao participar de um Sacramento, o nosso coração deve estar concentrado unicamente no Cristo. Nada nem ninguém deveria nos dispersar. Há tanto barulho e dispersão lá fora, que ao entrarmos em uma igreja deveríamos nos colocar atentos e inteiros na presença do Senhor.

Outro dia, entrei na Igreja no momento da homilia em que um colega presidia a Santa Eucaristia. Fui ali para pegar uma túnica. Ao passar pela nave, vi três jovens em bancos distintos manuseando seus smarphones. Deu pena vê-los ali entretidos com seus celulares. A pregação ocorria, mas eles estavam totalmente alheios a ela. Tive vontade de ir até eles e lhes perguntar: meus irmãos, vocês sabiam que na Homilia é o próprio Jesus quem prega? Aliás, toda a ação litúrgica é Ele o presidente na pessoa do padre. Não se distraiam. A Palavra é para vocês.

Mas tive receio de não ser compreendido. Na sacristia fiquei um tempo ouvindo o meu irmão padre pregar. Quanta sabedoria e docilidade em sua pregação! A Palavra de Deus estava sendo anunciada, mas alguns ali presentes não quiseram acolhê-la. Foram ali sabe-se lá para quê. Estavam ali, mas não de espírito. Seus corações estavam distantes e indiferentes. Seguramente, aqueles jovens saíram como entraram ou talvez com um sentimento ainda pior; de terem perdido o tempo. Teria sido muito melhor se não tivessem ido à missa; se tivessem utilizado aquela uma hora para fazerem outra coisa que realmente estivessem a fim.

O seu grupo ainda é um Grupo Católico?

Se seu grupo aceita membros de outras denominações religiosas, mas para não ferir a sensibilidade desses irmãos vindos de outras crenças, vocês não iniciam os encontros com o “Sinal da cruz”, não rezam o Pai-Nosso e evitam a Ave-Maria, e preferem um proselitismo amistoso, o seu grupo já não é mais Católico. O ecumenismo verdadeiro, e não ideológico, pressupõe que as identidades da fé, do culto e da doutrina sejam mantidas e respeitadas, mas evocadas explicitamente. O que nos une é infinitamente maior do que aquilo que nos divide, mas que ninguém se omita de ser o que é, com honestidade e amor.

Se seu grupo já não se reporta mais ao pároco, cujo ministério e pastoreio lhe foram confiados pelo sucessor dos apóstolos, o bispo, e vocês não tem reverência, respeito e obediência pela sacralidade do múnus sacerdotal in persona Christi exercido validamente pelo sacerdote, seu grupo já não é mais católico. O ministro ordenado não é “peça decorativa”, agente facultativo ou profissional do sagrado. Ele é um servo de Cristo, da Igreja e dos irmãos. Ele é o pai da comunidade. Sua presença e ação sacramental salva, cura e santifica o povo a ele confiado. O padre é Cristo a quem se deve ouvir, amar e respeitar.

Se seu grupo promove encontros, convivências, espiritualidades, formações, viagens e reuniões, mas não busca o conhecimento da sã doutrina e, principalmente, não orienta seus membros a participarem afetiva e efetivamente das Santas Missas como lugar privilegiado do culto cristão por ser a mais nobre de todas as orações, seu grupo já não é mais católico. A missa é o centro da vida cristã, o banquete no qual todos os irmãos de fé se sentam para se servirem uns aos outros. É o alimento do Céu sem o qual ninguém se salva nem se vive.

Se seu grupo está mais preocupado com números, de participantes e de arrecadação financeira, e não prega mais o Evangelho do Cristo que forma novos cristãos conscientes de sua missão batismal e, por isso, são orientados a retornarem às suas comunidades de origem para ali exercerem o seu discipulado missionário, seu grupo já não é mais católico. Um autêntico grupo cristão não forma membros para si, mas discípulos-missionários para a Igreja.

De fato, há muitos grupos que embora se autointitulem “católicos” há muito que perderam a essencialidade da fé cristã e a catolicidade que os distinguiam dos demais outros grupos. Tornaram-se “meras” associações, clubes de camaradagem, ONGs filantrópicas e assistencialistas, guetos de benemerência e amizade. Seus membros já não se identificam mais como sendo ovelhas de um único redil. Elegeram para si outros redis e outros pastores. Não (re)conhecem mais a voz do verdadeiro pastor, e o pastor por sua vez não as conhece e não as pode mais chamar pelo nome. Tornaram-se estranhos, mutuamente.

Cuidado! Grupos assim sempre existiram na história do cristianismo. E pululam de tempos em tempos. Mas o correr das horas já provou que eles não resistem às vicissitudes do percurso. Todo grupo é apenas galho. Só a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, é realmente tronco, árvore frondosa e robusta. Um simples galho só é forte o bastante se se mantiver unido ao tronco. Fora, desprendido e autossuficiente, todo galho seca e morre.

Se você faz parte de algum grupo assim, reflita sincera e honestamente sobre isso. E, depois, seja sábio e leia os sinais dos tempos; acenda a lamparina da sua consciência e busque mais aceite para mantê-la acesa (cf. Mt 25, 1-13). Os tempos são maus. Por fim, vigie, ore e retorne o quanto antes ao seio da comunidade eclesial. Eis que o Noivo está à porta e bate. Abri-lhe de par a par as portas e deixai-O entrar (cf. Ap 3, 20). E não tenhas medo. Volte a ser Igreja! Volte a ser Católico Apostólico Romano!