Categoria: Artigo

“Padre, eu sou divorciado. Eu posso comungar?”

“Padre, sou divorciado e me casei novamente no civil. Eu posso comungar?”

Ouçamos o papa Francisco em alguns fragmentos extraídos do livro “Política e sociedade”, escrito pelo sociólogo francês Dominique Wolton, lançado ano passado (2017).

“[…] Algumas pessoas com tendências demasiadamente tradicionalistas combatem isso, dizendo que esta não é a verdadeira doutrina. Sobre a questão das famílias irregulares, eu disse no capítulo oitavo [da Exortação Apostólica Amoris Laetitia] que há quatro critérios: acolher, acompanhar, discernir as situações irregulares e integrar. Não se trata de uma norma rígida. Isso abre um caminho, um caminho de comunicação. Imediatamente, me perguntaram: ‘Mas é possível dar a comunhão aos divorciados?’. E eu respondo: ‘Conversem com o divorciado, com a divorciada, acolham essas pessoas, acompanhem-nas, integrem-nas, diferenciem as situações!’. Infelizmente, nós, os sacerdotes, estamos acostumados com normas rígidas. E assim é difícil para nós ‘acompanhar o caminho, integrar, discernir, dizer coisas positivas’. Na realidade, o que acontece é que as pessoas dizem: ‘Não podem comungar’, ‘Não podem fazer isso ou aquilo’: essa é a tentação da Igreja. Nós encontramos esse tipo de proibições no drama de Jesus com os fariseus. É a mesma coisa! Os grandes da Igreja são os que têm uma visão que vai além, os que compreendem: os missionários”.

De fato, aos recasados, no capítulo VIII da Exortação Amoris Laetitia, embora considere que “o divórcio é um mal” e que seja “muito preocupante o aumento do número de divórcios”, Francisco tem uma palavra de ânimo: “os divorciados que vivem em uma nova união podem encontrar-se em situações muito diferentes que não devem ser catalogados ou fechadas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral”. E recomenda: “quanto às pessoas divorciadas que vivem em uma nova união, é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que ‘não estão excomungadas’ nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial”. E aos pais separados, suplica: “nunca, nunca e nunca tomeis o filho como refém. (…). Que eles não sejam usados como reféns contra o outro cônjuge, mas cresçam ouvindo a mãe falar bem do pai, embora já não estejam juntos, e o pai falar bem da mãe”.

Em síntese, o papa pede um verdadeiro trabalho de “escuta e de atenção” para com esses fiéis por parte do clero: “o diálogo com o sacerdote, no foro interno, concorre para a formação de um juízo reto sobre aquilo que impede a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e levá-la a crescer”. Ele chama esse trabalho de discernimento de “a lógica da integração”. É preciso integrar e não apartar; incluir e não condenar: “já não é possível dizer que todos os que estão em uma situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”, sublinha.

É preciso, no dizer do papa, descer ao particular, se quisermos ser honestos e misericordiosos. “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais aos que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”. Ninguém deve ser condenado indefinidamente. Afinal, a família é “um ser vivo” e, como tal, não se pode pensar que as coisas sejam “preto ou branco”. A vida concreta das famílias é, por vezes, um amontoado de cores e em outros momentos cinza puro. Não é fácil ser família. E num momento de maior veemência do documento, Francisco chancela: “Há casos em que a separação dos corpos é moralmente aceitável e altamente recomendável, sobretudo, quando se envolve violência e põe em risco a integridade física da esposa e dos filhos”.

Portanto, à luz do Evangelho e do Magistério da Igreja, cada caso é um caso; olha-se para pessoa e não para o pecado. E, sim, em muitos casos, os divorciados e que assumiram nova união esponsal podem retornar à mesa da Comunhão Eucarística.

Perdoar: como e por quê?

Perdoar não é coisa simples nem fácil, e não ocorre de um dia para o outro. Às vezes, leva-se uma vida inteira. Inúmeras são as formas de perdão, pois variadas são as ofensas, as agressões, as decepções, as frustrações e os equívocos ao longo da vida. Pode ter sido uma palavra torpe, rude, dirigida num momento impróprio, uma calúnia, uma mentira, uma promessa não cumprida, uma agressão física, verbal, algo contra nós ou, até mesmo, contra alguém que queremos muito bem e de quem tomamos as dores. Não faltariam justificativas para nos mantermos na raiva, no rancor, no ódio, no ressentimento, no desejo de vingança, no desejo de nunca mais perdoar. Há situações em que a simples presença da pessoa por quem nutrimos algum desafeto nos constrange, azeda o nosso dia, faz a pele até arrepiar, o coração dar sinais de taquicardia. Enfim… A falta de perdão é, na verdade, um veneno que vamos tomando em goles suaves e que vai aos poucos nos entorpecendo. Todavia, perdoar é antes de tudo um sinal de sabedoria e de inteligência. De sabedoria porque, ao perdoarmos, nós abrimos a cela na qual duas pessoas estão aprisionadas: eu e a pessoa por quem nutro algum sentimento ruim. Ao perdoá-la, eu a libero ao mesmo tempo que me deixo mais livre. Depois, é inteligência porque ao perdoar alguém eu estou retirando um fardo insuportável do coração. Desse modo, poderei seguir mais leve pela vida. Pois, do contrário, eu terei sempre que me recordar do mal sofrido e dizer à minha bílis o motivo do ódio ou do ressentimento por aquela pessoa. Sem falar o quanto isso nos desgasta, uma vez que exige uma enorme quantidade de energia. Ficamos exauridos. Há quem diga que não é ódio, nem nada. É só uma indiferença, uma certa apatia, um não-sei-o-quê. Pior. Quando não conseguimos dar nome ou tratamos o outro como se ele não existisse, é porque o “mal sentimento” já se cristalizou dentro de nós. Impregnou-se de tal modo que já não nos incomoda mais; faz parte de nós. Isso seria péssimo para a vida presente e, sobretudo, para a vida futura. O conselho de Jesus é para que perdoemos sempre: “setenta vezes sete”. Perdoar não porque o outro mereça – às vezes não merece mesmo; não porque estou me sentindo à vontade ou porque sou magnânimo. Perdoar começa por uma decisão livre, mas consciente, por saber que Deus, o único Justo e Santo, nos perdoa sempre e todos os dias. E que não há pessoa sobre esta terra que não precise pedir ou dar o seu perdão. Perdoamos porque queremos receber de Deus o seu perdão que não questiona o porquê nem o como pecamos, e que não se interessa pelas minúcias do nosso pecado, mas que simplesmente perdoa sem nem mesmo pedir provas de que não retornaremos a pecar. Perdoamos porque condicionamos o perdão de Deus ao perdão que damos ao outro: “Perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem nos tiver ofendido…”. Por fim, perdoar não quer dizer que voltarei a me relacionar com a pessoa em questão ou que simplesmente, como num passe de mágica, esquecerei o que ela me fez. Isso seria hipocrisia ou mentira. Quem perdoa passou por um processo de cura e de conversão, mas pode ser que o outro, que causou a ferida, ainda não. Logo, é prudente não lhe dar margem para novas ofensas ou feridas. Porém, não lhe deseje o mal, mas, se tiver a oportunidade, faze-lhe o bem. Não é preciso evitá-lo, mudar de rua, de calçada, de shopping, de cidade e até de igreja para não encontrá-lo. Isso não seria verdadeiro perdão. Quando verdadeiro, o perdão nos possibilita seguir com naturalidade a vida. Por isso, se no meio da travessia encontrar a pessoa que foi perdoada, estenda-lhe a mão, cumprimente-a e siga o seu caminho em paz. Afinal, o perdão é também uma forma genuína de amar por que se sabe profundamente amado, e sem merecimento.

 

“Orar costuma fazer bem”

“Orar costuma fazer bem”. Eu era criança, e me lembro de ter ouvido essa expressão certa vez na voz do maior poeta/compositor católico brasileiro: Pe. Zezinho. Ainda hoje, volta-e-meia, ela me vem ao coração. Orar é uma forma humilde de reconhecer que há alguém maior do que nós. Um Ser que tudo criou e fez por amor. Que me ama infinitamente e que deseja o meu bem e a minha felicidade. Orar me coloca em conexão com Ele. Nesse sentido, a oração cria em mim um espaço adequado para Ele vir ao meu encontro, embora Ele já esteja o tempo todo comigo; dentro de mim. Na verdade, a oração me torna mais sensível para percebê-lo. Ela me predispõe a ouvi-lo, prescrutar sua vontade e estar em relacionamento afetivo com Ele. A oração me torna, igualmente, mais sensível ao outro, compassivo e misericordioso. Faz com que eu me responsabilize pelo mundo. Não se ora apenas para pedir, embora eu possa e deva lhe apresentar as minhas necessidades e as dos meus irmãos e irmãs. A petição é também uma forma de orar e que Lhe agrada. Por isso, os pais oram pela conversão dos seus filhos, para que se endireitem na vida e progridam. Se as coisas estão difíceis; se os filhos se tornaram desobedientes, arredios e tendem para caminhos maus, não há melhor coisa a fazer senão isso: orar. Pedir a Deus que os alcance e os instrua. Que os traga de volta para o bom caminho. Talvez nos relacionamentos afetivo-sexuais, na vida profissional, na saúde e nas demais áreas da vida tudo esteja reclamando atenção. Orar é um bom começo. É que a oração nos recentra. Ela nos coloca de novo no eixo, sobre os trilhos da nossa própria história. A oração, quando verdadeira, nos torna mais sadios e equilibrados. Ela nos dá a real dimensão de tudo. Ela nos torna autônomos e proativos. A oração nos apazigua quando tudo lá fora, ou às vezes dentro da gente, está em completa desarmonia. A oração nos repropõe o essencial. Ela nos ajuda a discernir e a obter sabedoria. Ela nos cura da dispersão. Se constante, ela cria intimidade entre Deus e o fiel que reza. Se autêntica, ela provoca sincera mudança interior. Há inúmeros modelos de oração e são todos válidos, sobretudo, a comunitária, aquela que se faz em Igreja. Mas só essa, não basta. É preciso que cada pessoa tenha seu momento especial com Deus, reservado e a sós; em silêncio ou entre lágrimas, e de preferência com a Sua Palavra nas mãos. Daí o conselho de Jesus: “Quando fores orar, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao Teu Pai que está no segredo…” (Mt 6,6). Orar é entrar no segredo de Deus e permitir que Ele adentre o nosso. É deixá-lo vir e lançar suas luzes sobre as trevas da nossa existência. Acender esperança e fé onde jaz a escuridão do medo e da morte. Todavia, há uma lógica na oração: Peça insistentemente e espere pacientemente (cf. Lc 18, 1-7). Pois, a oração quando honesta provoca um tsunami, um terremoto e uma tempestade invisíveis no mundo: ninguém os vê, mas sente. A oração sincera, autêntica e constante é capaz de tudo: de lançar montanhas ao mar e de tornar possível o impossível (cf. Mt 17, 20) e de, inclusive, converter o coração do crente.

 

Minhas impressões sobre GAUDETE ET EXSULTATE

Minhas impressões acerca da Exortação Apostólica – Gaudete et Exsultate – do papa Francisco

São apenas 5 capítulos, 44 páginas, 117 parágrafos e pode ser lida gratuitamente no site do Vaticano, conforme link.

A linguagem coloquial do papa Francisco ainda me surpreende. Sua maneira direta e simples de dizer as coisas o coloca em diálogo direto com o leitor. É para mim que ele escreve. Ele está falando comigo. Nesta sua 3º Exortação Apostólica (a 1ª foi Evangelii Gaudium e a 2ª Amoris Laetitia), ele aborda o tema da universalidade do chamado à santidade que nos faz parecer com Deus, o Pai, no amor.

Além de desmistificar o conceito de santidade, comumente associado a pietismos, semblante cerrado, mãos postas, e caricaturas pejorativas como “carola” ou “beata”, o papa propõe a santidade como fonte e esplendor da verdadeira alegria cristã. Afinal, não se pode conceber um santo triste e muito menos carrancudo, pessimista, negativo e fechado em si mesmo. Um santo é, antes de tudo, um bem humorado que encontrou a Graça de Deus e a vê em todo e qualquer lugar.

Depois, o papa cita os grandes mestres da espiritualidade cristã, mas não os propõe como únicos modelos a serem seguidos. Eles são exemplos e até podem nos estimular, mas, por vezes, seus modos de viverem a santidade são distantes da nossa realidade e podem até nos desanimar. Por isso, o papa faz questão de propor modelos mais próximos da nossa realidade, sugerindo-nos, inclusive, que prestemos atenção nos próximos de nós; nos da nossa casa, entre nossos parentes e amigos:

“Por exemplo, uma senhora vai ao mercado fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e… surgem as críticas. Mas esta mulher diz para consigo: «Não! Não falarei mal de ninguém». Isto é um passo rumo à santidade. Depois, em casa, o seu filho reclama a atenção dela para falar das suas fantasias e ela, embora cansada, senta-se ao seu lado e escuta com paciência e carinho. Trata-se doutra oferta que santifica. Ou então atravessa um momento de angústia, mas lembra-se do amor da Virgem Maria, pega no terço e reza com fé. Este é outro caminho de santidade. Noutra ocasião, segue pela estrada fora, encontra um pobre e detém-se a conversar carinhosamente com ele. É mais um passo” (n.16).

E nos adverte quanto aos dois inimigos atuais e sutis na Igreja que atentam contra a nossa santidade: o gnosticismo e o pelagianismo. Sobre o gnosticismo, disse:

“O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério», tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros. Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus” (nn. 40-1).

E acerca do pelagianismo, afirmou:

“Com efeito, o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade. Esquecia-se que «isto não depende daquele que quer nem daquele que se esfoça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso» (Rm 9, 16) e que Ele «nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Quem se conforma a esta mentalidade pelagiana ou semipelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, «no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico». Quando alguns deles se dirigem aos frágeis, dizendo-lhes que se pode tudo com a graça de Deus, basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça. Pretende-se ignorar que «nem todos podem tudo», e que, nesta vida, as fragilidades humanas não são curadas, completamente e duma vez por todas, pela graça. Em todo o caso, como ensinava Santo Agostinho, Deus convida-te a fazer o que podes e «a pedir o que não podes»; ou então a dizer humildemente ao Senhor: «dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes” (nn. 46-9).

E denuncia:

“Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurarem os afastados nessas imensas multidões sedentas de Cristo.. Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos. Assim se habituam a reduzir e manietar o Evangelho, despojando-o da sua simplicidade cativante e do seu sabor. É talvez uma forma subtil de pelagianismo, porque parece submeter a vida da graça a certas estruturas humanas. Isto diz respeito a grupos, movimentos e comunidades, e explica por que tantas vezes começam com uma vida intensa no Espírito, mas depressa acabam fossilizados… ou corruptos. Sem nos darmos conta, pelo facto de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue. São Tomás de Aquino lembrava-nos que se deve exigir, com moderação, os preceitos acrescentados ao Evangelho pela Igreja, «para não tornar a vida pesada aos fiéis, [porque assim] se transformaria a nossa religião numa escravidão» (nn. 58-9)

Para tanto, Francisco [re]propõe as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23) como modelo inequívoco de santidade e códice de um verdadeiro santo. Afinal, a santidade nos leva a reconhecer no outro o Cristo que se fez um conosco, assumindo nossa condição humana em sua totalidade. Exorta sobre a figura pessoal do demônio, pai e artífice da mentira, inimigo de nossa santidade, e repropõe a intimidade como Maria, mãe de Jesus. Por fim, ele apresenta a oração como condição indispensável para se alcançar a santidade querida por Deus, por meio da qual se pode pedir o dom do discernimento e da sabedoria, bem como da ousadia e do ardor em anunciar o Evangelho do Mestre em Santidade, Jesus Cristo. E, no mais, a vida na graça sacramental e na atenção ao outro como forma de se crescer e se manter na santidade querida por Deus. Pois, onde houver fechamento, egoísmo, inveja, orgulho, vaidade, intimismo e autorreferencialidade, Deus, o único e verdadeiro Santo, não poderá atuar.

 

O ócio é essencial para a vida

Tão importante quanto trabalhar, é o ócio; o não-fazer-nada. “Ficar de bobeira”, de “papo-pro-ar”. Os antigos o viviam com excelência. Na rotina de um homem livre, havia tempo para o trabalho (normalmente na parte da manhã), banhos públicos (onde se vivia a dimensão social), um breve repouso no início da tarde, a leitura de algum poema (dos chamados poetas “rapsodos”) e no fim do dia, normalmente, era destinado às artes: à música e ao teatro. Havia ainda tempo para os exercícios físicos que davam resistência e robustez ao corpo. Sem falar que o homem primitivo vivia do que coletava e respigava. E para sermos honesto com a história, é preciso dizer: o homem mais preguiçoso de hoje trabalha mais do que o homem medieval.

Todavia, desde o advento da revolução industrial (séc. XVIII) quiseram – e conseguiram – nos convencer de que só o trabalho braçal, cansativo, fatigoso, é capaz de nos dignificar. Que é preciso estar o tempo todo ocupado em algum afazer. Vagabundear, andar a esmo ou simplesmente ficar recostado em algum canto fora definido como “pecado capital” ou coisa de malandro, de gente folgada que não tem o que fazer. Desde então, é impensável que um homem não venda a sua “força de trabalho”, não “arregace as mangas” e não vá à luta. A vida passou a ser conjugada como sendo uma entrega “voluntária”, mas necessária, ao trabalho. O o escambo, antes vivenciado entre as culturas, tribos e clãs, foi alterado sistematicamente para a moeda corrente; quem a tinha, detinha o poder de compra. Quem não a possuísse, mendigava. E mendigar era uma indignidade intolerável.

Na sociedade atual, o trabalho ocupa a maior parte do dia de uma pessoa. Somos instados a trabalhar para ganhar cada vez mais dinheiro pois, só assim, conquistaremos todos os nossos sonhos – quase sempre vinculados às coisas materiais, como posses e bens, por exemplo – e poderemos dar vazão aos nossos muitos desejos – especialmente aqueles sugeridos pela mídia, pelo marketing e pelas campanhas publicitárias. Se uma pessoa não produz, não trabalha, será tida como inútil e pesada para o sistema, para o mundo e para a família. E por sermos uma sociedade eugenista, toda e qualquer pessoa que não produz é considerada inútil. Crianças, idosos e doentes são vistos como dispendiosos e, por isso, dispensáveis. Não poucas vezes são descartados como lixo. O contrário é igualmente perverso: uma pessoa que trabalha oito horas por dia, seis dias por semana, na verdade é um “escravo”. Alguém ainda se lembra do conceito de “mais-valia”? Quatro horas trabalhadas são o suficiente para se pagar um dia inteiro de trabalho. As demais outras quatro horas vão de graça para o patrão. Todo esse tempo, irrecuperável, será vendido em troca de um salário quase sempre insuficiente. O trabalhador, no entanto, não terá tempo qualitativo para mais nada. Todos as suas demais dimensões da vida serão desconsideradas radicalmente: lazer, cultura, sociabilização, afetividade, sexualidade, espiritualidade, entre outras, enfim, estarão seriamente comprometidas..

Nessa vivência insana da vida, não haverá tempo suficiente e de qualidade para o ócio, para a reflexão, para a tomada de consciência e para simplesmente “não fazer nada”. Uma pessoa que vive uma rotina pesada e entregue quase que exclusivamente ao trabalho se tornará, inegavelmente, numa pessoa alienada, isto é, sem consciência de si, do outro, do mundo, do próprio corpo, de suas reais necessidades, de suas emoções e de suas aspirações mais profundas. O corpo será o primeiro a ressentir e a somatizar todo o estresse dessa rotina e dessa lógica. Começarão a aparecer inúmeras doenças e enfermidades, até ser demitida ou “encostada” porque já não “produz como antes” ou não atinge mais a meta imposta pela empresa. Todo este aparato é perverso demais. Os pais não têm tempo para os filhos e transferem a educação e o afeto deles para terceiros (avós, escola, igreja). As crianças não dispõem da presença e da autoridade dos pais para educá-las e acompanhá-las em seu processo de individuação. Os jovens facilmente se cansam e chegam exauridos à fase adulta. Os idosos se tornam “peças de decoração” nas famílias quando não relegados aos asilos.

Entretanto, viver pede mais, muito mais, do que uma busca frenética por ganhar dinheiro e por fazer fortuna. Não é nem de longe sábio ou prudente entregar-se a um emaranhado de coisas, enquanto a vida vai passando ao largo. “O trabalho dignifica o homem” foi o slogan criado por uma casta que, desde sempre, aprendeu a explorar e a manipular as camadas mais pobres. A lógica deste mundo, mergulhado no desespero e no caos, é da servidão voluntária ao deus “mamon“, o dinheiro. Há muitos miseráveis entre nós que só tem o dinheiro que acumularam ao longo dos anos. Há inúmeros mendigos com bolsas cheias de experiências profissionais, moedas de prata e de ouro em suas aljavas, mas que não dispõem de afeto nem de gratuidade nas relações. Há bastante jovens e crianças que já vivem o frenesi do mundo e se apressam por viver tudo aqui e agora, sem consistência nem maturidade suficientes. Há trabalhadores que depois de um mês exaustivo e de dias realmente cansativos, retornam para suas casas e não têm com que prover o cuidado da própria família de forma digna e honrada. O “sol” parece não ter nascido para todos.

Nesta lógica diabólica, pois divide o homem e o cinde até a medula, há um contingente enorme de desempregados que não serão realocados em postos de trabalho porque a própria lógica do sistema capitalista está sucateada, defasada e impõe que nem todos possam ascender de suas misérias. Não há como criar 13 milhões de novos empregos – só no Brasil – se não se pensar, urgentemente, numa nova forma de intercambiar as relações trabalhistas. O consumismo desenfreado, sem noção e sem razão, agiganta ainda mais o problema do mundo, do meio-ambiente, da natureza maltratada e cria-se problemas endêmicos de saúde pública. A dinâmica do “ter para ser” é desumana, insensível e homicida. A pessoa não é o que ela é, mas o que ela tem ou produz. Isso tem que mudar. Afinal, toda pessoa é valorosa por ela mesma, sem definições a priori ou posteriormente. Ninguém deveria valer mais por ter uma poder aquisitivo maior ou por causa do montante acumulado nas instituições financeiras que continuam arrecadando bilhões com sonegações e explorações de todo tipo. A vida humana não pode ser pautada pelo “toma-lá-dá-cá” que vivemos desde que passamos a considerar a moeda como a verdadeira detentora de todo e qualquer poder, seja ele de compra, de satisfação ou de felicidade. Há um tesouro que o dinheiro não pode comprar nem tampouco o tempo haverá de recuperar: a vida da pessoa humana.

Portanto, é preciso voltar a ler os clássicos. Eles, como luz de fósforo em meio à imensidão escura, nos darão clareza quanto ao tamanho da nossa ignorância. É indispensável “tirar o pé do acelerador”, dizer “NÃO” e aderir a uma agenda minimamente saudável em que o essencial da vida não seja preterido nem relegado para mais tarde, para depois ou quem sabe para nunca mais. É salutar que não se tenha medo de viver simples, básico, de forma cômoda, mas de modo a priorizar o “olho-no-olho” e, sobretudo, o “dar tempo ao tempo”, inclusive para que tudo pegue verdadeiro sabor e gosto como uma comida feita no fogão à lenha, como na tempo das “matronas” em que um cozido ficava por dias “decantando” até atingir o ponto e a consistência ideais. Desse modo, também as relações, os sonhos e, sobretudo, a vida, necessitam de tempo. Sem isso, não viveremos de fato, mas sobreviveremos. E não há forma pior de morrer, embora ainda se viva. Ou é isso ou a vida foi em vão; não mais do que um trabalho tedioso e estafante.

 

Discípulos alegres, filhos da Ressurreição

No Domingo de Páscoa, a Liturgia nos fez acompanhar Pedro e o discípulo amado em direção ao sepulcro em que Jesus havia sido posto, logo após Maria de Magdala lhes ter dito que o corpo do Senhor havia sumido (cf. Jo 20, 1-9).

O artista Eugène Burnand (30 de agosto de 1850 – 4 de fevereiro 1921) pintou essa passagem do Evangelho com grande maestria, aliás, como é próprio da arte e dos pintores, de um modo geral. Ele descreve os discípulos pressurosos, tal como sugere o Evangelista João. Pedro e o discípulo amado vão, cada um à sua maneira, comprovar se o que aquela mulher, Madalena, de quem o Senhor havia expulsado sete demônios (cf. Lucas 8,2), falava-lhes a verdade. Afinal, uma mulher, uma criança e um animal valiam a mesma coisa e, exatamente por isso, não eram dignos de crédito.

Pedro segue pesado, face enrijecida, semblante desconcertado por aquele anúncio tão incomum. Ele conserva ainda a dor e o remorso de ter negado o Senhor por três vezes. Seu coração ressente aquela sua postura tão anti-discipular. Ele teme não ser perdoado, não ser digno do Senhor. Suas entranhas se contorcem de tristeza, de frustração e de decepção. Como pode negar o Senhor? Como seguir se apresentando como seu discípulo? Como confirmar seus irmãos na fé e olhá-los nos olhos? À medida que segue, seus passos se tornam pesados como chumbo e o desejo é de não chegar. Seu corpo treme e tem calafrios. Se pudesse, ele fugiria daquele momento tão emblemático, tão duro e de de confronto. Ir ao sepulcro é dizer para si mesmo que nada daquilo do qual tem receio foi sonho ou um terrível pesadelo. Infelizmente, tudo aquilo ocorreu. É uma realidade dura demais, incruenta, extremamente difícil, mas verdadeira.

João, por sua vez, foi o único discípulo que se manteve de pé diante da cruz de Jesus. Foi consolo para Maria e as outras mulheres. Não julgou seus colegas, não lhes reivindicou fidelidade ou lealdade ao Senhor. Guardou silêncio e profunda reverência. Estava absorto demais na dor e na tristeza para se colocar como juiz. Compreendeu que não era mesmo fácil para os demais discípulos se colocarem ali, no patíbulo da cruz. Sabia que nem mesmo Jesus os julgava por isso. Antes, lançava-lhes um olhar profundo de amor e de misericórdia. E foi precisamente esse olhar que mais doeu no coração de Pedro. Ao negá-lo, o galo cantou. Ele se deu conta da advertência do Mestre: “antes que o galo cante três vezes, tu me negarás” (Mt 26, 34). E a cena não poderia ter sido mais dolorosa e dilacerante. No mesmo instante em que negou, Jesus passou por ele, levado pelos soldados, e o fitou. Seus olhos se encontraram. É mesmo uma cena indescritível tal como um rasgão no peito. Mas o olhar de Jesus, já macerado pela dor e pelo sofrimento, não o condenou. Amou-o. E nada é mais pungente do que ser amado quando não se merece; quando se sabe indigno. Pedro tinha consciência de que era indigno do amor do Senhor.

Ambos correm. João chega primeiro. Está mais leve. É jovem. Seu coração como águia salta de alegria pela possibilidade da verdade: a de que o Senhor está mesmo vivo. Há em seu interior uma grande abertura para crer. Ele não requer provas em definitivo. Aprendeu a confiar na Palavra de Jesus. Ele havia descansado o seu ouvido no peito do Senhor naquela noite tenebrosa de negação, traição e condenação. Ele escutara o ritmar do coração de Jesus e nele descansou as suas aspirações. Agora, nada o poderia abalar. Ele sabe, por experiência, que tudo quanto o Senhor disse haverá de se cumprir com certeza. Aliás, ele aguarda ansiosamente por isso; pela realização de todas as promessas. Embora o seu amor tenha sofrido um duro golpe pela perda de Jesus, ao mesmo tempo ele se dá conta de que algo maravilhoso está por cumprir. Ainda não sabe como nem quando, mas por que ama, sabe que algo inédito, fabuloso, sem precedentes na história está por se realizar. Seu coração descansa nessa certeza. Ele é o primeiro a chegar.

Ao entrar no sepulcro, viu para além do visto, do visível e do material. Não eram mais o lençol mortuário, o sepulcro vazio e a pedra retirada. Nada daquilo comprovava absolutamente nada. Era algo mais profundo, mais verdadeiro, mais real: Jesus tinha sido realmente arrancado do poder da morte, do mais baixo dos infernos. Ele tinha sido elevado do mundo dos mortos. Ele, o Senhor da vida, não poderia mesmo ficar circunscrito à região da morte nem tampouco aos seus resquícios e ditames. Ela, a morte, enfim, tinha vencida precisamente no reino dela, lá onde ela era senhora absoluta. Desbaratada no seu reino, ela perdeu o seu poder destrutivo, seu quinhão inconteste. O Rei da vida a venceu de uma vez por todas. Num golpe extremado de amor, ela foi derrotada para sempre.

Eis agora o enorme desafio para os cristãos; o de sermos filhos da Ressurreição, isto é, alegres e convictos no anúncio a este mundo, mergulhado na tristeza, na desesperança, na discórdia, no medo e na morte, da mensagem da vida ressurreta do Cristo que vibra em nós, dentro de nós, e nos faz comprometer com a transformação de todas as realidades de morte onde quer que elas estejam. Ousaremos, também nós, ir pressurosos a fim de anunciá-Lo vivo e ressuscitado aos nossos irmãos e irmãs, muitos desses cabisbaixos, entristecidos e fatigados pelos caminhos da vida à espera da Boa-Nova da Salvação?

 

Amor e Misericórdia

Quanto mais densas forem as trevas, mais forte há de brilhar a nossa fé. Essa inspiração, como lance de luz em minha alma, não me chegou do nada nem veio sem propósito. Ela é fruto da ruminação dos fatos destes tempos difíceis pelos quais passa a Igreja. Um antigo filósofo dizia, em sua filosofia, que tudo que é sólido se desintegra no ar. Pode ser!. Mas há coisas que não se perdem jamais. Uma delas, indubitavelmente, é a convicção de um amor e de uma misericórdia que são mais fortes e maiores do que tudo. Quando ouço dizer que um ou outro “caiu aqui ou acolá”, eu me recordo que também eu sou frágil, miserável, pó, e possuo uma carne de desejos, contradições, descaminhos e incoerências. Sei bem de que matéria eu sou feito. Poderia ter sido eu! Logo, não é pietismo algum reconhecer que não posso me fiar em mim mesmo. Eu seria um louco. Um completo desajustado, inconsequente, imprudente e néscio se acreditasse que basta o meu querer, ainda que firme, para eu ser forte, honesto, santo, para eu ficar de pé. Quem me garante que serei fiel até o fim? Eu não posso garantir. Porque eu não me garanto. Eu só posso, isso sim, confiar na Graça que me sustenta e me põe de pé [já me pôs tantas vezes…]. Confio na Graça que me escora, me apoia, me apruma e me resguarda. Na Graça que me mantém firme, ainda que trôpego, e me faz avançar não obstante os deslizes no caminho. Quantas vezes escorreguei e quase cai. Quantas vezes! Desse modo, essa mesma Graça me corrige, me orienta e me instiga a não parar nos meus erros, a não usá-los como “apoio”, desculpas, “suporte”. Eles não devem ser âncora para o meu comodismo, para a minha falta de decisão. Para a minha preguiça. Para o meu vitimismo. Ainda que falho, o convite é para seguir: “Siga-me!”. Mesmo pecador, imperfeito, limitado, eivado de frestas entreabertas, o convite é imperioso: “Prossiga!”. Nada, absolutamente nada, deve ser desculpa para eu ficar, estacionar, acomodar-me ou achar que não devo continuar. De fato, há outros melhores e maiores do que eu, intelectualmente mais sábios, espiritualmente mais santos, humanamente mais capacitados e sóbrios. Não é falsa humildade. É a realidade. Mas é justamente por não confiar unicamente em mim, por saber que não sou o meu próprio “garante”, minha força e meu esteio, é que não me prendo no que passou e nas rachaduras que compõem minha alma. As dores do tempo presente não bloqueiam em mim a convicção em querer avançar. Antes, mirando no Eterno, no Totalmente Outro que me salva de mim mesmo, é que eu, ousadamente, prossigo pé ante pé; às vezes, trêmulo; outras vezes, enérgico, mas sempre confiante. Em mim? Não! Na Graça. Não sou juiz nem censor. Não almejo sê-los. Não sou limite nem perfil de nada nem de ninguém. Não sou e jamais serei modelo a ser seguido, imitado. Não quero e dispenso “seguidores”. Não se prendam a mim. Do contrário, cairemos todos no abismo à nossa frente. Olhem unicamente para onde olham os meus olhos. O não julgamento do outro que errou; o distanciar-me de quem se refestela na polêmica, no ódio gratuito e no acolchoar de rancores e mágoas me ajudam a conservar o mínimo de saudabilidade espiritual que minha alma e mente exigem. “Sede misericordiosos como o vosso Pai do céu é misericordioso” (Lc 6, 36). É só o que eu quero ser. Afinal, amar e ser misericordioso é sabedoria de vida. É inteligência emocional. É saber plantar para colher depois. Por saber que posso cair no próximo passo, a qualquer momento, é que eu só confio e anuncio: o Vosso amor, Senhor. O Vosso amor! Eis o meu pedido de conversão.

 

 

Semana das Dores: Converter-nos!

Iniciamos com o V Domingo da Quaresma a “Semana das Dores” que antecede a Semana Maior, a Semana Santa. A Igreja, porque peregrina neste mundo dilacerado pela discórdia, experimenta igualmente inúmeras dores, a exemplo de Jesus Cristo, seu divino esposo, e de Maria Santíssima, a Virgem lacrimosa. Como uma barca frágil e pequena sobre o mar do mundo, a Comunidade dos discípulos do Senhor é agitada pelos vendavais da História. Como outrora no passado, os cristãos experimentam hoje inúmeros dissabores. E no Tempo da Quaresma os revezes parecem aumentar significativamente. Por todos os lados pululam os discursos de ódio, de intolerância, de preconceitos e de discriminação. As redes sociais se tornaram campos de guerra, sem lei nem bom-senso, sem piedade nem complacência. Não há verdadeira procura pela verdade e, na preguiça de checar a fonte, tomamos como verdadeiro aquilo que lemos, vimos ou ouvimos por meio das diversas ferramentas modernas de comunicação. Infelizmente, a mentira, a calúnia e a difamação, antes restritas aos umbrais das janelas de onde espreitávamos o mundo, agora se avolumam e se espalham irrefletidamente como pólvora. Despontam nas “cátedras digitais” novos gurus e mestres, senhores absolutos da “verdade” pleiteando um lugar ao sol. Suas “vestes intelectuais”, no entanto, são de antigos regimes ditatoriais travestidos de “liberdade de expressão” e de “direitos que lhes assistem”. Estamos nos embrutecendo. Defendemos com unhas e dentes nossos pontos-de-vista, nosso partido político, nossos ídolos. Optamos pelo extremismo e nos arrogamos o título, verbalizado ou não, de “salvadores da Pátria”. A justa medida e a virtude do equilíbrio não nos parecem [re]compensar(?). O linchamento alheio, antes físico, agora é moral, cultural, social, ideológico e, sobretudo, digital. Execramos quem pensa ou opina diferente de nós. E neste ringue não escapa ninguém. Bem disse o papa Francisco: A “fake news começou com a serpente no éden”. E o “pai da mentira, do ódio e do terror” tem deitado e rolado às nossas custas. Mas o que podemos fazer para, ao menos, minimizar esse mal corrente? Sermos verdadeiros cristãos, isto é, mais parecidos com Jesus de Nazaré. Menos religiosos-fariseus, mais humanos-sensíveis. Menos esquerdistas/direitistas, mais cidadãos. Menos hipócritas, mais verdadeiros. Menos justiceiros, mais misericordiosos. Menos “donos-da-verdade”, mais ternos e amorosos. Menos católicos de carteirinha: desse ou daquele movimento; dessa ou daquela pastoral. Mais cristãos, de fato. Afinal, somos todos membros de um único corpo: a Igreja de Cristo. Ainda dá tempo de nos convertermos a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho, fugindo de quem promove o ódio e incita a violência nas suas mais perversas e múltiplas facetas. Portanto, não reverbere notícias más! Ame e ore por sua Comunidade de fé, por sua Igreja. Por seus ministros e pastores. Há, por todos os cantos, pessoas sofrendo e chorando. Há suficiente decepção e escândalos no mundo e em todas as instituições. Sejamos autênticos. Continuemos a ser firmes na fé, alegres na esperança e solícitos na caridade. A cruz de Cristo é nosso lugar irrenunciável, mas ela não é o nosso fim. Se lhe formos fiéis, com Ele ressuscitaremos. Toda dor há de passar. Todo sofrimento terá fim. O Aleluia e o Glória, ora cessados, serão entoados num Hino festivo. Não estamos sozinhos. Eis que vem o Esposo. Coragem, Igreja! O seu Senhor voltará com certeza, como Sol Triunfal.

Jesus e as mulheres: 08 de março

Desde o Antigo até o Novo testamento não nos faltam figuras femininas de expressiva lembrança. Muitas delas são o que comumente chamamos de “personalidade corporativa”, pois vão muito além delas mesmas, representado uma casta, embora discriminadas e marginalizadas; outras, um povo, uma tribo, um clã, e, algumas delas, solitárias, como a figura da viúva, eram obrigadas a viver numa condição social indigna para qualquer ser humano. Eis o nome de algumas dessas: a viúva de Sarepta, Rute, Holda, Ester, a mãe dos irmãos macabeus, Susana, Isabel, Maria – mãe de Jesus -, Maria Magdala – a quem Jesus ressuscitado apareceu por primeiro -, Marta e Maria – amigas pessoais de Jesus -, Lídia, Priscila, Febe e outras diaconisas colaboradoras do Apóstolo dos gentios.

As mulheres estão presentes ao longo de toda a vida de Jesus. Tudo começa com o anúncio feito a Maria (Lc 1 – 2), sua mãe, e termina com a ternura das mulheres chorando sua morte e velando seu túmulo. Há uma presença constante das mulheres no grupo dos 12: (Lc 8, 19); no caminho do calvário (Lc 23, 27 – 28) onde inclusive Ele as consola, não obstante a dor e o sofrimento; aos pés da cruz (Jo 18, 25; Mt 27, 55); na sepultura (Lc 23, 56; Jo 20, 17; Lc 24, 9); no cenáculo (At 1, 14). Os Evangelhos, concomitantemente, põem na boca de Jesus vários vocativos referentes à “Mulher ”: nas bodas em caná (Jo 2, 4), à samaritana (Jo 4, 21), à cananeia suplicante (Mt 15, 28), a uma mulher possessa, encurvada (Lc 13, 12), à uma adúltera (Jo 8, 10), no calvário, à sua mãe (Jo 19, 26), à Maria de Mágdala (Jo 20, 15), a “apóstola dos apóstolos”.

Jesus nunca se deixou intimidar pelo contexto excludente, machista e misógino de sua época. O ideal bíblico baseado no modelo patriarcal era de famílias numerosas, o que obrigava as mulheres a terem muitos filhos, pois isso era visto como um sinal explícito da benevolência divina. A Mulher, no entanto, era respaldada única e exclusivamente pela tutela de um homem: seu marido, filho, pai ou senhor. Sozinha, ela era ninguém: uma indigente, desprezada e deixada à mercê da própria sorte. A mendicância e a prostituição eram destinos certos. O testemunho de uma mulher valia tanto quanto o de uma criança, um escravo ou um animal, ou seja, nada. Jesus, porém, não se intimidou, mas ao contrário, aproximou-se delas deixando-se “tocar” por mãos tão femininas, sensíveis e humanas, podendo, inclusive, contar com a colaboração primorosa e direta de tantas mulheres durante todo o seu ministério.

Ao longo da história das primeiras comunidades judaico-cristãs, muitas mulheres abriram suas portas aos novos convertidos e os assistiam com seus bens e talentos. Paulo cita especialmente “um bom número de gregos que adoravam o Deus único, e não poucas mulheres da alta sociedade” (Cf. At 17, 4). Menciona também a conversão de Lídia (cf. At 16, 14), a hospitalidade de Priscila que o recebe em Corinto (cf. At 18, 2). Na carta aos Romanos, Paulo envia longas saudações a todos aqueles que o sustentaram. Um quarto dessas pessoas são mulheres, e ele fala calorosamente delas (cf. Rm 16, 1-16). A partir desse dado, é lógico nos perguntarmos: Onde estão as colaboradoras da Igreja primitiva de hoje? Onde e como estão essas abnegadas servidoras do Sagrado?

Entra no teu quarto…

“Quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (Mt 6, 6).

Essa foi uma das três recomendações que Jesus nos deu no início da Quaresma, na Quarta-Feira de Cinzas, além da Esmola e do Jejum. Como eu gosto dessa recomendação do Senhor. Ela é precisa e nos alcança no subsolo de nossas lembranças mais afetivas. Afinal, a casa é o nosso lugar mais íntimo. É para onde voltamos depois de um dia exaustivo ou no fim das férias. Não há nada como a casa da gente. Ela com nada se compara. Pode ser luxuosa ou modesta, a nossa casa é o melhor lugar do mundo. Mas Jesus, como exímio “arqueólogo da espiritualidade humana”, vai um pouco mais além. Ele nos dirigi para mais dentro, mais profundo, para o interior do interior: o quarto. A simbólica do quarto é perfeita para a mensagem que o Mestre nos deseja passar: a da oração como intimidade. Nosso quarto é o nosso “sacrário”, nosso “quartel-general”, onde nossa intimidade está desvelada e exposta. Ali, só se entra se for convidado e, às vezes, nem assim. O quarto é o limite para as visitas que vêm conhecer a casa e seus cômodos. É o nosso lugar de repouso, de pré-morte e de ressurreição diária. Tudo ali tem o nosso cheiro, o nosso jeito e a nossa cara. Os móveis e suas disposições, a escrivaninha, os livros, as roupas, enfim, tudo tem a nossa marca. Nosso DNA fica espraiado em tudo e tudo remete a nós. Por isso, Jesus o sugere como “lugar de encontro com o sagrado”, com o “Divino”. Todavia, é preciso entrar e fechar a porta e rezar ao Pai que está no segredo. Repito. Que imagem linda! Que poesia e que sensibilidade! Orar ao Pai é entrar em intimidade profunda com Ele. É deixá-Lo vir à nossa interioridade mais pungente e dali nos falar ao coração. É despir-se do que cobre nosso corpo, nosso rosto e nosso coração. É colocar-se verdadeiramente “nu” diante de Deus. Sem maquiagem nem vestes. É não ter pudores com Ele. Não senti-Lo como um estranho, alguém de fora, exterior a nós. É, antes, conviver com Ele intimamente. Deixá-Lo se sentar à cabeceira ou aos pés da nossa cama. Deixá-Lo à vontade. Emprestar-lhe – e até sugerir – que Ele calce nossas sandálias e as sinta em seus próprios pés. Permitir que Ele, o “mais íntimo de nós do que nós mesmos”, fique um pouco; descanse um pouco e até durma em nossa cama. Ceder-lhe a cama, enquanto nós, seus convivas, lhe emprestamos nosso quarto. Deixá-Lo ficar e não despertá-Lo de súbito quando Ele adormecer. Ficar e permanecer. Falar e ouvir. Sentir. Silenciar. Enquanto a nossa oração não for tudo isso, ainda não será verdadeira oração.