Categoria: Artigo

O tempo, Sinhá…

Ah, Sinhá, a vida passa tão rápido que a gente nem vê!
Não vê, mas sente
Ela se esvaindo
Se consumindo
Fugindo
Escorrendo por entre as vigas do tempo
Ah, o tempo
Segue triturando tudo
Moendo sonhos
Cozendo esperanças
Sorvendo lutas
Apagando chamas
Dando menos do que ousou pedir
É esse sentimento de urgência que me consome
É um não sei o quê de inadequação que me toma
Que me assalta
Que me transtorna
Quando vejo, é um estar sem estar
Uma saudade sem nome
Sem face
Sem corpo
Sem alma
Uma saudade etéria
Tudo indo…
E eu ficando
Outras vezes, sou eu que vou…
E tudo fica.
Houve tantos hiatos
Hiatos abismais
Abissais
Demais
Tantas interrupções
Desnecessárias
Irrefletidas
Insanas
Desmedidas
Tantas tarefas por fazer
Por construir
Por terminar
Tantas…
Mas quando vejo
Já são 18h
É sexta-feira
Já chegou dezembro

Ainda haverá tempo?
“Segue o bonde”, dizem-me alguns…
Seguir como?, pergunto-lhes
[…]
Silente prossigo
Silente e só
O tempo é inimigo da gente, Sinhá!
Ele há de nos levar tudo…
E quando nada mais restar,
Levar-nos-á.

“Você é feliz?”

Ela então me perguntou, à queima roupa e sem pestanejar, se eu era feliz. Por uma compulsão instantânea, eu quase lhe respondi. Estava pronto para lhe dizer que sim e tecer todo o meu discurso pronto e ensaiado sobre a felicidade. Os ingredientes da receita já estavam na ponta da língua. Mas, por uma fração de segundo que me pareceu mais uma eternidade, tive uma iluminação: esse modelo de felicidade não cabe; não serve. Ele é meu. E é quase indecente revelá-lo assim a outrem. Desnudá-lo sem pudores. Minha interpretação sobre a felicidade tem o alcance das minhas experiências e da minha elaboração do vivido. E tudo isso é tão íntimo que chega a ser violento e quase agressivo. Então me calei. Fiz calar também os meus pensamentos a um silêncio sepulcral. Eu não tinha o direito de apresentar àquela senhora as minhas cercanias e visões tão míopes sobre algo que me escapa. Não. Eu não tinha e não tenho a receita de felicidade. Não posso dizer a quem quer que seja o que isso significa: ser feliz. É preciso que cada pessoa descubra por si mesmo e encontre a sua noção do que é ser feliz. Eu tenho, tão somente, uma compreensão egoísta da felicidade. Eu sei o que é felicidade para mim. Defini, conceituei e assumi que ser feliz, para mim, tem este peso e esta medida. Dei forma a esse entendimento e nele me acomodei. Sinto-me, portanto, em águas claras e calmas; navego sem grandes atropelos. Pintei minha felicidade da cor que quis e a batizei com o nome que julguei razoável. Ela não tem parâmetros matemáticos e é impossível mensurá-la cientificamente. O laboratório mais sofisticado não a poderia diagnosticar. A minha felicidade não cabe em outro peito. Ela é totalmente pessoal. É minha. O modo como a vejo, a sinto e a vivo é único e intransferível. Não seria honesto desfilá-la para que outros a tomassem como modelo ou perfil de verdadeira felicidade. Seria um “felicídio”. Eu preferi escondê-la por sob o véu da minha face ante os olhos desacostumados de vê-la; a minha felicidade específica. Assim, resignado e quase sem ar, respondi: estou tentando. Afinal, quem não está? Ao menos é o que todos dizem, ponderei. Agora, ser ou estar já é de outra ordem. Talvez, volitiva. Cada um que se esforce por descobri-la por entre os melindres da própria vida. E entre os dentes segredei: perdoe-me, felicidade. É para resguardá-la que a omiti, e não a revelarei jamais. Tratei logo de me justificar. Afinal, minha felicidade é também clandestina.

Católicos que saem antes da benção final

Quanto “dó” eu tenho daqueles que não esperam pela Benção no fim da Missa. Sem falar que é litúrgico, elegante e educado aguardar a completa saída da equipe de liturgia, o padre e seus ministros. Muitos saem após receberem a comunhão. Alguns chegam depois do Ato Penitencial e entram na procissão da Comunhão sem nenhum peso de consciência. Não entenderam nada. Não são fiéis; são “turistas dominicais”. Vão por ir; por pura eventualidade social. Não descobriram, ainda, o grande Tesouro que a Missa é. Não se preparam para ela e quando chegam não a vivem com a reverência e a disposição que ela enseja. Se faltarem, não sentem nenhum torpor. Domingo após domingo, e nada muda. Se vão; se ficam, tanto faz. Mas o que mais me entristece é ver pessoas saindo pelas portas laterais, pela porta principal, quando nem mesmo estendi as minhas mãos para abençoá-los. Não sabem eles que quem abençoa é o próprio Deus? Não precisam, também eles, desta Benção que é capaz de tudo; de nos salvar, de nos curar, de nos transformar profundamente? Há aqueles que, sem terem a ciência do poder salvador e libertador dessa Benção, vão depois à sacristia pedir uma benção especial. Depois da Missa! Como isso é possível? Ora, não há benção “maior” e “melhor” do que essa. É o próprio Cristo, morto e ressuscitado, no alto da Cruz e à Direita do Pai, quem abençoa. É Ele que se estende em Benção sobre o seu povo. É a Trindade que, reunida, se derrama copiosamente sobre a Assembleia e dá a ela todas as Graças de que necessita. É a Benção das bençãos. Não há nada mais nobre, mais santo e mais restaurador do que participar da Santa Missa (SC 7). Feliz de quem dela participa do início ao fim. Quem, ao sair de casa, já vai pensando em Deus e nos irmãos que irá encontrar. Quem chega com antecedência e se coloca em súplice oração. Quem ouve atentamente as leituras e se deixa alcançar pela Palavra de Deus que é sempre Palavra de Salvação. Feliz de quem comunga do Pão da Palavra e do Pão Eucarístico e, sem pressa, mas com o coração dilatado e com muita fé e esperança, abre-se inteiro para receber aquela Benção que é “Benção do Céu”, que desce direto do coração de Deus e nos mergulha em seu amor. A cada Missa somos imersos neste grande “Mistério da Fé” e que nos transubstancia como transubstancia as espécies do Pão e do Vinho. Também nós saímos transfigurados. Deveríamos sair todos transfigurados. Mas quem não tem tempo para Deus e não é generoso para com Ele jamais poderá fazer essa experiência que requer paciência e docilidade de espírito. Os aventureiros e os apressados jamais entenderão o que significa isso: “Ide em paz, o Senhor vos acompanhe”. Confesso: nessas horas tenho vontade de lhes dizer: Ide em paz e que o Senhor os alcance. Ele certamente os alcançaria, se lhe dessem mais um minuto.

“Padre, é pecado eu acreditar na reencarnação, sendo cristão?”

“Padre, é pecado eu acreditar na reencarnação, sendo cristão?”
 
Somos seres únicos e irrepetíveis. Nós, cristãos, acreditamos em um Deus pessoal que, eternamente, pensou em nós e nos chamou à existência. Nunca antes havíamos vivido esta experiência humana e nunca mais tornaremos a vivê-la. Nossa passagem por este mundo será única e é inédita. Quando findar nossa jornada aqui na terra, lugar de passagem, retornaremos para a casa do Pai, a morada eterna, de onde saímos do seu amor e da sua vontade. Por que cremos assim? Por Jesus, o Filho de Deus encarnado assim nos assegurou:
“Não se perturbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar um lugar, virei outra vez, e vos levarei comigo, para que onde eu estiver estejais vós também. Vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho. Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14,1-6). E nós cremos na palavra de Jesus. Como Ele ressuscitou, nós também haveremos de ressuscitar.
De fato, não queremos deixar ninguém na ignorância a respeito dos mortos, para que não fique triste como os outros, que não têm esperança. Com efeito, “se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos igualmente que Deus, por meio de Jesus, com ele conduzirá os que adormeceram. Eis o que temos a vos dizer, de acordo com a palavra do Senhor: nós, os vivos, os que ficarmos em vida até a vinda do Senhor, não passaremos à frente dos que tiverem morrido. Pois o Senhor mesmo, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu. E então ressuscitarão, em primeiro lugar, os que morreram em Cristo; depois, nós, os vivos, que ainda estivermos em vida, seremos arrebatados, junto com eles, sobre as nuvens, ao encontro do Senhor, nos ares. E, assim, estaremos sempre com o Senhor” (I Ts 4, 13-18).
Ao morrer, toda pessoa terá o seu juízo particular, isto é, aparecerá diante de Deus. Diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC) que, “cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre” (§1022). E, no fim dos tempos, na Parusia, a segunda volta de Cristo, haverá o juízo final de todos na presença de todos, vivos e mortos. Acerca do paraíso, diz a Igreja que “na glória do Céu, os bem-aventurados continuam a cumprir com alegria a vontade de Deus em relação aos outros homens e à criação inteira. Já reinam com Cristo; com Ele ‘reinarão pelos séculos dos séculos” (CIC 1029).
Sobre o purgatório, afirma: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu” (CIC 1030). E quanto ao inferno, “o ensinamento da Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, “o fogo eterno”. A pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira” (CIC 1035).
Logo, é impossível professar a fé na ressurreição do Senhor e na nossa e acreditar, ao mesmo tempo, que somos passíveis de reencarnação. Jesus não é um iluminado. Jesus não é um reencarnado. Ele, sendo Deus, quis viver uma vida como a nossa, verdadeiramente humana, exceto o pecado (cf. Hb 4, 1ss). Jesus passou pelos mesmos percalços que nós passamos e experimentou a nossa pior dor; a dor da morte. Mas ela não teve poder absoluto sobre Ele. O Pai, doador de toda vida e, sobretudo, da vida verdadeira, o Ressuscitou do mundo dos mortos e lhe concedeu a vida que nunca mais lhe será tirada. Também a nós, aos que crerem e aos que nEle esperarem, será concedida a mesma graça: a de ressuscitarmos com Cristo para Deus, de uma vez por todas. A Eternidade é o nosso destino. Afinal, caminhamos todos para lá, jundo de Deus, onde o seu amor nos espera e onde teremos todos uma morada fixa.

Missa não é espetáculo para foto, é o encontro com Cristo

Cidade do Vaticano (RV) – A Praça S. Pedro acolheu milhares de fiéis para a Audiência Geral desta quarta-feira ensolarada de outono (08/11) no Vaticano.

Após saudar os peregrinos de papamóvel, ao se dirigir a eles o Papa Francisco anunciou um novo ciclo de catequeses depois concluir na semana passada a série sobre a esperança. A partir de agora, o tema será dedicado ao “coração” da Igreja, isto é, a Eucaristia. Para Francisco, é fundamental que os cristãos compreendam bem o valor e o significado da missa, para viver sempre mais plenamente a relação com Deus.

“Não podemos esquecer o grande número de cristãos que, no mundo inteiro, em 2000 anos de história, resistiram até a morte para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar da missa dominical.”
De fato, Jesus diz aos seus discípulos: “Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. (João 6,53-54)”.

O Papa então manifestou o desejo de dedicar as próximas catequeses para responder a algumas perguntas importantes sobre a Eucaristia e a Missa, para redescobrir, ou descobrir, como a fé resplende o amor de Deus através deste mistério. Francisco citou o Concílio Vaticano II, que promoveu uma adequada renovação da Liturgia para conduzir os cristãos a compreenderem a grandeza da fé e a beleza do encontro com Cristo. Um tema central que os padres conciliares destacaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação.

“E esta é justamente a finalidade do clico de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos doou na Eucaristia.” A Eucaristia, explicou o Papa, é um acontecimento “maravilhoso”, no qual Jesus Cristo, nossa vida, se faz presente. “Participar da missa é viver outra vez a paixão e a morte redentora do Senhor. É uma teofania: o Senhor se faz presente no altar para ser oferecido ao Pai para a salvação do mundo.

“O Senhor está ali conosco, presente. Mas muitas vezes, nós vamos lá, conversamos enquanto o sacerdote celebra a eucaristia, mas não celebramos com ele. Mas é o Senhor. Se hoje viesse aqui o presidente da República, ou uma pessoa muito importante, certamente todos ficaríamos perto dele para saudá-lo. Quando vamos à missa, ali está o Senhor. Mas estamos distraídos. Mas, padre, as missas são chatas. A missa não, os sacerdotes! Então eles devem se converter.”

O Pontífice fez algumas perguntas às quais pretende responder como, por exemplo: por que se faz o sinal da cruz e o ato penitencial no início da missa? “Vocês já viram como as crianças fazem o sinal da cruz? Não se sabe bem o que é, se é um desenho… É importante ensinar as crianças a fazerem o sinal da cruz, pois assim tem início a missa, a vida, o dia.”

E as leituras, qual o seu significado? Ou por que, a um certo ponto, o sacerdote diz ‘corações ao alto? “Ele não diz celulares ao alto para tirar foto! Não! Fico triste quando celebro e vejo muitos fiéis com os celulares ao alto. Não só os fiéis, mas também sacerdotes e até bispos. A missa não é espetáculo, é ir ao encontro da paixão e ressurreição do Senhor. Lembrem-se: chega de celulares.”

“Através dessas catequeses, concluiu o Papa, gostaria de redescobrir com vocês a beleza que se esconde na celebração eucarística e que, quando desvelada, dá pleno sentido à vida de cada um de nós. Que Nossa Senhora nos acompanhe nesta nova etapa do percurso.”

Fonte: Rádio Vaticano

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Comentário

Confesso que eu aplaudi a crítica do papa. Tão pertinente. Infelizmente, não há nada mais constrangedor do que um ministro ordenado registrar, ele mesmo, uma ação litúrgica; seja missa, casamento ou outro sacramento. Repito: é constrangedor só de olhar. Nosso ministério é para nos fazer apaixonar pelo Cristo e dá-lo àqueles que o buscarem com coração sincero. Ao participar de um Sacramento, o nosso coração deve estar concentrado unicamente no Cristo. Nada nem ninguém deveria nos dispersar. Há tanto barulho e dispersão lá fora, que ao entrarmos em uma igreja deveríamos nos colocar atentos e inteiros na presença do Senhor.

Outro dia, entrei na Igreja no momento da homilia em que um colega presidia a Santa Eucaristia. Fui ali para pegar uma túnica. Ao passar pela nave, vi três jovens em bancos distintos manuseando seus smarphones. Deu pena vê-los ali entretidos com seus celulares. A pregação ocorria, mas eles estavam totalmente alheios a ela. Tive vontade de ir até eles e lhes perguntar: meus irmãos, vocês sabiam que na Homilia é o próprio Jesus quem prega? Aliás, toda a ação litúrgica é Ele o presidente na pessoa do padre. Não se distraiam. A Palavra é para vocês.

Mas tive receio de não ser compreendido. Na sacristia fiquei um tempo ouvindo o meu irmão padre pregar. Quanta sabedoria e docilidade em sua pregação! A Palavra de Deus estava sendo anunciada, mas alguns ali presentes não quiseram acolhê-la. Foram ali sabe-se lá para quê. Estavam ali, mas não de espírito. Seus corações estavam distantes e indiferentes. Seguramente, aqueles jovens saíram como entraram ou talvez com um sentimento ainda pior; de terem perdido o tempo. Teria sido muito melhor se não tivessem ido à missa; se tivessem utilizado aquela uma hora para fazerem outra coisa que realmente estivessem a fim.

O seu grupo ainda é um Grupo Católico?

Se seu grupo aceita membros de outras denominações religiosas, mas para não ferir a sensibilidade desses irmãos vindos de outras crenças, vocês não iniciam os encontros com o “Sinal da cruz”, não rezam o Pai-Nosso e evitam a Ave-Maria, e preferem um proselitismo amistoso, o seu grupo já não é mais Católico. O ecumenismo verdadeiro, e não ideológico, pressupõe que as identidades da fé, do culto e da doutrina sejam mantidas e respeitadas, mas evocadas explicitamente. O que nos une é infinitamente maior do que aquilo que nos divide, mas que ninguém se omita de ser o que é, com honestidade e amor.

Se seu grupo já não se reporta mais ao pároco, cujo ministério e pastoreio lhe foram confiados pelo sucessor dos apóstolos, o bispo, e vocês não tem reverência, respeito e obediência pela sacralidade do múnus sacerdotal in persona Christi exercido validamente pelo sacerdote, seu grupo já não é mais católico. O ministro ordenado não é “peça decorativa”, agente facultativo ou profissional do sagrado. Ele é um servo de Cristo, da Igreja e dos irmãos. Ele é o pai da comunidade. Sua presença e ação sacramental salva, cura e santifica o povo a ele confiado. O padre é Cristo a quem se deve ouvir, amar e respeitar.

Se seu grupo promove encontros, convivências, espiritualidades, formações, viagens e reuniões, mas não busca o conhecimento da sã doutrina e, principalmente, não orienta seus membros a participarem afetiva e efetivamente das Santas Missas como lugar privilegiado do culto cristão por ser a mais nobre de todas as orações, seu grupo já não é mais católico. A missa é o centro da vida cristã, o banquete no qual todos os irmãos de fé se sentam para se servirem uns aos outros. É o alimento do Céu sem o qual ninguém se salva nem se vive.

Se seu grupo está mais preocupado com números, de participantes e de arrecadação financeira, e não prega mais o Evangelho do Cristo que forma novos cristãos conscientes de sua missão batismal e, por isso, são orientados a retornarem às suas comunidades de origem para ali exercerem o seu discipulado missionário, seu grupo já não é mais católico. Um autêntico grupo cristão não forma membros para si, mas discípulos-missionários para a Igreja.

De fato, há muitos grupos que embora se autointitulem “católicos” há muito que perderam a essencialidade da fé cristã e a catolicidade que os distinguiam dos demais outros grupos. Tornaram-se “meras” associações, clubes de camaradagem, ONGs filantrópicas e assistencialistas, guetos de benemerência e amizade. Seus membros já não se identificam mais como sendo ovelhas de um único redil. Elegeram para si outros redis e outros pastores. Não (re)conhecem mais a voz do verdadeiro pastor, e o pastor por sua vez não as conhece e não as pode mais chamar pelo nome. Tornaram-se estranhos, mutuamente.

Cuidado! Grupos assim sempre existiram na história do cristianismo. E pululam de tempos em tempos. Mas o correr das horas já provou que eles não resistem às vicissitudes do percurso. Todo grupo é apenas galho. Só a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, é realmente tronco, árvore frondosa e robusta. Um simples galho só é forte o bastante se se mantiver unido ao tronco. Fora, desprendido e autossuficiente, todo galho seca e morre.

Se você faz parte de algum grupo assim, reflita sincera e honestamente sobre isso. E, depois, seja sábio e leia os sinais dos tempos; acenda a lamparina da sua consciência e busque mais aceite para mantê-la acesa (cf. Mt 25, 1-13). Os tempos são maus. Por fim, vigie, ore e retorne o quanto antes ao seio da comunidade eclesial. Eis que o Noivo está à porta e bate. Abri-lhe de par a par as portas e deixai-O entrar (cf. Ap 3, 20). E não tenhas medo. Volte a ser Igreja! Volte a ser Católico Apostólico Romano!

Eu creio na vida eterna

Eu já perdi pessoas queridas. À medida que a gente envelhece, vamos “colecionando” os nossos mortos. Um parente, um amigo, um ente-querido. Perder alguém é dilacerante. Às vezes penso que a própria morte não é o lado mais doído e triste da vida, mas sim, a perda daqueles que amamos. Ao vê-los inertes num caixão, a gente se pergunta com honestidade: Haverá um outro abraço? Poderei um dia rever sua face? E sua voz, voltará a me contar suas histórias? Terei de novo o prazer de ouvir seus risos? De fato, a morte é um grande mistério. Haverá vida depois desta que vivemos? Iremos nos reencontrar e nos reconhecer quando também falecermos? O poeta Fernando Pessoa dizia que morrer é encantar-se. E que a gente só deixa de ser visto, como um carro numa curva, pois a vida continua do lado de lá. Nessas horas de angústia e de desamparo, restam-nos duas coisas: A fé e a esperança. E elas são um alento. Crer na vida depois da morte ameniza o nosso desespero e nos dá forças para continuar. Sim. De algum jeito, é preciso continuar. E a gente continua. A vida continua. Nada nem ninguém pára para reparar a nossa dor e o nosso lamento. Com o tempo, os abraços se afrouxam e as visitas cessam. O sol se põe, a lua se levanta e as estrelas se acendem. E 24 horas depois, o ciclo se renova. Vem a primavera, chega o verão, e o outono e o inverno não se atrasam. E quando a gente se dá conta já se passaram décadas desde que a pessoa amada se foi de vez. Até que um dia, desavisados ou prevenidos, seremos convidados a partir. A fazer a grande viagem de volta. E sabe o que é pior? Nesse dia, não poderei transferir a outrem o meu bilhete. Ele é pessoal e intransferível. Quando eu medito na dureza e na inexauribilidade da morte, consola-me saber o que só a convicção da fé é capaz de me garantir: “O Senhor teu Deus enxugará as lágrimas dos seus olhos, não haverá nem morte, nem choro, nem luto, nem grito, nem dor, porque essas coisas terão passado.” (Ap 21.4). Por crer em um Deus vivo e que é amigo da vida é que eu sigo anunciando uma outra vida possível: Eterna, Justa, Santa e Feliz. E que ela não se inicia no além-morte, mas no hoje de nossa existência. É preciso viver aqui o que se almeja eternamente. O céu começa já!

Halloween: uma festa sem sentido

O que eu acho da festa de halloween – dia das bruxas? No contexto brasileiro, acho ridícula. Não tem nada a ver com a nossa cultura, com o nosso folclore e com as nossas lendas. Se ainda fosse a festa do Curupira, da Iara mãe-d´água, da Mula Sem Cabeça, do Saci Pererê, do Boto, então aí teria algum sentido.

Mas, infelizmente, continuamos com uma cabeça colonizada. Achamos valoroso o que vem de fora, sobretudo, dos EUA. O que é uma pena. Nossa cultura é tão rica. Nossos enredos e nosso patrimônio artístico são tão vastos. Deveríamos primar pelo que é nosso e incentivar nossas crianças e jovens a conhecer, amar e divulgar sempre mais o que é autóctone. Então nossas escolas e faculdades estimulariam a leitura apaixonada de nossos autores e os estudantes conheceriam nossos artistas e suas artes. Monteiro Lobato, Machado de Assis, Guimaraes Rosa, José de Alencar, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana, Ariano Suassuna, e tantos outros, entre eles os autores regionais, de cordel e das fábulas nacionais, figurariam em nosso panteão sagrado.

Mas não. Preferimos importar tudo. E parece que temos importado o que tem de pior. No campo espiritual, melhor que fizéssemos a “Festa de todos os Santos”. Então os jovens dos inúmeros grupos juvenis existentes e as crianças de nossas catequeses se vestiriam cada uma de um santo segundo sua devoção. Assim, alegremente, anunciaríamos a íntima relação que há entre nós, igreja peregrina, e eles, os santos, a igreja triunfante, que já gozam do convívio eterno de Deus. Mas isso poderia parecer um tanto piegas; melhor e mais bonito é aprontar travessuras e cultuar os “deuses estranhos” e as fábulas de outros povos.

Todavia, é preciso dizer: uma nação, quando não reverencia a sua própria história e não promove a sua própria cultura, já não é mais povo. Apequenou-se!

Nossas diferenças…

Talvez cultuemos diferente…
Eu creio num único Deus, pessoal e trinitário
Talvez você não!
Há quem acredita em vários deuses e até na emanação divina em tudo; “deus é tudo”.
Eu creio totalmente o contrário
Para mim, Deus é absoluto e criador e não se confunde com aquilo que Ele criou, nem mesmo com a sua obra-prima, o ser humano.
O ser homem foi criado à imagem e semelhança de Deus; macho e fêmea, Ele os criou.
A sexualidade é um dom a ser descoberto, não negado.
As diferenças nos completam
Como cristão, eu confesso Jesus como meu salvador; Deus e Homem.
Ele é eterno com o Pai e o Espírito Santo
Não foi um homem qualquer; nem somente um grande líder, poeta, filósofo ou teólogo
Ele sempre foi Deus e se encarnou.
Fez-se um de nós
Igual a nós em tudo; exceto no pecado
O pecado nos desumaniza.
É contrário ao que somos e somos chamados a ser.
É uma ofensa grave ao Criador, a nós mesmos e aos nossos irmãos
Como cristão católico apostólico romano
Minha fé é eclesial.
Eu não creio sozinho
Não sou parâmetro para a minha fé
Eu dependo da Igreja
Sou filho da Igreja
Não sou voluntário
Não sou funcionário
Sou membro
Sou Igreja
Eu acredito em tudo o que a Igreja ensina e professa
Se amanhã, ela disser o contrário, mudarei com ela.
Todavia
As minhas convicções não me tornam melhor nem pior
As “minhas verdades” não me impedem de ouvir as verdades de outrem,
Dialogar e respeitar quando não compreender.
A minha fé pauta a minha vida
A fé que recebi da Igreja é um tesouro: “o depósito da fé”.
Eu o guardo com reverência
Aquilo que não me serve
As ideologias e convenções modernas não condizem com o “patrimônio da fé”
Não aceito
Não adiro
Não promovo
Mas não violento nem desejo a morte de quem pensa ou age diferentemente de mim
Apenas dou o que espero receber:
Respeite a minha fé!

O que em que pedi um milagre a N. Sra. Aparecida

Eu havia acabado de chegar ao Rio de Janeiro-RJ. Tinha ido para participar de um Seminário de Comunicação para padres. O Rio de Janeiro nunca foi objeto de meus interesses turísticos, confesso. Todavia, uma vez que houve a possibilidade de ir, quis fazê-lo com antecedência para, inclusive, conhecer alguns dos seus pontos turísticos mais famosos.

Cheguei ao Santos Dumont precisamente às 09h30. O voo de Uberlândia-Rio de Janeiro foi sem turbulências. De uma tranquilidade que me “assustou”. Voar nunca foi meu maior prazer, mas se tem que ir, que seja voando. Por ter chegado antes do horário do chekin no Hotel, resolvi deixar as malas e ir caminhar na praia, tomar água de coco, essas coisas que fazem quase todos os turistas litorâneos. À tarde, após o almoço num restaurante da orla de Copacabana, voltei ao hotel, pois havia contratado um city tour.

Ao entrar na van e conversar com um amigo por whats, contando-lhe das expectativas em relação à visita ao Rio de Janeiro, meu celular tocou. Do outro lado, minha irmã. Atendi como atendo sempre; feliz e surpreso com a ligação – minha família não tem o hábito de ligar uns para os outros, costumeiramente. Não era a minha irmã. Era uma das minhas sobrinhas. Chorando, ela me disse: “padrinho, atropelaram a vovó”.

Eu fiquei paralisado. Lembro-me de ter dado um grito: o quê? Todos na van me olharam, aterrorizados. Naquele exato momento, tudo ruiu em mim. Eu senti como se algo, uma espécie de cortina, se rompesse dentro de mim. Eu só queria não acreditar no que acabara de ouvir. No meu íntimo, rezei para que minha sobrinha estivesse enganada. Quis saber outras informações, mas ela não as tinha. Eu sofria. Não havia como parar a van, voltar. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Comecei a rezar interiormente e a contatar alguns amigos mais próximos, suplicando-lhes que interviessem de alguma maneira. Eu desejei me transportar para Uberlândia a fim de pôr minha mãe no colo, cuidar, proteger, sarar suas feridas e dizer-lhe que a amava e que tudo iria ficar bem.

O trajeto rumo ao Corcovado foi uma eternidade. Os colegas de excursão, a essa altura, já eram todos solidários com a minha dor. Éramos sete – uma excursão vip, segundo a guia, por causa do número reduzido de contratantes -. Havia uma norueguesa, que apesar de não compreender meu português, entendeu que algo de muito grave havia acontecido. Pediu-me, entre lágrimas, se podia rezar por mim e por aquela situação. Eu lhe disse que sim. Ela fechou os olhos, juntou as mãos e orou. O casal de argentinos, em lua de mel, corou de pavor. O rapaz, aflito, perguntou-me se podia fazer algo por mim. Ofereceu-me seu celular para que eu ligasse para casa, após o meu ter acabado a bateria. Recusei. Sua operadora não era daqui. Generosidade deve rimar com bom-senso. A garota recifense, rapidamente, ofereceu-me o seu, dizendo-me: o meu é nacional. Por favor, use-o. Obedeci.

Liguei, mas ninguém atendia. Quando atenderam, ninguém sabia outras informações, senão a de que minha mãe fora levada para a medicina e estava sendo submetida a exames complementares, a fim de perceberem se havia algum sangramento interno, uma lesão mais grave, já que externamente nenhum órgão fora atingido mais seriamente. Houve inúmeras escoriações. Minha mãe foi atingida quando estava no meio-fio por um carro desgovernado. Dois carros se chocaram, e um deles voou para cima dela e do meu sobrinho. Ela foi arrastada, ficando debaixo do carro. Foram necessários 10 homens para suspender o carro e retirá-la lá de baixo.

Saber de tudo isso e, depois, ver as fotos dela após receber alta do hospital, doeu profundamente o meu coração. Doeu, sobretudo, por que não pude voltar a Uberlândia imediatamente. Diante da minha dor e da minha tristeza, deparei-me terrivelmente com a minha impotência. O meu amor, as minhas orações, nada do que eu pudesse ou possa fazer poderia tê-la protegido do que ocorreu. Minha mãe já é uma idosa. Como eu gostaria que sua vida tivesse sido mais leve do que foi! Como eu gostaria que ela não tivesse passado por tudo isso! Pensar em sua dor, na violência que se abateu sobre ela, dilacera o meu coração.

No entanto, eu preciso reconhecer, pelo testemunho da minha irmã, que estava no momento do acidente, o que ocorreu com minha mãe foi um verdadeiro milagre. Chegando ao Cristo Redentor, fui à capela que há no seu interior e supliquei: Jesus, cuida da minha mãe. Vi, no canto da capela, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Dobrei meus joelhos, e rezei: Ó Mãe, cuida da minha mãe. Não consegui falar-lhe mais nada.

Minha mãe é uma mulher de oração, simples e extremamente bondosa. Por dia, ela deve rezar no mínimo quatro Terços. E não estou aumentando. Ás vezes, até a recrimino: mãe, a senhora reza demais. Se ela lava a louça, ao terminar, senta-se e reza. Após o almoço, antes de se deitar e ao acordar. É uma mulher oracional. Eu sei que, aos olhos de Deus, somos todos iguais: filhos! E nada do que fizermos poderá aumentar ou diminuir o seu amor por nós. Sei, também, que minha prática de fé, por mais autêntica que seja, não aumenta ou diminui o olhar generoso de Deus sobre mim ou sobre quem quer que seja. Sei, ainda, que o fato de ter fé não nos exclui dos infortúnios da vida.

Entretanto, diante de tudo o que ocorreu, e da vida que continua pulsante naquela que me gerou, eu preciso reconhecer as maravilhas de Deus. O Altíssimo olhou com solicitude para minha mãe, e, de algum modo, a mão de Deus a amparou e cuidou para que ela continuasse viva. Sua carne ficou ferida e certamente o seu coração. Mas sua vida foi poupada. Lembro-me agora da ligação que fiz e que pedi para falar com ela. Relutei um pouco, pois tinha receio da minha emoção. Mas o fiz. Ela, do outro lado, com a voz embargada e um pouco fraca, atendeu; deu-me sua benção, quando lhe pedi, e me disse: “sua benção, padre. Como o senhor está?”.

Hoje, ao reverenciar Maria como Nossa Senhora Aparecida, tenho de modo muito concreto esse testemunho para dar. A Mãe de Deus nos amparou num momento de profunda instabilidade e de sofrimento e segurando nossa mão nos ajudou a acreditar: “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).