Categoria: Homilia diária

Solenidade da Santíssima Trindade – o Deus que dança

Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. Não é a festa de um conceito, mas de uma realidade existente em Deus: Três pessoas distintas, e um só Deus. Ela é comunidade cujas pessoas divinas se amam, se respeitam e se promovem mutuamente. Nela, não há divisão nem competição. O Pai ama e gera eternamente o Filho. Amado, o Filho revela explicitamente quem é o Pai: um Deus rico em misericórdia e que só sabe amar. E ambos, Pai e Filho, enviam o elo desse amor, o Espírito Santo, para que Ele recorde aos crentes tudo quanto Jesus revelou e fez e os filialize no Pai, tornando-os filhos no Filho Unigênito.

Uma imagem bonita que a Teologia usa para falar da Trindade é a circunsecção ou circunspecção que, traduzida, pode-se usar a metáfora da brincadeira de roda: um Deus que brinca, se alegra e se diverte. Nele há comunicação de vida, de alegria, de intercâmbio de dons, pois Ele está permanentemente aberto à vida, ao diálogo e ao respeito. Ele é amigo da vida e do ser humano. Ele se fez próximo de cada homem e de cada mulher. Ele deixa vestígios de sua presença e de sua salvação em toda história, pessoal, comunitária, eclesial e mundial. Não há outro relato na história humana de tamanha ousadia: de um Deus que fez tanto por sua criatura; que se encarnou para ser um com ela e para revelar-lhe o seu eterno plano de amor.

A Festa da Trindade é a festa do amor. De fato, não cultuamos Deus porque Ele seja o “Todo Poderoso”, o “Altíssimo”, “Impassível” e “Perfeitíssimo” como outrora rezava o catecismo antigo. Não. Um Deus assim, soaria distante demais da suas pobres criaturas. Afinal de contas, Ele conhece nossas misérias e limitações, sabe das nossas fragilidades, da debilidade da nossa liberdade e da incoerência das nossas decisões. Por essa razão é que Ele acolhe qualquer sinal de resposta de nossa parte. Um pouco de amor já basta; Ele o aceita. Do contrário, um deus distante nas abóbodas celestes nos motivaria pouco.

Mas o Deus único e verdadeiro desceu dos céus, veio ao nosso encontro e se mostrou frágil, pequeno e pobre. Revelou-se pleno de amor. E porque ama, é vulnerável e sofre conosco e por nós. Ele, inclusive, se impôs um limite. Ele não pode tudo. Ele não pode, por exemplo, deixar de nos amar. E nada nem ninguém pode forçá-lo a fazer outra coisa senão isso: nos amar decididamente. A iniciativa foi d’Ele, pois n’Ele não há a menor sombra de egoísmo, de indiferença e de ensimesmamento. Deus não vive para si, senão para as criaturas às quais Ele se pôs a serviço no amor.

Pelo batismo fomos incorporados à vida da Trindade: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.Tornamo-nos filhos de Deus e co-herdeiros e irmãos de Jesus graças à ação do Espírito Santo em nós. Logo, todo aquele que cultua esse Deus age como age a Trindade: na abertura e na solidariedade ao outro. Eis por que é impossível nos dizermos cristãos e negarmos o perdão a quem nos ofendeu. É incompatível com a vida Trinitária em nós sustentar um desejo de vingança, de ódio e de morte contra quem quer que seja. Deus-Trino é doação, diálogo, partilha, perdão e comunicação. É incoerente rezar o CREDO se eu não estou disposto a viver a fraternidade, a comunhão e a unidade com todos. Não tem sentido rezar o PAI-NOSSO se é a minha vontade que deve prevalecer, antes e depois de tudo. Se em minha vida não há espaço para os valores do Reino de Deus. Se adiro à cultura da violência, da mentira, do ódio e da morte espraiada nas redes sociais, nos relacionamentos e na legalização do aborto, das drogas, da corrupção e das injustiças.

Infelizmente, muitas vezes, a TRINDADE vive exilada da nossa vida e da nossa práxis cristã, das nossas ações e dos nossos gestos. Dizemos crer no Deus de Jesus Cristo, mas somos insensíveis, desleais, violentos, presunçosos, pouco misericordiosos, apáticos diante dos sofrimentos do mundo e incapazes de sair de nós em direção aos mais necessitados, aos pequenos e sofredores. Expurgamos a Trindade de nós quando nos ocupamos demais conosco e sobra pouco espaço e tempo para o outro. Quando o que efetivamente importa é a nossa própria felicidade em detrimento da dos nossos semelhantes. Quando impomos pesados fardos sobre os ombros alheios e não nos movemos na intenção de aliviar o peso da existência de alguém.

Eis por que Deus nunca se coloca do lado dos poderosos deste mundo, dos sanguinários e opressores, dos déspotas que se fazem de surdos e de cegos diante dos clamores dos pobres, dos desempregados, dos doentes e dos desrespeitados em seus direitos. Dos que clamam por um mundo mais justo e equânime, com menos abismos sociais e com políticas públicas que garantam a saudabilidade do cidadão em todas as suas dimensões existenciais. O Deus-Trino não faz acordo com os Palácios, os Castelos, as Câmaras, os Senados e as Cortes. Ele não se alia aos governantes e líderes que oprimem, sufocam e matam o povo. O Deus único e verdadeiro está do lado do povo nas ruas, nos casebres, nos corredores dos hospitais, nas escolas sucateadas, nas favelas e nas estradas e rodovias, junto às paralisações. Deus é o “caminhoneiro” do amor, da solidariedade, da misericórdia, do perdão e da vida digna para todos.

Neste dia, portanto, é oportuno que nos perguntemos com honestidade: qual a imagem de Deus que trago comigo? A qual “deus” eu cultuo verdadeiramente: ao Deus Único e Verdadeiro ou aos falsos deuses deste mundo? Que “deus” eu tenho anunciado com a minha vida e com o modo de me relacionar com as pessoas? Que “deus”? Que mundo? E que homem convivem em mim e comigo?

Pentecostes: a festa do amor

Era quase fim do inverno. Iniciávamos o segundo semestre na Faculdade do segundo ano do meu curso de Teologia. O professor de pneumatologia [estudo do Espírito Santo] entrou na sala de aula e à queima-roupa nos perguntou: “Quando foi que você experimentou pela última vez a ação do Espírito Santo?”.

Aquela questão, posta assim tão desconcertante, sem aviso-prévio, calou profundo dentro de mim, como se um pedra me tivesse sido lançada na alma. Fez-se em mim um silêncio perturbador. Eu não sabia o que dizer. Ninguém ali tinha a resposta. Todos se entreolhavam. Eu não tinha ideia de por onde começar. E não ousaria a ser o primeiro. A verdade é que eu não me lembrava de um dia realmente significativo nem de algo grandioso para ser dito como ação do Espírito Santo. Afinal, experiência com o Espírito Santo precisava ser, no mínimo, algo excepcional. Era o que eu acreditava à época.

Entretanto, daquele dia em diante eu passei a ficar mais atento às ações do Espírito. Às suas sutilezas. E para a minha surpresa, desde então eu o tenho visto nas miudezas da minha existência simplória e sem maiores notoriedades. Os instantes mais simples e fugidios estão eivados de sua presença. Como agora. Ei-lo aqui, agindo, quando me propus a escrever este texto e contar de forma despretensiosa essa minha experiência acadêmica. E esse simples gesto está tomado por uma verdade escriturística: O lugar onde Deus deseja se revelar não é mais no monte Horeb ou quiçá no Tabor. Não. O “monte” no qual Ele deseja escrever a sua vontade, manifestar a sua presença e o seu amor é o coração do homem.

De fato, não são poucos aqueles que têm o Espírito Santo como alguém distante e, apesar de nomeá-lo, não o sentem assim, tão próximo. Sim. O Espírito Santo é alguém, com personalidade e características próprias. Então, por que nos falta tanta convicção a respeito de sua ação em nós e no mundo? Por que somos ainda tão tímidos em nossa resposta à sua proposta? Qual? A de nos deixarmos conduzir por Ele. E pensar que Ele nos foi dado em profusão no dia em que fomos chamados à vida da trindade, no dia do nosso batismo: “eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A partir daquele dia, cada cristão se tornou sede da vida divina. Com o Pai e o Filho, veio-nos o Espírito Santo cuja missão é a de nos conformar à vontade do Pai e produzir em nós as feições do Filho. Santo Agostinho dizia que o Espírito Santo, por que mora dentro de nós, é “mais íntimo de nós do que nós mesmos”. Esta proximidade, por vezes, impede-nos de vê-lo nitidamente, à distância. É como se houvesse um ponto cego entre mim e Ele. Mas Ele está ali, presente e agindo em mim e através de mim.

O Espírito Santo é a pessoa mais presente na Teologia Bíblica. Ele esteve antes de tudo, na criação de tudo e depois de tudo. Permanece até hoje e estará até o fim. O livro do Gênesis afirma que “no princípio […] a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1, 2-3). Ele é referido como o sopro, o hálito de Deus. Ainda no poema da criação, quando se afirma por 10 vezes “Deus disse…”, percebemos que nesse falador de Deus – uma vez que o som necessita de ar (oxigênio) -, ali está o Seu Espírito. E se o Espírito é o “ar” que sai da “boca” de Deus, o fonema pronunciado através desse “aparelho fonador divino” é o Verbo, a Palavra Eterna do Pai.

Desse modo, habitando o coração do homem, a Ruah de Deus cria ponte entre o humano e o divino. E o faz num processo novo de comunicação: reza em nós e conosco, pois, “não sabemos orar como convém” (Rm 8,26). Por isso, “Ele vem em socorro à nossa fragilidade” (idem). O Espírito Santo é como os meandros de um rio que encontra labirintos existenciais no coração do ser humano e ali pode escoar levando-o a uma experiência concreta de Deus. Por isso, o Santificador não é propriedade nossa. Ele é livre. E de tão livre é subversivo: “Ele sopra onde quer” (Jo 3,8), como quer e se quiser. Não se deixa engaiolar. Nisso, a metáfora é perfeita. Como “pomba”, o Espírito de Deus dirige-se a lugares e ambientes que não ousaríamos chegar. Ele chega sempre antes de nós e permanece depois que formos embora.

Infelizmente, ainda somos “templos tímidos” (I Cor 6, 19). Entretanto, “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de desassombro e de intrepidez” (2 Tm 1,7), advertiu-nos o apóstolo dos gentios. Paulo foi um homem cheio do Espírito Santo, dessa fortaleza, desse amor e dessa coragem, assim como foram os grandes homens e mulheres da Bíblia. Mas o quê significa ser cheio do Espírito Santo?

Ora, ser cheio do Espírito Santo significa ser cheio de vida, de esperança, de fé, de ânimo, apesar das realidades de morte e de violência às quais somos expostos todos os dias e, não obstante, também aquelas que trazemos dentro de nós. A fé, porém, afirma-nos: “justamente por que espero na ressurreição dos mortos e na vida do mundo vindouro, eu já tenho aqui e agora que resistir aos poderes da morte e da destruição, e amar esta vida aqui de tal maneira que com todas as forças possa libertá-la da exploração, da opressão e da alienação. E vice-versa[1]“. Ter o Espírito Santo nos faz crer inexoravelmente na ressurreição. E crer na ressurreição não é fácil nem simples, ainda mais por que somos alimentados diuturnamente por uma cultura que fez aliança com o que há de mais podre e já em estado de decomposição nesse mundo.

Como no tempo do profeta Elias, também hoje há “Acab e Jezrael” que, para conseguirem o que pleiteiam, mentem, tramam e matam (cf. 2 Rs 21). Os dias atuais não diferem dos tempos monárquicos de um Israel distante. Ainda hoje somos solapados de todos os lados: política, cultural e religiosamente. Mas, se não há espaços para o azeite novo e a água límpida do Espírito de Deus, nem tampouco para a brasa do Seu fogo, como outrora incandescente fora posta sobre os lábios do profeta Isaías (Is 6, 1ss), Ele provoca em nós aquela resiliência que não nos deixa desistir frente às inúmeras batalhas, mas, ao contrário, levanta-nos ainda mais fortes e nos leva a experimentar na dor e na luta “céus novos e uma terra nova” (Ap 21, 4).

O Espírito Santo, Sabedoria do Pai e do Filho, é companhia constante do homem e da mulher de boa vontade. Não apenas dos cristãos. Ele não é propriedade nossa. Ele motiva todos os homens de ontem e de hoje, e os motivará sempre onde quer que estejam. Ele inspira nos corações os melhores sentimentos de paz, de amor e de fraternidade, mas não só; interpela-nos àquela paz inquieta que nos faz gritar a plenos pulmões pelos nossos direitos e reivindicar nossa dignidade usurpada. É também Ele que inspira nos artistas o melhor da sua arte, nos músicos o melhor da sua canção e nos poetas o melhor das suas poesias. Com Sua ciência, contribui com descobertas novas e significativas para a humanidade. É dele a façanha de descobrir sempre o novo, dar a um o dom da peculiaridade e outro o da genialidade. Homens e mulheres que talvez jamais tenham ouvido falar do Cristo, mas que foram interiormente inspirados pelo sopro de um Criador que também os chamou à vida. Afinal, vida é o dom primordial dEle.

O Espírito do Senhor, às vezes, causa certo barulho. Basta recordarmo-nos de Pentecostes. Estando todas as gentes reunidas em Jerusalém para a festa judaica das Colheitas ou Semanas, eis que surge um vento impetuoso e desestabilizador; descortina o medo e desobstrui os canais de comunicação. Pedro, e os mais próximos do mestre, recebem-no com tamanha força que, rompidas as portas e janelas, fala a todos os presentes, anunciando-lhes o “mundo novo”: “[…], pois para vós é a promessa, assim como para vossos filhos e para todos aqueles que estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2, 39). O primeiro dos apóstolos falava-lhes do dom do Espírito Santo e, encorajado por Ele, fez o seu mais eloquente discurso. Não havia receio nas palavras de Pedro e, se seus lábios tremiam, era por que as palavras lhe queimavam, antes, o coração: “a este Jesus [que vós crucificastes], Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32).

O Espírito Santo nos faz testemunhar Jesus. Testemunhá-lo perante o mundo que é contrário ao Seu projeto. E em Jesus está a síntese perfeita da ação do Espírito Santo. Esse Espírito foi companhia constante em toda a vida daquele homem de Nazaré. Graças à Sua ação, o Verbo se encarnou no seio de uma virgem. E por que unidos, a palavra de Jesus era uma palavra poderosa, isto é, cumpria o que dizia [performática]. Dos lábios dEle, de Suas mãos e do Seu relacionamento com as pessoas, e em Sua relação filial com o Pai, o Espírito Santo tinha sempre a liberdade de atuar. Ele esteve antes, durante e continuou após a volta de Cristo à direita de Deus. Foi por meio dessa ação divina que Jesus se entregou sem reservas ao anúncio do Reinado de Deus e a Ele se deu inteiramente. Numa palavra, o Espírito Santo foi o receptáculo da vida de Jesus. Ele a fecundou, plasmou e conduziu. O Espírito Santo foi quem, paulatinamente, propiciou que Jesus fosse se assenhoreando de Sua missão e de Sua vocação. Desde o deserto, no confronto com o inimigo de Deus, até a cruz, lugar da entrega por excelência, foi o Espírito quem contribuiu para que Jesus cumprisse com eficácia e obediência a vontade do Pai. E quando terminada a sua missão no mundo, o Espírito foi o último suspiro do Filho, ajudando-o a morrer no Pai: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu Espírito” (Lc 23, 46).
Depois, na ressurreição, por meio do Espírito, o Pai arranca o Filho das garras do poder da morte, dos ditames e do império que ela governava e O traz à vida plena. E, por que de junto do Pai, o Filho envia aos seus seguidores a plenitude do Seu Espírito. O Espírito do Pai é também o do Filho.

Desde então, os que se dizem cristãos não deveriam mais duvidar desta presença atuante, às vezes silenciosa, em outras um tanto “barulhenta”, mas sempre atuante no mundo. Num mundo que é obra da ação do Espírito de Deus; que Ele ama e pelo qual ficou profundamente admirado ao constatar que “tudo era muito bom”. O mundo é objeto do amor de Deus: um lugar onde se canta, se dança e se ama, mas também, infelizmente, onde se cala, se reprime, se odeia e se mata. É neste mundo, e não em outro, que o Espírito anseia por corações sobre os quais Ele possa agir neles e através deles. Este mundo não é, e jamais será, entregue aos poderes do diabólicos, que terminam na carne por não conhecerem a novidade e a santidade do Espírito. Esse mundo sempre pertenceu ao Espírito de Deus. E, por isso, Ele tem derramado com profusão e largueza sobre toda a sua criação o dom do Seu Espírito. Este mundo, obra do hálito criador de Deus, lhe foi consagrado desde sempre.

Por vezes, ouvimos falar de pedidos por consagração do mundo ao Espírito Santo. É preciso que se diga com honestidade e coragem: o mundo já o foi de uma vez por todas na cruz de Cristo, de modo pleno e acabado. De fato, não há altar melhor, maior e mais santo do que este: a cruz do Senhor. De lá, antes de expirar, Jesus entregou o Seu Espírito (cf. Jo 19, 30). E o entregou para quem? Para nós, para este mundo, para quantos se abrirem à sua presença. E por que Ele no-lo deu/ Para que nós, e toda gente e em todo lugar, pudéssemos ter hoje, como ontem, amanhã e sempre, a nossa mais profunda, pessoal e comunitária, “experiência com o Espírito Santo de Deus”. Quem a tiver, verá tudo transformado, inclusive e, sobretudo, a face do próprio coração.

A Videira Verdadeira

Na Liturgia desse domingo, refletimos o capítulo 15 do Evangelho de S. João no qual Jesus se compara a uma videira: “Eu sou a videira verdadeira e vós sois os ramos”. Um discurso eloquente e que bebe da Tradição Profética das Sagradas Escrituras. Profetas como Isaías e Jeremias, por exemplo, usaram a mesma alegoria para se referir ao Povo da Antiga Aliança. Israel era tida como a vinha do Senhor. E, embora Ele tenha se dedicado com esmero, ela não conseguiu dar os frutos que o Senhor esperava, a saber, a justiça, a equidade, a fidelidade e o amor. Em Jesus, porém, descortina-se um novo Povo de Deus, uma nova Aliança e uma nova Vinha. Interessante notar nesse discurso o lugar que Jesus se dá: “Eu sou a videira verdadeira”, isto é, o Tronco de onde os discípulos – os ramos – extrairão a seiva necessária para se manterem vivos e poderem dar bons frutos. Eis porque a atitude mais sensata é a de manter-se fixo a Ele. Pois, o ramo que se desprender do Tronco, morrerá com certeza. Mas aquele que ficar, será podado mais de uma vez para que possa sempre dar frutos e “frutos saborosos ao paladar”. A mensagem é ainda para falar da vida cristã. Fora de Jesus, os cristãos nada podem fazer. A fé será tímida, a esperança, vã e a caridade inautêntica. Jesus é essencial para a sobrevivência dos ramos. Ele é o absoluto. Indispensável para a caminhada discipular. Se, por outro lado, nos retirassem Jesus, retirariam-nos tudo. Afinal, Ele é o ápice, o início e o fim da nossa vida. Ele dá e é o sentido da nossa existência. Fora dEle, o cristão não se reconhece e não existe ipso facto. Mas, por estarmos inseridos nEle, o Pai que é o agricultor há de esperar de nós bons frutos. E quais são esses frutos? Preferencial e indiscutivelmente, o fruto do amor. Mas não qualquer amor, senão, o amor que se traduz em serviço. Ora. Que ninguém se engane. A vida cristã é necessariamente serviço. “Filhinhos, amemo-nos uns aos outros não com palavras, mas com atos e em verdade” (I Jo 3, 18). Infelizmente, há muitos cristãos que, embora unidos ao Tronco, não produzem fruto algum: são até muito vistosos, floridos, verdes, mas os frutos nunca aparecem; não vingam. Por fora, belos, mas por dentro são ramos estéreis. Nunca estão dispostos nem disponíveis. Não se implicam nem querem dar a mínima contribuição para o bem de todos; para o crescimento da comunidade. Tais cristãos se esqueceram (ou nunca souberam?) de que a vida cristã é essencialmente serviço: a Deus e ao outro. E que tal serviço possui uma lei: não viver unicamente para si mesmo. Pois até na natureza essa ordem está impressa: “os rios não bebem da própria água, as árvores não comem do próprio fruto, o sol não brilha para si próprio e as flores não perfumam para si mesmas”. Não obstante toda essa lógica ensinada pelo Mestre, a Videira Verdadeira, na sua oferta de amor desmedido durante toda a sua vida, há aqueles cristãos que, livremente, resolveram se apartar do Tronco por um desentendimento com um irmão, por causa de um pecado alheio ou por um escândalo na Igreja. Esses se decidiram por seguirem sós ou foram se enxertar em outros troncos. Não compreenderam que fora do Tronco não serão sequer reconhecidos como galhos; que não se pode enverdecer, florir e dar bons frutos se não estiverem unidos a outros galhos e todos, juntos, ao mesmo Tronco. Que secos e estéreis, serão cortados e lançados fora. Eis o quê deveríamos, portanto, pedir ao Pai (que nada nos negará se seguirmos os seus mandamentos): o dom de permanecemos unidos a Jesus e ao Seu amor. Afinal, permanecer em Jesus é a nossa maior alegria, nosso tesouro mais valoroso e o nosso supremo bem. Que nunca aconteça de sermos lançados fora por ter nos tornado estéreis ou desprendidos do Tronco. Mas que saibamos reconhecer o Dom que Jesus é e ousemos apresentá-Lo a todos, indistintamente, com amor e alegria.

O Bom Pastor

“Eu sou o bom pastor. Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas… O mercenário, que não é pastor, quando vê o lobo, abandona as ovelhas e foge…” (Jo 10, 11ss).

O discurso de Jesus é uma dura crítica aos religiosos do seu tempo. Ele nem sequer os chama de “maus” ou “falsos” pastores. Ele não os reconhece. Antes, chama-os de ladrões e mercenários. E o motivo é notório: aqueles líderes religiosos fizeram da religião um trampolim para os seus interesses próprios. Colocaram pesados fardos sobre os ombros do povo, e impostos altíssimos. A participação no culto era oneroso e os sacrifícios enriqueceram ilicitamente os sacerdotes. Eles, no entanto, estavam a serviço das castas superiores e dos abastados da sociedade. Serviam aos ricos e não se condoíam com as mazelas dos pequenos e indefesos. Eram insensíveis e surdos aos clamores dos pobres e infelizes. O sumo sacerdote e seu séquito instrumentalizaram a religião e tornaram-na manipuladora das consciências. De fato, a religião se tornara perversa, desumana e insensível. Ela já não era mais capaz de propor a humanização do homem nem tampouco cumprir com a missão de religar os corações. Indiferente às dores do mundo, ela se alienou [e por isso alienava]. Os seus muitos dogmas, sua doutrina erudita, suas celebrações apoteóticas e suas rubricas rituais conservavam uma religiosidade apenas ritual, além de criar um grande abismo entre o “profano” e o “sagrado” opondo-os, inclusive. Deus era apresentado como algo distante do ser humano (residia no sétimo céu) e era “propriedade de poucos privilegiados”. O povo, os pobres, os pecadores, as prostitutas, as adúlteras, os publicanos, os cobradores de impostos, os doentes, os leprosos, os paralíticos, os cegos, os estrangeiros e os escravos eram postos à margem dessa relação. Não por acaso, o discurso de Jesus foi proferido no “Pórtico de Salomão”, entrada que dava acesso ao interior do Templo e dito logo após a cura do cego de nascença. Afinal, todos esses ditos acima não eram aceitos no Templo, pois eram considerados “impuros”. A denúncia de Jesus, portanto, é clara: “Como vocês não foram capazes de pastorear o rebanho do Senhor, mas ao contrário, o extorquiu, manipulou e subjugou em proveito próprio, Eu mesmo, o Bom Pastor, isto é, o único e verdadeiro, vou arrancá-lo de suas garras de lobos e mercenários para conduzi-lo às pastagens seguras”. Infelizmente, o contexto do Evangelho ainda é muito atual. A religião continua sendo, em muitos casos, usada para apaziguar as consciências e adormecer as indignações justas e necessárias. E não são poucos aqueles que preferem e anunciam um “deus ditador, tirano e legislador”, insensível e distante da história e da vida do homem. Para muitos desses, a religião deveria se ocupar unicamente da dimensão espiritual do homem. Ainda temos medo da liberdade e da autonomia de filhos de Deus que Cristo nos conquistou com a doação da sua vida. Nossas igrejas estão abarrotadas de “pastores-legisladores”, mas pouco “misericordiosos” segundo o modelo do Cristo Bom Pastor. E há ovelhas que preferem a “canga” da lei e o peso da “mão da justiça” por temerem a vastidão da planície e do novo modelo de redil inaugurado por Jesus de Nazaré: sem porteira e sem distinção de nenhuma forma. Não por acaso, Ele relativizou tudo isso: templo, sacerdotes, culto, sacrifícios, uma vez que não há mais distâncias entre Deus e o mundo, e nenhum outro mediador será aceito se não for o próprio Cristo – o Sumo Pontífice – que se fez ponte definitiva entre Deus e o homem. Eis o modelo irrevogável do ” Bom Pastor”. Quem O conhecer de fato – não pelo intelecto nem pela doutrina, senão pelo encontro pessoal – reconhecerá Sua voz, única e inconfundível, entre inúmeras outras e verá n’Ele a face do Pai Misericordioso e Perdoador, e seremos, enfim, um só rebanho-Pastor. Ousaremos hoje tamanha conversão; de sentido e de vida?

Quarta-feira Santa: Encontro

Hoje é Quarta-Feira Santa e a piedade popular celebra o encontro entre Maria e Jesus, enquanto Ele seguia para o calvário carregando sua pesada cruz. Um momento indescritível. Diante da dor do Filho, a mãe, chorosa e transpassada pela “espada de dor”, acompanha-o com o seu olhar, suas orações e o seu amor. Nada pode fazer, senão acreditar que nada do que Ele fez foi em vão. Deve haver um propósito em tudo aquilo: na perseguição, na prisão, nas calúnias, na difamação, nas injúrias, na sua condenação e na sua morte iminente. Talvez lhe doa mais por saber que seu Filho é um inocente. Ela então se resguarda no silêncio e na fé. Resta-lhe apenas a confiança irrestrita em Deus que a chamou para uma missão grande: “ser a mãe do Salvador”. Embora não compreenda de todo, ela aprendeu a meditar o inexprimível em seu coração. A guardar sincero silêncio, como quem sabe que, no tempo, tudo será revelado e esclarecido. Ela não tenta burlar o tempo nem tampouco o Senhor do tempo. Sabe, por experiência própria, que nem mesmo uma folha seca cai sem o Seu consentimento. Tudo, absolutamente tudo, está sob o Seu comando. Há uma ordem precisa e estabelecida em todas as coisas: no universo, no mundo, na natureza, no homem e na história.

Maria, com suas lágrimas e a sua dor inominável, nos ensina o valor de acreditar para além do horizonte do possível. Ali, onde as forças parecem minar de vez e a morte alardeia a sua vitória, a fé – a verdadeira fé – é uma subversão, uma ruptura e uma guinada total. Só ela é capaz de nos fazer prosseguir; nos manter de pé e não nos deixar enlouquecer. Como não pensar nas muitas mães que sofrem e choram a perda de seus filhos, ainda jovens e cheios de sonhos, projetos e de vida? Como não sentir a dor de tantos filhos que foram deixados órfãos pela violência, pelo crime e pelo descaso das autoridades constituídas? Como não pensar nas muitas crianças sem a presença afetuosa, curadora e promotora de valores de uma mãe que os educa na fé e na prática do bem?

A piedade deste dia nos pede silêncio e contemplação. Há dores demais no mundo. As vítimas caem aos milhares, só em nosso país. Muitas delas, tombadas pela “bala perdida”, pelo crime organizado e orquestrado para disseminar a morte e o terror, o desemprego que impossibilita a mudança de cenários tão tristes, a falta de cultura e de educação que alimentam a alma e a faz transbordar, o total “non sense” que faz parecer irrisório e até nefasto viver. Há tantas perseguições ideológicas, políticas, religiosas e culturais… Há tanto sangue inocente pelas vielas do mundo… O ódio pelo diferente grita ofensas até espumar o veneno por todos os lados. Há desencontros aos milhares, aos milhões. Gente que não anda, mas perambula pelas estradas da vida, sem rumo, sem prumo, sem destino. Pobres transeuntes! Faltam-lhes sonhos e ideais; sobram-lhes realidades cruentas que os alienam e os fazem perder a esperança, quando não a fé. Há mães que choram, que gritam, que se desesperam… Há mães que se silenciam e sofrem caladas… Há muitas “Marias”… Há inúmeros “Jesus”…

O dia de hoje nos pede “Encontros”! Olhar um pouco mais, mais demoradamente, sem pressa, com verdadeiro espírito de escuta e de atenção redobrada. Deixar ficar o que permanece e passar o que é fugidio. Instar os corações para que se encontrem, verdadeiramente, e acomodar o que realmente alimenta a alma. Pais e filhos, jovens e idosos, homens e mulheres, crentes e não-crentes, ricos e pobres, feios e belos, centro e periferia, cidades e campos, gente e bichos, todos, enfim. A vida exige tais “Encontros”. Mas é preciso querer ver; se sensibilizar, importar-se de verdade. É preciso abaixar-se para alcançar quem caiu, soerguer o desanimado e acolher quem se perdeu. É preciso abrir bem os braços e o coração – torná-los efetivamente grandes – para acolher a todos, indistintamente, sem acepção seja do que for; sem preconceito nem discriminação. E talvez aí, sejamos capazes de levar a cruz um pouco mais confiantes; Ela não será o fim, mas apenas o que é e nada mais: ponte. E pontes servem mesmo para quê?

 

“Um de vós haverá de me trair”

Foi o jantar mais difícil de que se tem notícia. Ali, o sabor era amargo, e tomados pela tristeza, a fome se foi. Os semblantes eram tensos, os olhos enrijecidos e os lábios cerrados. O pão partilhado, em pedaços, não chegava à boca. Não alcançou o estômago. Quando se está triste – triste até a morte -, comer é um acinte. Um despropósito. O ambiente, mergulhado na penumbra, reivindicava luz. A atmosfera era pesada e extenuante. Todos os convivas estavam tomados pelo cheiro e pelo gosto de morte que a tudo impregnava. O terror do momento recordava-lhes o que estava por vir: “um de vós haverá de me trair!”, e um outro, antes que o galo cantasse três vezes, O negaria. Que revelação indecente, ainda mais à mesa de um jantar tão importante como a celebração da Pessach. Foi um duro golpe no coração dos discípulos; um murro em seus estômagos.

De fato, a ingratidão é coisa que dilacera, dói e machuca a alma. E dela, nem mesmo o Unigênito de Deus se viu livre. Mas nada se compara à dor provocada por uma traição, ainda mais se perpetrada por um amigo, por alguém próximo, a quem se quer bem. Judas é a expressão máxima da mesquinhez humana, da sordidez presente nas relações enganosas e na efemeridade dos gestos mentirosos. Por 30 moedas de prata, ele rompe com uma relação baseada na confiança, na fé, na partilha e na comunhão de vida. Sua balança é injusta, desequilibrada, imprecisa. Não se comercializa o incalculável, o tesouro que não se perde nem se contamina com o tempo. Ele não sabia disso? Não se entrega um amigo. Não o cede aos seus algozes. Não se torna num inimigo da noite para o dia! Mas era noite…

Na noite da alma, o pior do ser humano vem à tona. Quando não se cuida do que vai surgindo devagar, daqui a pouco está grande, crescido e incontrolável. Quando não se lança luzes sobre os sentimentos interiores, as trevas do mal ganham espaço dentro de nós. Então aí emerge do mais profundo, do subterrâneo da alma, aquilo que nem mesmo nós gostaríamos de ver. Judas finge não saber: “por acaso sou eu, Senhor, quem vai te trair?” Sua alma está tomada pela escuridão diabólica da mentira, do erro, da insensibilidade, da total falta de empatia, compaixão e misericórdia. Ele trai por que, antes, se sentira traído pelo Mestre. Pensou que o projeto era outro, régio e portentoso. Cogitou, inclusive, oferecer-se como primeiro ministro do reino que estaria por chegar. Iria ser responsável por um levante que destronaria o antigo império e faria surgir o novo. Mas o Mestre, em sua opinião, falhara. Era “fraco” demais, bondoso demais, misericordioso e pacífico para além da conta. Dizia coisas sem sentido e já declarara o seu fim; falava de morte. Falar de morte é entregar os pontos, declarar o próprio fim. O Mestre entregara os pontos.

Logo, para não ficar “de mãos abanando”, preferiu garantir as 30 moedas de prata. E nem eram de ouro. Eram de prata. A equivalência, nem de longe, se pode notar. Aquele foi mesmo o “pior” jantar de que se tem notícia. Era para ser uma celebração, um encontro, mas os convivas já sentiam desde o início o tom nevrálgico da despedida. A tristeza era tinta forte a borrar o quadro que a história pintava. Coisa triste é se despedir de quem se ama! Participar de uma despedida que é “pra sempre” é altamente dilacerante. Afinal, naquele momento, a morte era um horizonte cruento demais; dolorido, sórdido, inacreditável. Talvez, em seus corações, pululasse aquela máxima psicológica que diz, após um trauma: “isso não é verdade. Isso não está acontecendo”. Mas era real. Jesus partilhava seus últimos ensinamentos e entregava-lhes os seus últimos dons.

Por fim, entregou-se por inteiro: “Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue…” Ao dá-los aos seus discípulos, deu-se sem reservas. Despedaçou-se, fragmentou-se, estilhaçou-se, fracionou-se para que todos d’Ele pudessem sorver um pouquinho que fosse daquela oblação pensada, maturada e decidida. Não era, portanto, um gesto insano, desmedido, irrefletido e louco. Não. Era o fim do fim. Era o início de um novo começo. Talvez tenham aproveitado pouco dos demais alimentos; bem pouco mesmo. O vinho desceu como fel e o pão, ázimo, pareceu-lhes duro demais ao paladar. Entretanto, daquela ceia derradeira chegou-nos um alimento salutar. Que ninguém o traia! Que ninguém o venda nem o comercialize. Que em nós as trevas não tenham vez nem lugar. Que a escuridão da noite não nos faça sair da Sua presença para entregá-Lo aos inimigos em tocaia. Mas, se tivermos que morrer para lhe sermos fiéis, que morramos com Ele. Se tivermos que viver, que seja para Ele, com Ele e por Ele.

IV Domingo da Quaresma

“Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 16-17).

O encontro de Jesus com Nicodemos é revelador. Nele, se dá o principal anúncio de Jesus acerca de quem é Deus: Deus é um pai amoroso que ama e quer salvar a todos. Tudo quanto Ele fez e faz é por amor. O ato de enviar o Seu único Filho foi a expressão máxima desse seu amor pela humanidade inteira. Deus não amou nem ama apenas alguns; os da nossa congregação, da nossa igreja, da nossa religião, do nosso país, do nosso continente. Apenas os mais santos, os mais bonitos, os abastados, os perfeitos. Não. Deus ama a todos, sem distinção nem impor condições. Logo, não foi o pecado que “forçou” Deus a enviar o seu Filho. Ainda que o pecado seja uma realidade concreta e destruidora, como nos apresenta a primeira leitura (2 Crônicas 36,14-16.19-23).

O pecado, símbolo da infidelidade do povo, foi a causa do exílio babilônico, é verdade. E é isso o que o autor sagrado deseja mostrar com a sua narrativa: pecado-castigo-salvação. Os grandes do povo foram levados à fórceps para a cidade-estado da Babilônia. O Templo, lugar da materialização do sagrado e casa de Deus, foi destruído. Um duro golpe na fé de Israel. Um escândalo e uma humilhação. Neste cenário de desolação, porém, o salmista canta o amor perdoador de Deus pelos seus eleitos: “Que se prenda minha língua ao céu da boca se de ti, Jerusalém, eu me esquecer” (136/137). Deus nunca se esquece dos seus. Dizem os exegetas, que a Glória de Deus acompanhou o povo para o exílio. Deus se exilou com o seu povo na Babilônia – como hoje, Deus se refugia com os refugiados da Venezuela, da Síria e dos demais países em guerra. Deus é vitimado nas vitimas da violência, da criminalidade e da corrupção. Deus é perseguido e morto nas muitas vidas abruptamente interrompidas -.

Mas depois, no reinado de Ciro, o rei pagão da Pérsia – graças ao seu edito -, o povo pode regressar para a sua terra, sua pátria, a fim de reconstruir a vida e o Templo, inclusive. Deus cumpriu com a Sua palavra: a de salvar o seu povo das mãos do inimigo. O amor perdoador de Deus mostrou, mais uma vez, a sua fidelidade. Deus não é um Deus castigador, mas de carinho e proteção. Deus nunca castiga. O pecado é que, quando consentido, cobra um preço alto demais. Todo pecado exigirá um “resgate”, por vezes impagável. Daí um outro motivo da vinda do Filho, mas não o principal deles. Não foi o pecado a causa-mor da vinda de Jesus. Antes, foi o amor eterno e ilimitado de Deus que decidira, desde toda a eternidade, que “um da Trindade haveria de se encarnar” para revelar ao homem a sua grandeza de filho de Deus, adotado no Filho Unigênito.

Portanto, o principal motivo da vinda do Cristo foi nos revelar o amor do Pai por todas as suas criaturas. Eis a graça das graças: “quando estávamos mortos em consequência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo – é por graça que fostes salvos! -, juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, com Cristo Jesus” (Ef 2, 5-6). Logo, o mundo é objeto desse amor de Deus. Não se pode demonizar o mundo. O mundo não é o “quintal do mal”. Não caminhamos à deriva. Não fomos abandonados à nossa sorte. Ainda que as experiências de dor e de pecado no mundo sejam visíveis e reais, ele, o mundo, é criação do amor de Deus. Deus não deseja e não condenará o mundo. Aliás, condenar não faz parte da alçada de Deus. Ele só sabe e pode salvar.

Por isso, toda espiritualidade que nos proponha fugir do mundo em razão de um “céu alhures” é anticristã. Deus nos deseja comprometidos com este mundo, sobre o qual pisam os nossos pés, na superação e na transformação desta terra. É com os pés bem firmes no chão que Deus nos deseja salvar, isto é, conosco, mas não sem nós. A salvação é integral: é o homem todo, na sua totalidade. Não existe salvação sem corpo, só alma. Não há céu sem terra, sem identidade, sem história, sem encarnação. Não há Deus sem povo; sem gente. É na nossa carnalidade tão humana que Ele se deixa transpassar.

A vida de Jesus foi uma grande exposição do amor de Deus. Mesmo na cruz, e especialmente lá, Ele pregou a desmesura do amor do Pai. Esse amor foi até às mais duras e últimas consequências. Naquilo que era símbolo de perdição, loucura e maldição, como a serpente, Deus extraiu um remédio salutar: quem fora ofendido por uma cobra, ao olhar para a serpente de bronze suspensa numa haste, era curado. Pecar é como ser ferido de morte por uma serpente, uma cobra venenosíssima. O pecado é tão nocivo quanto o pior dos venenos de cobra. Mas não há pecado que Deus não perdoe. Basta que o pecador, arrependido, olhe com fé para o contrário do pecado: olhe para o inocente pregado numa cruz. Jesus é o único e o verdadeiro remédio contra todo e qualquer pecado.

Eis a alegria desta Liturgia: a de nos sabermos amados. E é esta experiência, vivida e partilhada, que nos salva radicalmente. Oxalá não tenhamos receio de voltar atrás; de ouvir o apelo do Mestre para que não fujamos nem condenemos o mundo. Basta de condenação! No mundo já existem condenações suficientes. O que o mundo precisa é do anúncio corajoso da salvação e do perdão do nosso Deus. O doente precisa de médico, de hospital e de remédios. E o nosso mundo está enfermo. Disso, sabemos muito bem. As relações estão adoecidas, e há prantos para todos os lados. Há inúmeras cruzes mundo afora. É por unguento e por paz que o mundo clama. Sejamos, pois, mensageiros da Boa-Nova alegre e feliz do Evangelho e não abutres que só sabem e sentem prazer em anunciar os vestígios da morte, cujo preço é pago pelo pecado.

Eis porque precisamos pedir continuamente a Jesus: Salva-nos, Senhor, e seremos salvos, para te anunciar ao mundo e aos homens, e não aos anjos nem aos céus, pois é sobre o mundo que se debruça o teu amor. “Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações”. Ajuda-nos a salvar o que está perdido e a perder o medo de salvar quem acredita que já se perdeu. Amém.

III Domingo da Quaresma: Jesus e os vendilhões do Templo

“Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia. Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2, 23-25).

Particularmente, gosto muito desse trecho do Evangelho de São João. Considero-o um dos mais fortes em todos os evangelistas. Ele expõe, em carne viva, a humanidade do Cristo. Sua humanidade não era distante nem diferente da dos demais homens com os quais conviveu. Ele os conhecia por dentro, isto é, Ele era também humano e sabia, muito bem, do que o homem é capaz. Somos capazes do melhor e do pior; do mais belo e do mais feio, podemos ascender ao máximo ou descer às baixezas das realidades humanas. Jesus não era facilmente influenciável. Ele não se deixava enganar pela aparência.

Esse trecho está logo depois do episódio da expulsão dos mercadores que haviam se instalado no Templo, lugar do culto e do sacrifício ritual. Ali, se vendia de tudo: desde o par de rolas até o cordeiro sem mancha, para as celebrações anuais do Yom Kippur (Dia do Perdão) ou para simples rituais de purificação. Era um comércio “necessário” e que se ajuntou ao redor do Templo como hoje, em nossas igrejas: tendas e mais tendas de souvenires e apetrechos religiosos para os fiéis devotos, seus familiares e amigos. É quase impossível pensarmos em um grande centro religioso sem o apelo do consumismo e da publicidade religiosa. Tudo, absolutamente tudo, se torna item de decoração, lembrança e, claro, de lucro.

Ao ler o texto do Evangelho (João 2,13-25) podemos pensar, facilmente, que é disso que se trata o imbróglio todo. Sim e não. Mas é mais do que isso. Esse dado é secundário e, em certa medida, até irrelevante. A grande questão para Jesus é com relação à manipulação da religião para fins escusos. Religião não foi feita para escravizar ninguém. Antes, deveria ser causadora de verdadeira libertação, tomada de consciência e transformação das realidades injustas. Infelizmente, nem sempre foi e é assim. O Templo, como lugar tangível da religião, estava mais a serviço dos grandes, dos poderosos, do sistema opressor e desagregador do que para o anúncio da boa-nova do Reino e da denúncia dos seus contra-valores. Havia pouco interesse e compromisso para com os pequenos, os desamparados e oprimidos. Os religiosos eram uma casta de privilegiados que, associados ao poder político e econômico, mantinham o status quo, pois também se beneficiavam dele.

A ira de Jesus é justificável. Afinal, como o anunciador por excelência do Reino do Pai, Ele tinha o grave dever de denunciar os descaminhos e as incoerências, sobretudo, daqueles que se diziam tementes a Deus. Sua revolta não é contra o que fizeram com o Templo físico que, a bem da verdade, foi relativizado na Sua pregação. O Templo perdeu a sua função e a sua exclusividade. Não é mais nele ou unicamente através dele que o homem poderá se conectar com o Transcendente: “Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias” (vv. 19). O verdadeiro Templo agora será outro: o próprio Cristo; e mais: cada ser humano. Todo homem e toda mulher se tornaram, depois de Cristo, lugares teológicos por excelência.

O absurdo denunciado por Jesus está no fato de que, muitos desses templos – vidas humanas – estão sendo manipulados, desrespeitados, injustiçados, esquecidos, oprimidos e mortos, inclusive pela religião, com a anuência ou o silêncio dela. Há muitos famintos, violentados e abandonados entre nós. A religião, nesse sentido, continua sendo em muitos casos promotora de discriminação, preconceito e indiferença. Ainda nos preocupamos demasiadamente com os ritos e com o culto, com as normas e as rubricas, e pouco nos importamos com as realidades de morte e de violência, de opressão e de injustiça, de mentira e de corrupção, presentes no mundo. O clamor dos desempregados, dos sem lazer e cultura, dos jovens e das crianças sem escola, dos enfermos sem hospitais e atendimento digno, dos encarcerados em prisões desumanas e sem o mínimo de condição de ressocialização, das muitas vítimas da violência banal e insana em nossos grandes centros, parecem nos constranger pouco ou quase nada.

O verdadeiro Templo do Senhor continua a ser desrespeitado e vilipendiado. Muitos religiosos, no entanto, leigos(as), padres e bispos, consagrados e religiosos, parecem não se dar conta do equívoco que sustentam, do qual são coniventes e até, em certo sentido, cúmplices. Em nome da religião, mataram-se milhares de pessoas ao longo da história; cruzadas, inquisições, guerras santas, excomunhões, fogueiras e incontáveis segregações. Ainda hoje, matam-se milhões em nome de Deus, de Alláh, de Buda, entre outros. Porém, em nome do autêntico Evangelho de Jesus Cristo ninguém mata; morre-se.

Oxalá, o chicote de Jesus nos acerte a todos e nos desperte desta diabólica resignação e apatia. Que a Quaresma do Senhor nos ajude a redescobrir que somos, de fato, “todos irmãos”, e que atentar contra a vida do outro é atentar contra a Santidade de Deus, pois, “o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro” (Ex 20,7). Afinal, amá-lo acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos é cumprir toda a Lei, os Profetas e o Evangelho. E é disso que precisamos, urgentemente: menos religião e mais, bem mais, Evangelho!

VI Domingo do Tempo Comum: a cura do leproso

Terminada a Missa, elas foram à sacristia. Ambas, queriam me contar suas experiências com os leprosos. Uma delas me disse: “Padre, o senhor me fez voltar 70 anos atrás. Éramos crianças. E quando os leprosos, montados em seus cavalos, passavam por nossa fazenda gritando ‘leprosos, leprosos’, nossos pais colocavam sacos com mantimentos na estrada para que eles pudessem pegar. E nós os víamos de longe…”, e se emocionou.
Hoje, a Liturgia do VI Domingo do Tempo Comum trouxe uma das mais belas passagens do Novo Testamento, narrada pelo evangelista Marcos: a cura do Leproso (Mc 1, 40-45). Particularmente, sou tocado especialmente pela humanidade da cena, tão magistralmente pintada pelo narrador sagrado. O modo como Jesus se aproxima daquele homem é de uma ternura sem igual. Sou apaixonado pela humanidade de Jesus. Aliás, preciso confessar, que o que mais me atrai no cristianismo é o lado humano de nosso Deus. Em Jesus, não há caricatura nem falseamento. Suas emoções são plenas e Ele se mostra verdadeiramente interessado pelas pessoas. Não por acaso, o evangelista diz que ao ver o leproso, Jesus sentiu compaixão. E sentir compaixão é colocar-se no lugar do outro. Agir em seu favor. Eis o que Jesus faz.
Diferentemente dos homens religiosos do seu tempo, Jesus não seguiu a Lei à risca. Ela, embora fosse legal, e lhe amparasse na distância e até na indiferença para com aquele homem doente, sua postura foi a de alguém que se apiedou e rompeu com os ditames legais. Ele sabia que a Lei nem sempre é benéfica e, por vezes, ao invés de promover a justiça e a vida, é promotora da exclusão e da morte. A Lei prescrita em atenção aos leprosos tinha, num primeiro momento, parâmetros eminentemente de sanidade pública básica. Porém, com o correr do tempo adquiriu feições de discriminação e de preconceito. E essa é a maior denúncia do Evangelho de hoje: a de nos deixarmos levar por uma religiosidade mesquinha e hipócrita que segrega e exclui, ao invés de incluir e acolher as pessoas.
Logo, a pergunta não poderia ser outra, senão esta: quais são as lepras de nosso tempo?
Houve um tempo na igreja em que mulheres que se tornavam mães sem se casarem eram mal vistas, chamadas de “mães solteiras” – o papa Francisco, com sua delicadeza pastoral, corrigiu esse equívoco: “Não existem mães solteiras. Existem mães! Mãe não é um estado civil” -. Alguns padres e agentes de pastoral se recusavam a acolhê-las e proceder com o batismo dos seus filhos. Muitas delas, infelizmente, eram postas para fora da casa dos pais e também da Igreja, a casa de Deus. Infelizmente, ainda hoje, não é difícil de perceber que em muitos lugares ainda ajam assim. Efetivamente, ainda estamos muito distantes da ética de Jesus. O legalismo corre frouxo em nossas paróquias, dioceses, comunidades cristãs e em nossas famílias. Somos muito bons para identificar os “leprosos”, mas pouco peritos em acolhê-los e estimá-los verdadeiramente.
Mas Jesus não teve dúvidas. Estendeu a mão e tocou aquele homem. Um gesto escandaloso para o seu tempo. Ao tocá-lo, toda a condição de exclusão a que o leproso estava encerrado era automaticamente transferida para Jesus. Ele se tornava um impuro como o impuro que tocara. Por isso, o evangelista termina sua narração mostrando a oposição ao início da cena: o ex-leproso indo ao sacerdote para ter sua cura confirmada, voltando ao seio da comunidade, da sociedade e da família, e, do outro lado, Jesus tendo que viver fora da cidade por causa do burburinho que aquela cura causou. Os cristãos nem sempre estamos dispostos a “sujar as mãos” a exemplo de Jesus. Preferimos nos manter “puros”, intocáveis. Não queremos causar nenhum escândalo. Temos receio das autoridades constituídas, do bispo, das sanções da Santa Sé, dos “Santos Ofícios” modernos e das leis canônicas, do que vão dizer de nós. Acomodamo-nos numa fé morna ou adoçada com discursos e ações pouco transformadores.
A pergunta, por isso mesmo, volta sempre à baila: quais são os “leprosos” de hoje?
Na década de 80 tivemos os aidéticos que, mal vistos e considerados pervertidos sexuais, foram excluídos e relegados à própria sorte. Muitos eram expulsos de suas próprias casas e perdiam tudo: dignidade, família, emprego, etc. O preconceito diminuiu, mas ainda hoje há quem acredite que um simples beijo na face, um abraço apertado,  uma amizade sincera ou uma proximidade maior possam ser contagiosos. Graças ao avanço da ciência, muitos soropositivos podem viver com dignidade e respeito restaurados. O caminho foi e ainda é muito longo. O flagelo do HIV diminuiu, mas ainda é uma realidade muito presente em nossas cidades, sobretudo, na proliferação de relações sexuais sem responsabilidade e sem os devidos cuidados e proteção.
Temos ainda o dado dos casais em segunda união. O divórcio foi considerado por muito tempo um crime pelas leis civis, pecado mortal pela lei canônica e ainda é causa de digladio entre muitas correntes religiosas. O papa Francisco recentemente na Exortação Apostólica “Amoris Laetita” lançou luzes novas sobre essa dura realidade a qual muitos irmãos nossos vivenciam, mas sofreu e ainda sofre enormes perseguições de setores reacionários e hipócritas presentes na Igreja. É uma falácia dizer que todo casal religiosamente unido vive segundo a Lei de Deus. Nós bem sabemos que em muitos lares de recasados há mais testemunho, diálogo, perdão, fidelidade e compromisso do que em muitos outros ditos “cristãos”. Acolhê-los e admiti-los à mesa da Eucaristia é um trabalho pastoral e samaritano ao qual não mais podemos nos ausentar. E ele começa por acolher a todos, indistintamente, com ternura e misericórdia.
Penso, ainda, nos casais homoafetivos. Ainda que a Igreja nunca vá sacramentar a relação entre dois homens ou entre duas mulheres, isso não pode nos impede de acolhê-los e amá-los com honestidade evangélica. São todos bem-vindos à comunidade cristã. Muitos desses casais vivem no bojo de suas relações afetivas o amor e a reciprocidade de um encontro que se deu no tempo e tende a se perpetuar graças à fidelidade e a estima sincera de um para com o outro. Quem os pode acusar do contrário? Que sejam respeitados e se evitem para com eles quaisquer formas de discriminação e de preconceito. Deus os ama e são igualmente filhos e filhas do Deus compassivo de Jesus Cristo. Ser homossexual não é pecado e tampouco se está excluído da Graça de Deus. Sem falar que há muito que deveríamos ter uma pastoral exclusiva dedicada aos casais homoafetivos. Estamos atrasados?
Por fim, ainda que o trecho da II Leitura (1 Coríntios 10,31-11,1) necessite de contexto e a singularidade da comunidade de Corinto precise de uma honesta exegese, é interessante notá-lo no conjunto das leituras de hoje. Paulo pede que os cristãos não causem escândalo: nem no comer nem no beber; nem aos judeus, nem aos pagãos. Embora, ele esteja coberto de razão pelo contexto de época e pela fanfarronice a que a Comunidade de Coríntios estava impregnada, sobretudo, na relação ricos-pobres, enquanto eu ouvia a proclamação da Leitura, pensava: é impossível não haver escândalos neste mundo. Sempre haverá. E se hão de existir, que sejam aos moldes do escândalo causado por Jesus: o escândalo do amor e da compaixão. Aliás, foram tais escândalos que o levaram para a cruz. O escândalo da fé em Deus e no homem. Precisamos cometer, urgentemente, tais escândalos: acolher e não julgar; incluir e não excluir ninguém.
Oxalá, os cristãos não tenhamos medo de provocar, promover e cometer tais escândalos diuturnamente. Pois, esta sociedade mergulhada na indiferença, na corrupção, na criminalidade e na violência, necessita de sinais para voltar a crer e ter esperança. Afinal, somos todos “leprosos”. Quem de nós não traz consigo uma “lepra” no coração, no corpo, na mente? Mas, há um único verdadeiramente são que pode, e quer, nos converter e nos mostrar um outro caminho possível. Digamos-lhe com renovada ousadia: Senhor, se queres, tu tens o poder de curar-me.

Jesus e as muitas tempestades

A Liturgia desse último sábado, da III Semana do Tempo Comum, de certo modo fala da situação do mundo, da Igreja e de cada um de nós. Jesus está numa barca; na barca de Pedro, segundo o Evangelista Marcos. Cansado da missão e desejoso de passar para a outra margem, Jesus procura um lugar sossegado, o fundo do barco, para descansar um pouco. Logo adormece. Uma tempestade imprevista se abate sobre a embarcação. Os discípulos ficam assustados e temem pela morte. São homens experientes na arte do mar – ao menos alguns, entre eles, Pedro, o exímio pescador -. Todavia, em relação aos fenômenos da natureza, eles nada podem fazer. Fogem à sua alçada. Inquietam-lhes, sobremaneira, a passividade com Jesus trata a situação. Ele parece não se importar: “Não te importas que pereçamos?”, questionam-lhe ao acordarem-no. Jesus, talvez ainda um pouco sonolento, mas cheio de autoridade, dá ordens para que tanto o mar quanto o vento deixem de impor medo aos seus discípulos. Após a calmaria, retorna-se para seus discípulos e os corrige: “Por que sois tão fracos na fé?”.

A situação é incomum, daí sua presença no Evangelho de Marcos. Primeiro, ela quer evocar a messianidade de Jesus: Ele é aquele a quem até os ventos e o mar obedecem. Ele tem uma exousia (autoridade) diferente de qualquer outro rabino ou mestre. Sua ação vai além da natureza; ela é também sobrenatural. Vale a pena dar ouvidos ao que Ele diz, afinal, até os fenômenos mais corriqueiros da natureza lhe prestam obediência. Depois, se este relato está ali, narrado em tintas tão concisas, mas eivado do mistério messiânico, não é por acaso. O contexto das primeiras comunidades cristãs é também de “mar bravio”. Elas passam por todo tipo de dificuldades: perseguições, desentendimentos, incompreensões, brigas internas, violência e morte. Muitos pensam que foram esquecidos pelo Senhor. “Estaria Ele dormindo enquanto nós perecemos?”. Essa era a indagação de muitos dos primeiros cristãos. Então o Evangelista tem como intuito corrigir essa visão distorcida: “Não sejamos fracos na fé. Ele nunca nos abandona e tem o poder de por tudo isso em ordem; em silêncio”, é o que os líderes tentam incutir nos corações mais sobressaltados.

Depois, o símbolo do mar é altamente judaico. Ele representa o mundo, e tudo aquilo que é adversário ao Reino de Deus. O mundo é um lugar hostil para os cristãos. Viver neste mundo, tantas vezes mergulhado na corrupção, na mentira, na violência, na perversão e nos mais diversos tipos de crimes é um grande desafio para os discípulos de Jesus Cristo. Eles são agitados por todos os lados. São postos à prova o tempo todo. Sua ações devem destoar das desse mundo e, apesar dos atropelos da missão de anunciar a Boa-Nova da Salvação, é preciso não se esquecer do essencial: Jesus Cristo encontra-se na barca da Igreja. Aqui, um outro símbolo importantíssimo. A igreja desde o início do cristianismo foi tida como a “barca” em que o Senhor, seu esposo, se encontra. Uma pequenina barca que deve atravessar pelo mar da história anunciando, com coragem, a Salvação trazida por Jesus.

Por vezes, a experiência da Igreja foi a de ser sacudida e invadida pelas ondas agitadas e inimigas desse mar bravio que é o mundo. Ao longo da história não faltaram ocasiões em que os discípulos se perguntaram, com honestidade: “Senhor, não te importas que pereçamos?”. Foram muitas as perseguições, mortes, escândalos, pecados, contratestemunhos, vícios e uma infinidade de crimes. Houve momentos realmente obscuros no seio da Igreja. Cismas, heresias, torturas, inquisições, cruzadas, puritanismo, hipocrisia, divisões e muitas outras situações que envergonharam o Evangelho de Cristo. Homens e mulheres, clérigos e leigos, que se prostituíram com esse mundo e renegaram a esponsalidade com Jesus, o único e verdadeiro esposo da Igreja. Porém, mesmo em meio a tantos revezes, Jesus permaneceu no barco de Pedro, com a Sua Igreja. Dos seus discípulos, Ele continua pedindo uma única coisa: “Não sejais fracos na fé”. A fé nos faz enfrentar com coragem, ousadia e dignidade qualquer dissabor.

Por fim, também a nossa vida, frágil e humana, não poucas vezes se vê agitada por ventos contrários. São dificuldades de toda ordem: pessoal, afetiva, sexual, financeira, intelectual, psicológica, familiar e tantas outras. Sentimos, nesses momentos, como se a barca da nossa existência fosse ser lançada contra as pedras do caminho. A morte parecia ser inevitável ou talvez a melhor das opções. Somos incompreendidos, julgados, condenados, difamados, caluniados e perseguidos. Diante dos maiores dramas, humanamente sentimo-nos sós e relegados à própria sorte. Faltam-nos o ânimo e a esperança para acreditar em dias melhores. Aliás, os dias futuros nos parecem os mais sombrios possíveis. Estaria Jesus dormindo o sono dos indiferentes? Teria Ele se esquecido de mim? Onde está Deus? Ele realmente existe? E se existe por que não se importa comigo? Sou, de fato, amado por Deus?

Em todos esses contextos, de dúvida, de dor, de pecado e de desespero, a Liturgia desse último sábado nos convida a darmos um passo na fé. Talvez este passo seja “acordar Jesus”. Os discípulos, no medo e no terror, foram a quem de verdade poderia fazer alguma coisa. Jesus, embora os tenha repreendido, fez o que deveria ter sido feito: deu ordens ao vento e ao mar e tudo se acalmou. Disse-lhes: “Silêncio! Cala-te!”. Ora. Quantas vezes precisamos desta ordem de Jesus diante dos maremotos de nossa vida e de existência cristã! Também frente aos arrochos da história, nas calamidades éticas e morais do mundo em que vivemos, e nas intempéries eclesiais que presenciamos, necessitamos da autoridade do Mestre que põe tudo em ordem e em paz.

Portanto, diante dos momentos inglórios pelos quais passarmos, seja em que âmbito for, não tenhamos receio de acordar aqu’Ele a quem até o vento e o mar obedecem, e lhe falemos com sinceridade discipular: Senhor, não te importas que pereçamos? E nós já sabemos, pelo Evangelho, que Ele realmente se importa com a barca e seus tripulantes. Ele irá corrigir nosso olhar, preso às vicissitudes temporais, e o disparate do nosso coração que ainda crê titubeante, porque é Mestre, mas também se encarregará de nos ajudar a atravessar em segurança pelas vielas do mundo, da Igreja, e aquelas muitas outras pessoais, para chegarmos em segurança à outra margem.

Assim seja.