Categoria: Homilia diária

Solenidade da Imaculada Conceição de Maria

Em 8 de dezembro de 1854, o papa Pio IX proclamou, com a bula “Ineffabilis Deus”, o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria, ou seja, que Nossa Senhora foi preservada por Deus, desde o instante da sua concepção, pelos méritos da redenção de Cristo, do pecado original que mancha todos os homens devido à transgressão de Adão, a fim de preparar a mais perfeita Mãe para o seu Filho.

Celebrar Maria em sua Conceição Imaculada é celebrar a ação miraculosa de um Deus cujos planos na história são eternos. Desde sempre, a Trindade decidiu que uma das pessoas divinas haveria de se encarnar para revelar ao mundo o grande amor de Deus pelos homens.

Logo, não foi o pecado dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, quem “forçou” a encarnação do Filho de Deus. Foi a decisão eterna do Seu amor por nós que quis experimentar conosco esta aventura de ser gente.

Todavia, o Santo dos santos não poderia herdar dos homens a mancha do pecado original à qual todos os nascidos de mulher estão submetidos e que “ofusca em nós a semelhança com Deus” (Santo Agostinho).

Portanto, era preciso que aquela que viria a ser a Mãe do Verbo Encarnado fosse toda pura, toda bela, sem rugas nem mancha, mas fosse toda de Deus para ser toda para os homens.

Se Eva, a mãe de todos os viventes, não conseguiu corresponder a esse plano amoroso de Deus, a pobre Maria de Nazaré foi achada digna de tão excelsa missão: “Alegra-te, Maria, pois encontrastes graça diante de Deus. Irás conceber um filho por obra do Espírito Santo e porás n’Ele o nome de Jesus”.

Sem “conhecer” homem algum, isto é, sem ter tido relação sexual e, por isso, ser virgem também no corpo, Maria foi tocada pelo poder de Deus para quem “nada é impossível”. No seu “fiat”, Maria vive a disponibilidade e a entrega dos grandes santos de todos os tempos: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”.

O ventre de Maria tornou-se o lugar privilegiado da ação esponsal de Deus que a cobriu com a sua sombra. Ele a desposou. E sem intervenção humana, o Filho do Homem, Jesus Cristo, veio ao mundo por meio do Sim generoso e fiel daquela que os primeiros cristãos já cultuavam como a “Imaculada Conceição”. A fé simples e humilde dos pequenos de Deus já intuia desde tempos remotos: não pode ter pecado a Mãe do Salvador que tira o pecado do mundo. E rezavam: Ó Maria Concebida sem pecado original, rogai por nós que recorremos a vós.

Animados com tamanho mistério de amor, também nós, Igreja peregrina, queremos entoar o nosso hino de louvor e de reconhecimento, como nos ensinou Maria: O Senhor fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome.

Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Tempo do Advento

Iniciamos hoje, na Igreja, o Tempo Litúrgico do Advento. Tempo de espera e de vigilância; Tempo de renovação das esperanças e da fé em dias melhores; de crença no homem e na sua capacidade de superação. Fé no porvir, na resiliência daqueles que superam os maiores obstáculos e ainda encontram forças para motivar os que insistem em permanecer caídos. É o Tempo da teimosia em avançar, não obstantes os muitos entraves. A vida segue pedindo passagem. O novo, tão temido, mas tão desejado, já se deixa entrever. Ele virá com certeza. É o tempo de crer nas promessas de um Deus muito próximo de nós. De tão perto, Ele quis se fazer um conosco; humanou-se. Sua humanidade nos revela nossa verdadeira altura: podemos ser do tamanho de Deus. Foi o tempo em que “ser humano” era sinônimo de sensibilidade, coerência, solidariedade e compaixão. “Fulano é tão humano…”, “é preciso humanizar as relações…”. Hoje, temos medo do humano. O homem brutalizou-se. Tornou-se uma ameaça para a própria espécie. De novo precisamos de um Deus, do único Deus, para nos recordar nossa verdadeira essência. Só um Deus poderia nos salvar de nós mesmos. Só um Deus cujas entranhas são de misericórdia poderia alçar nosso voo e descer conosco às nossas estreitezas mais intimas e imperscrutáveis. De novo é Ad-vento. Aquele que há de vir está pra chegar. Já se ouvem seus passos e seu perfume, odorífico, é sentido a distância. Seu brilho dissipa as escuridões da noite e sua face já rejuvenesce nosso coração, por vezes entristecido, desesperançado e só. Vem, Menino-Deus, e acenda de novo as nossas lâmpadas com o óleo da Tua presença. Vem, pobre-criança-indefesa e nos ensina de novo a confiar, na vida, em nós mesmos, nos outros e, sobretudo, em Deus. Vem, ó recém-nascido-sem-lugar de um Belém distante, e se hospede em minha casa, em minha história e na minha vida. Permaneça comigo. Preciso tanto ouvir tua voz! Vem, Emanuel, e fica antes, durante e depois de tudo. E desperta-me do sono em que me encontro e coloca-me de pé e no prumo, sobre os trilhos da vida ensaiada e pouco vivida, e anuncia-me de vez, em alto e bom som, o inaudito do mundo que de outro modo eu não saberia alcançar, nem perceber. Vem! Maranathá!

Sexta-feira da 33ª Semana do TC

No Reino de Deus não tem Black Friday. Não se paga menos. Aliás, não se paga. A adesão ao Reino deve ser de modo livre, gratuito e consciente, afinal, ele nos é apresentando como proposta e não como imposição. É impossível comprá-lo ou negociar os seus termos ou valores. O Reino de Deus é inegociável. Ali, não se admite nenhuma forma de corrupção, barganhas ou propinas. Os bens deste mundo não nos asseguram um lugar definitivo junto de Deus. Deus não se deixa manipular.

O Evangelho de hoje (Lc 19,45-48) apresenta Jesus profundamente irado com os vendilhões do Templo, homens que tornaram a “casa de oração” numa feira livre. Ali se fazia de tudo, menos o essencial: promover o direito e a justiça e, sobretudo, o encontro genuíno e fecundo com um Deus justo, fiel e misericordioso para com todos e cujo amor nada pode abalar. Ele não pode nos amar mais ou melhor, pois nada nem ninguém pode aumentar ou diminuir sua ternura. Ela já é infinita.

A Polícia Federal deflagrou esta semana uma operação chamada de “Ouro de Ofir’, numa clara referência à riqueza do Templo de Jerusalém. Nela, a PF investiga pastores que usam da chamada “Teologia da Prosperidade” para incutir nos fiéis uma expectativa ilusória: a de que se pagarem o dízimo integralmente, irão receber o dobro do que ofertarem. Muitos fiéis se desfazem de seus únicos pertences, como o carro da família, a casa própria ou outros bens, esperando receber um carro do ano, uma casa muito melhor, o emprego dos sonhos ou outras coisas similares. O charlatanismo de muitos desses “pastores” não tem limite e vai ao encontro da pouca formação e bom-senso dos fiéis. Outrora, por meio do seu profeta, Deus já havia se lamentado: “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). De fato, o Dízimo é bíblico, teológico e expressão da caridade do fiel.

Por isso, só uma pessoa eminentemente convertida é capaz de pôr a mão no bolso e ofertar do pouco ou do muito que possui. O anúncio do Evangelho necessita da ajuda concreta dos cristãos, afinal estamos radicados no tempo e no espaço e não vivemos de brisa. Faz parte da ética cristã a doação financeira para a manutenção dos Templos. Mas que ninguém se engane. A fidelidade na parte financeira não obriga Deus a nos abrir os cofres desta vida. Ninguém será mais abençoado por Ele se for fiel no Dízimo ou se fizer doações poupudas. Riqueza não é sinônimo de bênção. Deus e o Seu Reino não estão à venda. Nunca estiveram e jamais estarão. Uma compreensão assim, ditada pelo lucro e por uma visão capitalista, é contrária à Teologia Bíblica. É nefasta e perigosa. Aos maus pastores é sempre bom recordar: Jesus, o único autorizado do Pai, viveu e morreu pobre. Deus é “Javé dos pobres” e escolheu os pobres para manifestar o seu amor e a sua predileção.

Ai de quem subverter o Evangelho, diminuir a sua força reparadora, as exigências de adequação aos valores do Reino e a necessidade de conversão constante em benefício próprio. Ai de quem, na pregação e na vida, trair o Cristo da cruz que, de chicote nas mãos, continua a expulsar os “vendilhões” dos Templos de hoje. Ai de quem usar da fé dos pobres e dos simples como trampolim para enriquecimentos ilícitos. “Seria melhor que tal pessoa se atirasse ao mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço, do que induzir um desses pequeninos a pecar” (Lc 17, 2).

Deus confiou talentos a todos

A Liturgia deste Domingo, 19, contava a parábola dos talentos: Mt 25,14-30. As interpretações podem ser variadas, mas como teólogo, prefiro ser fiel ao texto, ao contexto e ao autor. Mateus não conta por contar. Sua intenção é pedagógica. Ele deseja incutir no coração dos crentes de sua comunidade esta mensagem: a de que todos receberam do “patrão” que é Deus uma quantidade de talentos (dons e bens) e que cada um é responsável por sua manutenção e progresso. Uns receberam 5, outros 2 e há quem tenha recebido um único talento. O acento não está – ou ao menos não deveria estar – sobre a quantidade. Esta nunca foi a lógica de Deus, mas, sim, a qualidade. O que Deus não tolera é a ingratidão, a indiferença e o comodismo. Na Teologia Mateana, Deus deseja ver todos trabalhando. O Reino dos céus é uma conquista dos que trabalham, dos que põem a “mão na massa”.

De fato, os preguiçosos e os apáticos não terão lugar nesse Reino. Logo, é preciso pôr os talentos em ação, fazê-los multiplicar. Quem entende esta dinâmica e estratégia divinas, ouvirá do “Patrão Celeste”: “Muito bem, servo bom e fiel. Vinde participar da minha alegria”. Aqueles, porém, que preferem ficar no ostracismo e sem nada fazer, ouvirão o contrário: “Afastai-vos de mim. Eu não vos conheço”. Trabalhar no Reino deste Patrão é um privilégio. Servi-lo deve ser a alegria das alegrias. Por isso, todo discípulo que se preza deve se perguntar com honestidade: “Que talentos o Senhor me confiou?”.

E, uma vez identificados, é preciso colocá-los em prática e fazê-los multiplicar. E pensar que na comunidade cristã há tantos “dons enterrados”; tantas pessoas que poderiam colocar seus talentos em evidência, mas preferem o anonimato, têm medo de críticas, não querem se expor e preferem não se fatigar com os desafios de uma vida posta a serviço dos outros. Há tantos ministérios parados, campos da seara do Senhor não cultiváveis, por falta de mão-de-obra, embora muitos estejam sentados de braços cruzados. E muitos dizem não ter tempo ou que o farão depois, mais tarde; noutro dia, ano que vem, quando se aposentarem e os filhos já estiverem criados. E o “rosário de desculpas e justificativas” segue sendo desfiado indefinidamente.

Por saber que o “Patrão” chegará a qualquer momento para nos pedir contas dos talentos que Ele nos confiou, ando me perguntando com renovado entusiasmo: Senhor, que talentos a sua bondade me concedeu? Quero pô-los todos a serviço do Teu Reino. Ajuda-me a não negligenciá-los jamais. Quero honrar a tua confiança em mim.

XXXI Domingo do Tempo Comum – Sede santos

Neste final de semana do XXXI Domingo do Tempo Comum, a Igreja no Brasil celebra a Solenidade de Todos os Santos, cuja festa universal é no dia 01, mas por questões pastorais, para que haja uma maior participação dos fiéis católicos, no Brasil ela é transferida para o domingo subsequente. Talvez a primeira pergunta a se fazer seja justamente esta: O que é santidade?
 
Santidade é ser aquilo que se é; nem mais nem menos. No livro do Êxodo, ao ser questionado por Moisés acerca do Seu nome, Deus se autodefine: “Eu sou o que sou” (Ex 3, 7). E este “ser o que é” vai sendo revelado paulatinamente na história da salvação. Ele se mostra “o Presente”, aquele que “acompanha”, que “confirma” e que “sustenta” o seu povo a caminho. No panteão das divindades cultuadas pelos demais outros povos vizinhos a Israel, Deus se apresenta como o único Deus verdadeiro: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4). E acrescenta: “Eu Sou Deus e antes de mim nenhum deus se formou, tampouco haverá algum depois de mim. Eu, eu mesmo, sou Yahweh, o SENHOR, e além de mim não há Salvador algum. Eu revelei, salvei e proclamei; Eu, e não um deus estrangeiro, de qualquer outra nação” (Dt 43, 10-12). E no livro do culto litúrgico, há uma norma explícita acerca da Santidade de Deus e do proceder humano: “Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel. Tu lhes dirás: Sede santos, porque Eu, Yahweh vosso Deus, o SENHOR, sou santo!” (Lv 19,2).
 
Logo, a Santidade de Deus diz da sua personalidade e da sua essência. Ele é santo, três vezes santo, isto é, o Santíssimo, o Único verdadeiramente santo, “pois nele se encontra toda graça e copiosa redenção” (Sl 129,4). Deus é fonte de todo bem. D’Ele e n’Ele se originam todas as demais virtudes e n’Ele elas se encontram em plenitude. Por essa razão, é que Deus jamais poderá deixar de amar, de ser misericordioso, de ser fiel e de honrar com a Sua palavra. Sua liberdade está em ser o que é. Ele é o ab-soluto, o totalmente livre. E Sua santidade é criadora, santificadora e redentora. Por isso, tudo quanto Ele faz é bom: “E Deus viu que tudo era bom…” (Gn 1, 4ss). Toda a criação está impregnada da santidade d’Ele. Ele não está em tudo, mas tudo o que Ele fez traz em si a Sua marca criadora. Ao contemplar a criação inteira, animais e plantas, seres animados e inanimados, animais selvagens e domesticáveis, e sua obra prima, o ser humano, constamos a sua santidade: Em tudo há sinais da sua perfeição e da sua divindade onipotente.
 
Ao homem, portanto, cabe ser aquilo a que foi chamado a ser: Ser Humano. E a nossa humanidade tem um outro ser humano como referência, como modelo: Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Ele é, para nós, a referencialidade acabada e plena do que é ser gente. Em Jesus, a humanidade foi vivida na sua plenitude. Nele não havia pecado algum (cf. Hb 4,15). Isso porque o pecado não faz parte da nossa constituição humana. Pecar não é humano. É uma contravenção. Atenta contra a nossa santidade, isto é, a nossa humanidade. Pois nós, seres humanos, só seremos verdadeiramente santos à medida em que formos humanos. E não só; à medida em que formos nós mesmos. Deus não espera que sejamos um outro Moisés, um outro Paulo de Tarso ou um outro Agostinho de Hipona. Deus espera que cada um seja o que é, com suas potencialidades, qualidades e limitações. Talvez um dia, no céu, ele nos pergunte se tivemos a coragem de ser nós mesmos. Santidade é ser “si mesmo”. Logo, é vivendo em absoluto a nossa condição humana que poderemos ser “santos como Deus é santo”. Não será negando ou fugindo dessa nossa condição que alcançaremos a santidade desejada por Deus.
 
Há muitos que pensam que ser santo é, simplesmente, não pecar. E para muitos pecado tem unicamente a ver com a dimensão sexual. Há pessoas até muito bem equilibradas sexualmente, mas totalmente desvirtuadas nas outras áreas da vida humana. Adultério, infidelidade e promiscuidade são pecados, sim. Mas não é menos pecador quem se embrenha pelos labirintos da corrupção, da desonestidade, da mentira, da falsidade, da injustiça, da impiedade e do desamor. Por causa da queda original, o pecado tornou-se nossa “ferida narcísica”. Enquanto existirmos, iremos pecar. E não há homem que não pegue. Diz a bíblia que “o justo peca sete vezes por dia” (Pv 24, 16), e justo na bíblia significa santo. Assim, não há homem ou mulher sobre a terra que não peque. Todos pecam. E vamos pecar até o último instante da nossa vida. O importante não está no pecado ou na quantidade de vezes que caímos em pecado, mas no desejo sincero e honesto de acertar e de levantar sempre. Não é mais santo quem peca menos ou evita as ocasiões de pecado. É mais santo quem, mesmo caindo diuturnamente, tem consciência do seu pecado, se arrepende, pede perdão e se levanta decidido a não mais pecar, embora saiba, a priori, que dali a pouco cairá de novo.
 
Não é santo quem foge da humanidade a que foi chamado ou quem nada faz por medo de pecar. Quem se enclausura em si mesmo ou se esconde por trás dos rigorismos da Lei religiosa ou civil. Quem pranteia sua honestidade e sua devoção ou quem grita pelas praças sua piedade. Também não é santo quem conta a quantidade de vezes que amou, perdoou ou que fez o bem. Quem publiciza sua generosidade e a largueza do seu coração. Também não é santo quem vive os mandamentos à risca, mas se esquece de que, ainda assim, “peca sete vezes”, e é incapaz de ser tolerante com aquele que caiu em alguma falta. Não é santo vigia os próprios atos, mas deixa à solta os pensamentos e neles se regala enquanto constrói muros contra os seus semelhantes e divaga em seus devaneios e perversidades. Está longe de ser santo quem pensa que pelo número de vezes que rezou ou fez alguma caridade irá ganhar a salvação por merecimento. Não é santo quem pensa que pode comprar Deus com o seu pietismo. Ninguém se torna santo confiando unicamente em si mesmo ou em sua capacidade de ser fiel ou de viver a fé. Não será santo quem apenas vive a aparência da religião, mas não busca se converter todos os dias, sobretudo, ao amor e à misericórdia para com todos, pois, “no fim da nossa jornada seremos julgamos pelo amor” (São João da Cruz).
 
Desse modo, celebrar todos os santos é reconhecer a largueza do amor de Deus que chamou todos à santidade. Ninguém está excluído dessa prerrogativa de Deus que Ele nos consegue gratuitamente. Ele abraça toda criatura e a torna santa, isto é, a separa para si. Pois, santidade é um convite e uma vocação. E como tais, cabe ao convidado dar a resposta: Sim ou Não. Podemos ser santos, como podemos não sê-lo. É uma decisão pessoal e intransferível. Podemos viver neste mundo segundo a santidade querida por Deus ou vivermos longe do seu projeto de salvação. Podemos ser promotores da vida ou da morte; sermos cidadãos honestos e responsáveis ou sequazes da violência e das inúmeras corrupções mundanas. Podemos deixar este mundo melhor ou pior do que quando aqui chegamos. Poderemos ser amigos ou inimigos de Deus; ser, de fato, seres humanados ou gente que se embrutece e se torna monstros indomáveis. Poderemos ser santos ou diabos.
 
Seja qual for a nossa escolha, Deus, o Totalmente Santo, o Justo, o Misericordioso e o Único Senhor, a respeitará. Logo, a decisão de ser santo é pessoal. Sede, portanto, sábio; sede santo!

Solenidade de Todos os Santos

O grande orador sacro, Antônio Vieira, a respeito da Festa de todos os santos, afirmou:

“A festa mais universal e a festa mais particular, a festa mais de todos e a festa mais de cada um, é a que hoje celebra e nos manda celebrar a Igreja. É a festa mais universal e mais de todos, porque, começando pela fonte de toda a santidade, que é Cristo, e pela Rainha de todos os santos, que é a Virgem Santíssima, fazemos festa hoje a todas as hierarquias dos anjos, fazemos festa aos patriarcas e aos profetas, aos apóstolos e aos mártires, aos confessores e às virgens. E não há bem-aventurado na Igreja triunfante, ou canonizado ou não canonizado, ou conhecido ou não conhecido na militante, que não tenha a sua parte ou o seu todo neste grande dia. E este mesmo dia tão universal e tão de todos, é também o mais particular e mais próprio de cada um, porque hoje se celebram os santos de cada nação, os santos de cada reino, os santos de cada religião, os santos de cada cidade, os santos de cada família. Vede quão nosso e quão particular é este dia.

Não só celebramos os santos desta nossa cidade, senão cada um de nós os santos da nossa família e do nosso sangue. Nenhuma família de cristãos haverá tão desgraciada que não tenha muitos ascendentes na glória. Fazemos, pois, hoje festa a nossos pais, a nossos avós, a nossos irmãos, e os que tendes filhos no céu, ou inocentes ou adultos, fazeis também festa hoje a vossos filhos. Ainda é mais nossa esta festa, porque, se Deus nos fizer mercê de que nos salvemos, também virá tempo, e não será muito tarde, em que nós entremos no número de todos os santos, e também será nosso este dia. Agora celebramos, e depois seremos celebrados: agora nós celebramos a eles, e depois outros nos celebrarão a nós. Esta última consideração, que é tão verdadeira, foi a que fez alguma devoção à minha tibieza neste dia tão santo, e quisera tratar nele alguma matéria que nos ajude a conseguir tão grande felicidade”.

E acerca do modus operandi da santidade, adverte:

“[…] Não é necessário ser anacoreta, nem ir viver aos desertos, porque podeis ser santos na vossa casa, como José, Samuel, Davi, que morreram na sua. Não é necessário ser doutor, nem queimar as pestanas sobre os livros, porque basta que saibais os Mistérios da Fé e os Mandamentos, como S. Paulo, por sobrenome o Simples, S. Junípero, Santo Hermano, e aqueles de quem dizia Santo Agostinho: Levantam-se os indoutos, e levam o reino do céu aos letrados. Não é necessário ser mártir, porque não só não padecendo martírio, mas fugindo dele e escondendo-vos, podeis ser santo, como o foi Santo Atanásio, S. Feliz, S. Silvestre, e outros. Nem menos é necessário ser apóstolo, patriarca ou profeta, porque estes ofícios e dignidades passaram com o tempo, e podeis ser santos como o foram todos os que depois deles vieram. Pois, que é necessário para ser santo? Uma só coisa, e muito fácil, e que está na mão de todos, que é a boa consciência ou limpeza de coração, como diz o nosso tema: Beati mundo corde.

Olhai como Deus quis facilitar o céu e o ser santos, que pôs a bem-aventurança e santidade em uma coisa que ninguém há que não tenha, e a mais livre e mais nossa, que é o coração. Assim como o coração é a fonte da vida, assim é também a fonte da santidade; e assim como basta o coração para viver, ainda que faltem outros membros e sentidos, assim, e muito mais, basta a pureza de coração para ser santo, ainda que tudo o mais falte. Se o ser santo dependera dos olhos, não fora santo Tobias, que era cego; se dependera dos pés, não fora santo Jacó, que era manco; se dependera de algum outro membro do corpo, não fora santo Jó, que estava tolhido de todos, e só lhe ficou a língua: e, ainda que não tivera língua, também fora santo, porque Santa Cristina, sendo-lhe a língua cortada, louvava a Deus com o coração, e com o coração, sem língua, eram tais as suas vozes, que as ouviam não só os anjos no céu, senão também os circunstantes na terra. De sorte que, para um homem ser santo, não é necessário coisa alguma fora do homem, nem ainda é necessário todo o homem: basta-lhe uma só parte, e essa a primeira que vive e a última que morre, para que lhe não possa faltar em toda a vida, que é o coração (…)”.

E endossa a maior das alegrias: viver na santidade de Deus:

“[…] Temos visto como em todos os estados, em todos os ofícios e em todas as fortunas podemos alcançar a maior fortuna de todas, que é ser santos; temos visto que o instrumento necessário para ser santos é só e unicamente o coração, contanto que seja puro e limpo; só resta para complemento da facilidade com que vos prometi que todos podemos ser santos, declarar quão facilmente podem todos conseguir esta mesma limpeza. A limpeza do coração consiste em estar limpo de pecados, e não há nenhum pecador, por grande que seja, que não possa conseguir esta limpeza de coração tão breve e tão facilmente que, se entrou nesta igreja pecador, não possa sair dela santo.

Presentou-se a Cristo um leproso, e pondo-se de joelhos: disse assim: “Senhor, se quereis, bem me podeis alimpar desta lepra” (Mt. 8,2 s) — Respondeu o Senhor: Quero, sê limpo — e no mesmo ponto ficou limpo daquele tão feio e tão asqueroso mal: Pode haver maior brevidade, pode haver maior facilidade de conseguir a limpeza? Parece que não. Pois eu vos digo, e é de fé, que muito mais breve e muito mais facilmente podeis conseguir a limpeza de coração se o mesmo coração quiser. A lepra do coração, mais feia, mais imunda e mais asquerosa que a do corpo é o pecado. E para que vejais quanto mais fácil e mais brevemente se consegue a limpeza desta lepra, ponhamos o mesmo leproso que Cristo curou, à vista de um coração também leproso pelo pecado, e veremos qual consegue a limpeza com maior facilidade”.

E Antônio Vieira conclui:

“[…] Pois, se na limpeza do coração consiste o ser santos, e esta limpeza de coração se pode conseguir tão facilmente só com um movimento do mesmo coração, que coração haverá tão fraco, ou que homem de tão fraco e de tão pouco coração que não se resolva a ser santo? Se o ser santo fora uma coisa muito dificultosa, bem nos merecia o céu e a bem-aventurança que, pela gozar eternamente, se venceram todas as dificuldades. Mas é tão fácil que, sem vos bulir do lugar onde estais, e sem mover pé nem mão, nem fazer ou padecer coisa alguma, só com um ato do coração, e o ato mais natural, mais fácil e mais suave do mesmo coração, que é amar, e amar o sumo bem, podemos ser santos. Exorta Moisés a amar a Deus de todo coração, que é o mandamento em que se encerram todos, e conclui assim. (Dt. 30, 11): Este mandamento não é sobre nós, nem está longe de nós. — Se fora sobre nós e estivera lá no céu: In caelo situm (Ibid. 12), tê-lo-íamos por impossível; se estivera longe de nós, e com muito mar em meio: (Ibid. 13), tê-lo-íamos por muito dificultoso. Mas é muito fácil e está muito perto, porque está o cumprimento dele dentro do nosso coração: Sed juxta te est sermo valde in corde tuo (14).

Moisés, que não prometia o céu, disse que estava perto de nós o cumprimento deste preceito; mas Cristo, que promete o céu, ainda disse mais e melhor, porque diz que o preceito, e o céu, e o merecimento dele não só está perto de nós, senão dentro de nós: Regnum Dei intra vos est (15). Cuidamos que o céu, onde subiram os santos, está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte, e que podendo tão facilmente purificar o coração e ser santas, só porque não querem o não sejam? Se para amar a Deus e ganhar o céu houvéramos de atravessar os mares tormentosos e contrastar com todos os elementos, pouco era que se fizesse pela bem-aventurança certa do céu o que tantos fazem por tão pequenos interesses da terra; mas, tendo-nos Cristo tão facilitada a bem-aventurança, que entre a mesma bem-aventurança e o coração não haja mais que a condição de ser limpo: Beati mundo corde, e, podendo o mesmo coração alcançar essa limpeza em um instante de tempo e com um ato de amor, e de amor ao sumo bem, que não sejamos todos santos, e não queiramos ser bem-aventurados? Quero acabar esta admiração com um ai de S. Bernardo, pregando neste mesmo dia aos seus religiosos, o qual a eles e a todos pode servir de exemplo e de confusão: Bem-aventurados os limpos de coração, e verdadeiramente bem-aventurados, porque eles verão aquela face divina, a qual os anjos sempre estão vendo e sempre estão desejando ver.

A vós, Senhor, diz o meu coração: Nenhuma coisa desejo, senão ver-vos de face a face, porque nenhuma outra há para mim, nem na terra nem no mesmo céu. Desmaia o meu coração nas ânsias deste desejo, porque só o Deus do meu coração é o único e todo o bem que o pode satisfazer. E quando chegará aquela ditosa hora em que, com a vista de vosso rosto, fique satisfeito? Mas, ai de mim — diz Bernardo — que pela pouca limpeza de meu coração — quero-o dizer com as suas próprias palavras — ai de mim, que a impureza e imundícia de meu coração me impede e faz indigno de ser admitido àquela bem-aventurada vista! Se isto dizia de si um coração tão puro, um coração tão santo, um coração tão elevado, tão estático, tão seráfico e tão abrasado no amor divino, se isto dizia no coração de Bernardo a humildade, que dirá noutros corações a verdade? Se o corpo estiver no claustro, e o coração no mundo? Se o coração, depois de se dar a Deus, estiver sacrificado ao ídolo? Se o coração, que devera estar cheio de caridade e amor de Deus, estiver ardendo em amor que não é caridade? Se as palavras, que saem do coração, e os pensamentos, que não saem, forem envoltos em impureza? Ai de tal coração e de quem o tem! Este ‘ai’ de São Bernardo em dia de Todos os Santos, fique por matéria de meditação a todos os que o querem ser. Advirtam, porém, e tenham por certo, que se este ai de conhecimento e temor se converter em ai de dor, em ai de pesar, em ai de verdadeiro e firma arrependimento, esse mesmo ai, dito de todo coração, com ser uma só silaba — como dizia — bastará para purificar de tal sorte o mesmo coração que, sendo nesta vida santificado por graça, mereça ser na outra beatificado por glória: Beati mundo corde”. (Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000012pdf.pdf)

Logo, a Festa deste dia é a festa de todos nós: dos de perto e dos de longe, dos santos que conhecemos, canonizados pela Igreja, isto é, reconhecidos oficialmente por ela, e daqueles anônimos que nunca serão [re]conhecidos. Mas é também a nossa festa. A de todo homem e de toda mulher, em todo tempo e de qualquer lugar. Daqueles que amamos e daqueles que amamos pouco. Dos de dentro de nossas casas, mas também daqueles das casas vizinhas, do nosso prédio, da nossa rua, de nossa cidade e de nosso país. E nada poderá nos retirar esta condição de santos. Deus, que nos é mais íntimo do que nós mesmos (Santo Agostinho), mora em nós e jamais se ausenta. Nem mesmo quando pecamos. Do contrário, seria um “entra e sai constantes”. É a Festa dos seres humanos, mas não só. É também a Festa dos animais e da criação inteira.

Isso por que ser santo significa: ser “separado”, escolhido. Deus nos separou para Ele. Todos nós lhe pertencemos. Ele nos fez e somos seus. Não há distinção: nem de raça nem de credo, nem tampouco de cor, orientação sexual ou denominação religiosa. Somos todos santos. 1São João, na sua epístola, assegura-nos esta certeza: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato” (1 Jo 1, 3). O número dos eleitos de Deus é sem fim. A bíblia, de modo simbólico, apresenta um número: 144 mil assinalados de toda tribo dos filhos de Israel, isto é, do povo de Deus. E prossegue: “vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão” (Ap 7, 9). E o salmista, por sua vez, confirma: “Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, o mundo inteiro com os seres que o povoam; porque ele a tornou firme sobre os mares e, sobre as águas, a mantém inabalável. ‘Quem subirá até o monte do Senhor, quem ficará em sua santa habitação? Quem tem mãos puras e inocente coração, quem não dirige sua mente para o crime” (Sl 23/24).

A salvação é um dom imerecido, uma oferta generosa de Deus. Afinal, só Ele é o todo Santo: “Ao celebrarmos, ó Deus, todos os santos, nós vos adoramos e admiramos, porque só vós sois o Santo, e imploramos que a vossa graça nos santifique na plenitude do vosso amor, para que, desta mesa de peregrinos, passemos ao banquete do vosso reino. Por Cristo, nosso Senhor” (oração pós-comunhão). Porém, como todo dom, também a salvação [o ser santo] requer uma tarefa. É necessário que o homem e a mulher, chamados à santidade de Deus, atravessem livremente o umbral desse convite. É preciso viver a dimensão desta santidade, cujo referencial é um só: Jesus Cristo: “Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm?” Respondi-lhe: ‘Meu Senhor, tu o sabes’. E ele me disse: “Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 13-14). E é, precisamente no seu Evangelho, que Cristo nos dá a receita de como adentrarmos à essa dinâmica salvífica:

“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt 5, 3-12). Num mundo e em sociedades tão marcados pela violência, pelo ódio, pelo desamor, pelas injustiças e pela cultura de morte, os homens e mulheres santos são chamados a ser luz que ilumina e dissipa toda forma de escuridão. E não faltam ocasiões de vivência dessa santidade. Nas famílias, sobretudo, é lugar adequado para se viver e promover a paz. Entre os cônjuges muitas vezes impera a desconfiança, a infidelidade, a violência, o ódio e a vingança. Uma pessoa santa se esforça, portanto, por superar esses resquícios do “homem velho” e de uma vida de pecado. Os filhos, por sua vez, cuidam e honram seus pais. Não os abandona nem na velhice nem na doença. Os pais, por outro lado, não contristam nem intimidam os seus filhos.

O contexto de época em vivemos suplica por homens corajosos, capazes de viverem a cultura de vida, de esperança, de solidariedade e de verdadeira misericórdia. Estamos envoltos pelas trevas da desconfiança, da criminalidade e da violência em níveis de guerra. Só em 2015, segundo dados do 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No total, 58.383 pessoas foram mortas violentamente e intencionalmente no país. Por dia, em média, 160 pessoas foram privadas de continuar suas vidas por uma ação abrupta de um terceiro. Os motivos são os mais banais possíveis: briga no trânsito, discussão entre vizinhos, crimes passionais (hoje fala-se de feminicídio: o assassinato de mulheres por questão de gênero), homofobia (intolerância com a orientação homossexual), e tantos outros. O número alarmante de violência ganha notoriedade da mídia secular. Há um verdadeiro fetiche pelo trágico, pelo bizarro e pelo horror. Espetaculariza-se o pior do ser humano para torna-lo audiência. Programas matutinos evidenciam à exaustão a literatura policial: crimes do final de semana. Quanto mais sangrento e impactante, maior espaço terá na mídia. O belo, as iniciativas de paz, de solidariedade, de verdadeira humanidade não recebem a mesma publicidade. São mostrados de modo acanhado e com curto espaço de tempo. Quando se trata de crimes e de violência, sobretudo urbana, exploram-nas demasiadamente.

Por essa razão, a santidade dos cristãos deve ser um contraponto a toda esta corrente e a este pensamento das trevas: “que vossa luz brilhe como o sol do meio dia” (cf. Jó 11, 17). Afinal, tudo aquilo que atenta contra a dignidade da pessoa humana é, antes de tudo, uma agressão à santidade de Deus. Toda forma de política pública e/ou econômica que menospreza a criação é um desrespeito ao Criador. “Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus.Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. (Rm 8, 19-21).

Que a Santidade de Deus, portanto, nos anime a não desistirmos, mas a continuarmos com coragem. Afinal, um cristão santo é, antes de tudo, um teimoso. Todo santo é teimoso: “Santidade quer dizer teimosia, em cumprir a vontade de Deus, sempre, apesar das dificuldades” (Bem-aventurado Tiago Alberione).

Terça-Feira da XXIX Semana do TC

A vida cristã é, eminentemente, serviço. A Liturgia desta terça-feira toca precisamente nesto ponto essencial da fé: é feliz [bem-aventurado] todo aquele que descobre o valor da doação da própria vida. Diz o evangelista Lucas (12, 35-38) que Jesus recomendou aos seus discípulos prontidão e vigilância, tais como os empregados que aguardam o seu senhor chegar de uma festa de casamento.

Logo, o compromisso do cristão com a construção do Reino de Deus no mundo coloca-o em permanente estado de atenção. Ter os rins cingidos e a lamparina acesa significa que o cristão vive neste mundo uma vigilância ativa e proativa. Ele não é alguém acomodado, não negligencia sua responsabilidade nem a transfere a outrem. É alguém que serve a Deus e aos irmãos e os serve com alegria: “Eis que venho cumprir, com alegria, a vossa vontade, Senhor” (Sl 39).

De fato, não se pode servir de qualquer jeito; com displicência e indiferença. O serviço evangélico requer prontidão, comprometimento, mas, sobretudo, alegria. E o modelo de servo, dedicado e fiel, é o próprio Cristo. Não por acaso, a imagem que o Evangelho apresenta dEle é a do “patrão que volta de uma festa de casamento” e quando chegar, será Ele a vestir o avental e se pôr a serviço dos seus empregados. Um lógica totalmente absurda aos olhos gananciosos e elitistas deste mundo, onde o maior é quem é servido e não quem se poe a servir. Todavia, a vida inteira de Jesus é uma denuncia desse equívoco: Ela foi serviço e doação gratuitos e para todos. E ele cumpriu com alegria essa sua missão, com prazer e regozijo, afinal de contas, era ao Pai que Ele servia na humanidade inteira, objeto do amor esponsal de Deus.

Daí, a diferenciação que a primeira leitura (Rm 5, 12ss) faz de Adão [o primeiro homem] e de Jesus [o verdadeiro homem, pleno e acabado] “Por um só homem veio o pecado, mas por um único homem veio a salvação. […] Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Ao contrário do antigo Adão, que se deixou levar pela soberba, pelo egoísmo, pela vaidade e pelo orgulho, o novo Adão, Jesus Cristo, doou-se inteiramente para o Reino: Por amor ao Pai e aos seres humanos, seus irmãos.

Assim, servindo-se uns aos outros, os cristãos serão tais como luzeiros a brilharem em meio à escuridão da noite que cai sobre o mundo. Mergulhado na solidão das trevas do ensimesmamento, esse mundo não promove nem compreende o serviço oblativo e desprovido de recompensas financeiras como um valor a ser cultuado. Ele, contaminado pela antiga serpente, só sabe “pregar” o ganhar vantagens, a lei do mais forte, a adesão a propinas e a toda forma de corrupção. Sem a luz do Evangelho que tudo clareia, o mundo chafurda na indiferença alheia, na miopia e na surdez aos clamores especialmente dos mais necessitados.

Portanto, a medida precisa do serviço cristão tem no modelo Crístico sua origem e o seu fim. Na lógica evangélica não há concessões: Ou se vive para servir ou não serve para viver.

XXIXº Domingo do Tempo Comum

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, diz o trecho do Evangelho (Mt 22, 15-21) deste domingo, XXIX do Tempo Comum. Jesus enfrenta os mestres da lei que fazem a ele uma pergunta capciosa, porque querem pegá-lo em alguma armadilha. E começam com um elogio fácil. Mas Jesus, muito mais astuto do que aqueles homens, sabe que eles na verdade não estão a fim de aderir aos valores do Reino de Deus e, por isso, não falam segundo a verdade de seus corações. Eles não acreditam no que estão dizendo. São hipócritas. É como quando recebemos um elogio, mas percebemos que na verdade a pessoa tem outros interesses. E se não formos espertos o bastante cairemos fáceis na cilada. E isso pode ocorrer sem maiores percursos, pois, no fundo, somos todos vaidosos. Gostamos de receber elogios e facilmente nos deixamos convencer por eles. Não há nada de errado em receber elogios.  O problema é quando o elogio é desprovido de sinceridade e tem como fim último uma benemesse.

Os fariseus colocam Jesus em uma situação delicada: É lícito ou não pagar impostos?. Se Jesus dissesse que não, ele se colocaria contra o império romano e seria, no mínimo, acusado de subversivo. Se dissesse que sim, ganharia a antipatia das pessoas que detestavam pagar impostos. Mas Jesus, diferentemente dos fariseus, é sábio. É homem cheio de Deus, do Espírito Santo. E se aqueles pensavam ser inteligentes, Jesus vence-os com a sua sabedoria. E sabedoria é diferente de inteligência. Podemos ser muito inteligentes em alguma área da vida, em alguma técnica específica ou sabermos muito sobre alguma coisa. Todavia, a sabedoria suplanta toda e qualquer inteligência. Afinal, todo sábio é inteligente, mas nem todo inteligente é sábio. E, infelizmente, nós não a adquirimos nos bancos de escola. E o que vem a ser sabedoria? Sabedoria é a capacidade de ler a vida e aprender paulatinamente com ela. É a leitura atenta da história para não repetir os mesmos erros. É a busca apurada dos fatos, sejam eles quais forem, e encará-los com firmeza, sem dissimulá-los. A sabedoria é, pois, calcada no modo como vivemos os anos de nossa vida e o que fazemos com o que aprendemos dela. É exatamente por isso que se espera que os mais velhos sejam, de fato, pessoas sábios.

Antigamente, isso era verdade. Essa conta batia. Um idoso, alguém de cabelos brancos e de muitos anos de vida, era tido como uma pessoa experimentada na sabedoria. Ouvi-lo era aprender com uma enciclopédia viva, alguém que burilou a pedra bruta da existência humana e saiu vitorioso de todos os percursos e dissabores da existência humana. Mas hoje, já não podemos dizer isso com tanta segurança, porque há muitos idosos tolos – perdoem-me a força de expressão -, desprovidos de honesta sabedoria. Há pessoas que têm muitos anos “sobre as costas”, mas pouca ou quase nada de experiência de vida. Conhece pouco da vida e os seus muitos matizes. Porque a sabedoria é algo que se adquire, sobretudo, por meio de um silêncio reverente e de uma busca sincera e atenta à palavra de Deus, fonte e origem da verdadeira sabedoria. Afinal, ela é dom genuíno de Deus. Os idosos atuais nem sempre buscam em Deus a resposta para suas questões mais íntimas e pessoais, para o entendimento da vida e a compreensão das coisas mais corriqueiras da vida humana. Antes, falta exímio respeito e reverência pelo querer de Deus que se manifesta para aqueles que estão dispostos a perscrutá-lo. Muitos preferem buscar a sabedoria em outros lugares distante da lógica e da dinâmica divinas. Alguns dão mais ouvidos às “verdades” do mundo do que às verdades de Deus. Há quem se entregue aos vícios e aos crimes, às jogatinas e aos prazeres momentâneos, à desonestidade e à corrupção, e há os que são infiéis e adúlteros. Desgraçadamente, muitos jovens, casais e até crianças têm se deixado levar por essa mesma imbecilidade de viverem distantes da sabedoria própria de Deus.

Mas Jesus se mostra eminentemente sábio no confronto com os fariseus. Apesar da pouca idade, Ele sabia ler os sinais dos tempos e perceber a falsidade presente no coração dos seus interlocutores. Era um homem profundamente atento e disponível a Deus e, por isso, aberto e acessível aos homens. Por isso, Ele é capaz de perceber a manobra que os fariseus lhe estavam armando. O elogio deles era falacioso. Para sair daquela jogatina, Jesus lhes pede algo concreto; pede-lhes um exemplar da moeda corrente. Aqueles homens que perguntam a Jesus sobre a licitude dos impostos tinham-na, diferentemente dele que não a tinha. E isso diz muito para a teologia evangélica. Sintetiza um dado inquestionável: o de que os fariseus estavam comprometidos com o sistema político e financeiro vigente. Seus corações estavam presos às riquezas deste mundo. O coração de Jesus, ao contrário, estava unicamente em Deus; ancorado n’Ele. Sua única fonte de alegria e seu tesouro insubstituível. Ao lhe apresentarem a moeda, Jesus pergunta-lhes pela inscrição e pela imagem nela cunhadas. Algo que, inclusive, era proibido pelas Sagradas Escrituras (cf. Dt 5, 8ss; Ex 20, 4ss). Entretanto, a imagem de César Augusto fora posta ali como símbolo de dominação e de culto: O imperador era cultuado como um deus, tendo inclusive cultos dedicados a ele. Ao ouvir a resposta de quem era a imagem na moeda, o Mestre afirmou: “Dai a César o que é de César…”, pois, se nela estava a imagem do imperador e com ela os impostos eram pagos, logo, os cidadãos tinham o dever de devolvê-la ao Estado. Afinal de contas, é graças aos impostos que o bem comum é contemplado. Desse modo, é justo que todo cidadão pague-os integralmente. Sonegar impostos é um crime, uma vez que a função social deles é prover a dignidade de todo cidadão.

Todavia, há um porém nevrálgico na resposta de Jesus: “Dai, pois, a Deus o que é de Deus”. Se na moeda apresentada pelos fariseus havia a imagem do imperador, no ser humano, por outro lado, está impressa a imagem indelével do criador. Isso porque somos de Deus e pertencemos unicamente a Ele e a mais ninguém.  Ao fazer a afirmação em prol do que é de Deus, Jesus está afirmando categoricamente que as pessoas não pertencem ao Estado; não pertencemos a nenhum Governo. O ser humano não é propriedade de nenhum sistema político, econômico ou financeiro. Todo cidadão é, na verdade, filho de um mesmo pai que torna a todos livres, autônomos e responsáveis. Por isso, ai de quem afrontar a santidade de Deus presente no ser humano. Eis a razão pela qual os impostos pagos devem ser direcionados integralmente para a assistência do contribuinte; para o seu bem-estar. Mas não é bem isso que tem ocorrido. Desde o tempo bíblico até os de hoje, os desvios de recursos públicos coloca de novo Jesus contra os fariseus de todos os tempos. E os exemplos são diversos. Vamos aos postos de saúde, aos hospitais, e não encontramos médicos disponíveis, medicamentos gratuitos, atendimento digno que respeita a nossa saúde ou a falta dela. Os leitos são insuficientes e não há reverência para com os enfermos. As nossas escolas estão sucateadas, o ensino é precário e ineficaz, os professores são maus remunerados, os estudantes não usufruem mais de uma cultura autóctone e refinada.

Recentemente foram retiradas da grade curricular disciplinas indispensáveis para a formação humana, cívica e moral do estudante, tais como filosofia, sociologia e artes. Matérias que os levam a pensar e refletir criticamente. As nossas crianças, portanto, vão crescer sem o acesso a essas disciplinas que geram em nós humanidades. O Governo não está preocupado com a formação crítica do cidadão, pois, desse modo, ele será melhor manipulado pelo braço opressor do Estado. A construção de uma sociedade mais culta, esclarecida e consciente não lhe agrada. Não é do seu interesse. Porque, quanto menos consciência tivermos, mais tutorados seremos. Quanto menos soubermos de tudo, melhor para o ele. O povo é maltratado, pisado e desconsiderado. E quem é este povo? Somos todos nós. Aqueles que elegemos são os fariseus de hoje. Aqueles que estão na Câmara, no Senado, no Palácio e até mesmo na Corte Suprema do país, são indignos do cargo que exercem quando não estão a serviço do povo. Suas ações demonstram isso.

Desde a constituição de 1988 espera-se uma reforma tributária, mas eles não fazem-na. Taxar grandes fortunas, grandes heranças, não é do interesse dos que estão em Brasília, porque eles seriam os primeiros atingidos por ela. A carga tributária mais pesada está sobre os pobres, que não tem mais de onde tirar. Fizeram uma reforma trabalhista que, na verdade, propicia uma divisão ainda mais aguda em nossa sociedade entre ricos e pobres. Estamos vivendo situações análogas à escravidão. Há pouco, uma portaria do ministério do trabalho tornou mais burocrático a fiscalização de trabalhos forçados, jornadas exaustivas e situações que comprometem a dignidade do trabalhador. Não serão mais fiscalizadas como antes. O presidente Michel Temer curvou-se aos ditames das elites, e atende a um pedido antigo da bancada ruralista. A portaria ocorre justamente na semana em que a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) analisa mais uma denúncia contra o presidente Temer que teve o despautério de exonerar oito (08) ministros para retornem aos seus mandatos na câmara a fim de defendê-lo das acusações que reiteradamente são levantadas contra ele. Pouco importa os Ministérios e suas atribuições. O que realmente está em jogo é o poder. E para se manter no poder, Temer e seus sequazes vendem a alma ao diabo. A OIT (Organização Internacional do Trabalho), entre outros órgãos nacionais e internacionais, denunciou veementemente a portaria do Ministério do Trabalho: o Brasil deixou de ser um modelo na defesa contra o trabalho escravo e passou a ser modelo negativo.

No Evangelho de hoje, Jesus  está fazendo uma dura crítica aos salafrários da vida pública, aos homens e às mulheres indignos da política, aos fariseus de nosso tempo: “Dai a César o que é de César; dai, pois, a Deus o que é de Deus”. Em outras palavras, o Mestre está dizendo: “Não mexam com o meu povo. Não o ofenda; não o oprima, pois Deus mesmo se levantará em favor dele”. Eis a razão de nossas invectivas: Ai daquele (s) que toca e fere a santidade de Deus presente em cada homem e em cada mulher. Ai daquele que se colocar contra Deus. Ainda que a justiça deste mundo seja lenta, cega e burra, e seja explicitamente parcial, a justiça de Deus é certa. Mais cedo ou mais tarde, ela há de vigorar. Na primeira Leitura (Is 45, 1. 4-6), por meio do seu profeta, Deus afirma categoricamente: “Eu sou o Senhor. Não há outro fora de mim”. E é Deus mesmo quem se levanta em favor do seu povo. Ele o libertador por excelência. O único capaz de nos salvar, efetivamente. Ele levanta homens e mulheres para serem seus parceiros nessa libertação. Se os cristãos não corresponderem ao projeto de Deus, Ele levantará outrem, independentemente de religião ou de quaisquer outros atributos, pois sua decisão já foi tomada: Ele vingará o seu povo.

Portanto, não tenhamos medo. Anunciemos com coragem o Evangelho da Boa-nova de Jesus Cristo, mas denunciemos as injustiças presentes no mundo. Esses que aí estão, não nos representam. Eles, na sua maioria, têm as mãos cheias de crimes e do sangue de inocentes. Todos os que buscaram uma vida digna e não a encontraram, por culpa dos desvios de verbas, das propinas e da corrupção política, ativa ou passiva, foram vítimas dos crimes de políticos desonestos e inescrupulosos. A comida arrancada da garganta da criança faminta, o lápis e o caderno furtados das mãos dos estudantes, a consulta e a cirurgia negadas ao paciente, o posto de trabalho fechado ao desempregado e a violência sofrida em nossas cidades são resultados dos muitos crimes de nossos governantes. Deus, presente nos inocentes, foi aviltado. Ai de quem tem nas mãos o sangue de um inocente. E pior: ai de quem traz consigo a responsabilidade da morte de um inocente. Deus, em sua santidade, é quem foi ultrajado. Ai de quem se colocar contra Deus. Que Ele, portanto, cumpra com a sua promessa e não demore em nos faz justiça.

Assim seja!

XXVIII Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste domingo vai na esteira dos domingos anteriores, e repropõe o tema do Reino dos Céus: “O Reino dos Céus é comparado a um rei que celebrava as bodas de seu filho”. Ao comparar o Reino dos Céus com uma festa de casamento, Jesus está afirmando algo essencial: participar do Reino dos Céus é motivo de verdadeira alegria. Infelizmente, há muitos que não se deixam entusiasmar por sua dinâmica libertadora. Há cristãos com “cara de velório”, andam tristes e cabisbaixos pelo caminho. Não anunciam a boa-nova e tampouco denunciam as injustiças. Jesus está contando a parábola para os magnatas do poder e as elites vigentes; os anciãos do povo, os mestres da lei e os sumos sacerdotes. Eles, diferentemente do povo, estavam em festas constantes. O povo, os simples e humildes de Israel, por sua vez, eram sempre privados das alegrias sociais. Logo, ao comparar o Reino dos Céus com um banquete nupcial, Jesus denuncia esse pecado social e anuncia a largueza do convite de Deus: é para todos, indistintamente.

A primeira coisa a se notar é que as bodas do filho é celebrada pelo pai com grande pompa e circunstância. O pai é meticuloso na preparação. Ele se ocupa do cardápio à lista de convidados. Na leitura do profeta Isaías (Is 25, 6-10) ficamos sabendo que essa festa tinha Israel como convidado de honra. “O Senhor dos exércitos preparou para todos os povos, nesse monte, um banquete…”. O local escolhido foi o “monte”, a colina santa, Jerusalém. Dali, seria anunciado o convite para a festa: o Reino dos Céus. No menu, estava o que havia de melhor: carnes gordas e vinhos velhos purificados. Era de praxe que o anfitrião, além de oferecer o banquete, desse aos convidados um agrado em sinal de amizade e de alegria pela presença. O profeta elenca os melhores presentes possíveis; as lágrimas serão enxugadas, o pranto haverá de cessar, o sofrimento terá fim e a morte perderá sua onipotência. O contexto de festa será mesmo régio e digno. Ninguém poderá faltar. Todavia, não é bem assim que as coisas se desenrolam.

O Rei do Evangelho (Mt 22, 1-14) – Deus – envia os seus empregados – Profetas – para convidar os nobres, os grandes e os considerados “pessoas gradas” da sociedade para a festa de casamento do seu Filho – Jesus -. Aqueles, como lhes são de praxe, recusam. Alguns dão de ombro. Tratam o convite com desdém e indiferença. Outros, muito ocupados com os seus afazeres, recusam-no. Vão cuidar de suas propriedades. São grandes latifundiários, pecuaristas, empresários e com uma única preocupação: aumentar a receita de seus negócios. Não têm tempo para festas oferecidas pelo “Rei”. E há aqueles que usando de violência, ferem e matam os empregados do Rei. Um absurdo! É incompreensível que tenham agido assim apenas por terem sido convidados para uma festa. Na verdade, são homicidas contumazes, criminosos por opção e dados ao banditismo em larga escala. O Rei fica irado e vai à desforra. Envia suas tropas e faz justiça com as próprias mãos. E dá uma nova ordem: “ide às encruzilhadas e convidai para a festa todos quantos achardes pelo caminho”. Os primeiros (Israel) não foram dignos do convite real. Alargado, agora serão convidados todo tipo de pessoa (todos os povos): ricos e pobres, são e dontes, justos e injustos, santos e pecadores. Todos, sem exclusão nem predileção.

Mas, o que significa precisamente essa festa? Significa aderir à justiça do Reino de Deus. Vivê-la e disseminá-la em todos os lugares. É comprometer-se com a construção de um mundo mais equânime e fraterno, sem violência ou maldade de qualquer espécie. É sentar-se dignamente à mesa do Rei e estar trajando a veste adequada que significa a adequação da vida à proposta evangélica de justiça e de direito para todos. Não pode haver impunidade nem qualquer tipo de injustiça. Infelizmente, nem todos estão vestidos corretamente. Diz o Evangelista que ao andar pelo salão, o Rei se deparou com um que não estava vestido adequadamente para a festa. O que, aos olhos do leitor real, soa como um contrassenso, afinal, muitos foram pegos de surpresa, sem tempo de se preparem a rigor para a ocasião. Mas o Rei é altamente exigente: ao aceitar o convite, o conviva deve se portar com a decência que o local e o contexto exigem. Não há desculpas nem justificativas: Ou se está vestido adequadamente ou será retirado, ainda que à força.

Portanto, não estar com a veste é não está comprometido com a lógica do Evangelho e com a justiça do Reino. Não pode permanecer no recinto festivo quem é dado à desonestidade, à mentira, aos contra-valores, os que se vendem ao “deus mamon”, isto é, à ganância e ao acúmulo de bens a qualquer preço. Os corruptos e os injustos, os criminosos e os violentos, os amantes do poder e os que sonegam e desviam “milhões” para suas contas pessoais não poderão permanecer no banquete real. Não serão bem-vindos. Serão expulsos e postos para fora. Consumidos pela tentação do poder, homens e mulheres se transviam para o lado tenebroso da esfera pública: deixam-se corromper pelas inúmeras facilidades que o cargo que ocupam lhes conferem. Regalam-se nas muitas oportunidades que o poder democraticamente conferido lhes proporciona. Aceitam, sem o incômodo de uma moral ética, as benemesses  altamente questionáveis. E onde está o mal?

O mal se manifesta quando já não estão mais voltados para aquilo a que foram destinados: o bem comum. Quando um político já não governa para os interesses de seus concidadãos, mas tão somente para os interesses próprios ou os de seu partido, ele já não é mais digno do cargo. Desconfigurou-se de sua missão. Legisladores e habitantes de uma casa comum – congresso, câmara -, seus olhares e atenções deveriam estar continuamente voltados para as realidades daqueles que representam. Porém, ao se deixarem cegar pela cobiça, pela ganância, pela maldade e pelo dinheiro fácil, tornam-se automaticamente inaptos para a missão altaneira de serem dignos representantes do povo que os elegeu. No mito de Sófocles, quando se deu conta de que havia cumprido com o seu fatídico destino, Édipo fura os seus olhos para não ter que contemplar a desgraça da qual fora o autor. Diante do mal, esta atitude o dignificou. A sua consciência límpida e sua incapacidade de servir ao mal e à morte o obrigaram a uma atitude drástica: cegar-se para continuar existindo. Talvez essa opção fosse uma das mais dignas para os políticos corruptos. Mas para isso teriam que adquirir consciência acurada, e ela precisaria lhes causar um certo asco. Acreditar nisso é, infelizmente, o mesmo que acreditar nas promessas de campanha. Nosso coração já não se comove mais.

Todavia, há uma realidade que não precisa de consciência nem tampouco de adesão. Um político que se corrompe, um homem ou uma mulher que se decidiu pela vida política e, no seu exercício, macula sua função com as vias fáceis de um poder corrupto e sanguinário, é alguém que afronta diretamente a Deus e sua dignidade divina, pois põe em risco a obra prima de sua criação: a vida humana. Por esta razão, um político corrupto não é só alguém que rouba, que desvia milhões para contas pessoais e de familiares, ou do partido político a que pertence. É também um assassino. Um homicida que arranca da garganta das crianças o pão a que elas teriam direito; que impede o cuidado com a saúde dos idosos e dos acamados em corredores de hospitais, que atrasa a cirurgia que esperam há anos e impede o recebimento dos medicamentos básicos para sua sobrevivência. Um político corrupto é também um assaltante, pois arranca das mãos dos jovens os seus sonhos mais profundos de um futuro promissor, de uma educação aclarada e de um modo de vida mais digno e feliz. Um corrupto que desvia dinheiro público e que se recusa a governar para o povo e a romper com os ditames de morte introduzidos em larga escala nos porões dos governos de uma nação democrática são faraós e Herodes.

Um corrupto desavergonhado é como aquele homem insensato que, após ter abarrotado os seus celeiros, diz a si mesmo: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga”, ao que Deus responde: “insensato. Hoje mesmo pedirei contas de tua alma” (cf. Lc 12, 13-21). O político corrupto é um louco que, pensando estar ganhando a vida, acumulando deslavadamente milhões em contas pessoais, cogita uma vida eterna aqui neste mundo. Insano, pois, nem mil vidas seriam o bastante para gastar todo o patrimônio escandalosamente acumulado. Também a esse, Deus, o justo juiz, pedirá contas. Assim sendo, uma vez que durante toda a sua vida mostrou-se um ferrenho oponente de Deus e dos valores de seu Reino, a saber, justiça, equidade, honestidade, misericórdia e solidariedade, esse homem se colocou frontalmente contrário a Deus e à sua proposta de comunhão. Por que aderiu ao reino de morte e às fétidas ações de um reino corrompido e mortífero, tal homem sequer poderá ser levado à presença do altíssimo, que despede de mãos vazias os ricos e enfarados e soergue os humilhados. (Cf. Lc 1, 46ss).

Um político corrupto é, portanto, alguém que renegou com gestos, palavras e ações, ao direito à vida plena conquistado a preço alto pelo sangue do Líder dos lideres, daquele que, pondo-se a serviço de todos ensinou-nos irrevogavelmente o que significa o poder. Porque ousou viver assim, um político corrupto é alguém que não herdará a vida eterna: a vida feliz junto de Deus. Aquele Deus do qual nossa alma tem enorme saudade e no qual, repousando n’Ele, nosso coração tem descanso. (Santo Agostinho). Um corrupto, seja ele quem for, jamais verá a Deus. Será retirado do recinto real e não poderá participar do festim celeste, do banquete que para todos foi preparado. Seu destino será a tristeza de uma eternidade longe do amor misericordioso do Senhor, cuja justiça é dar a cada um o que esse buscou livremente durante toda a vida.

Terça-Feira da XXIV Semana do TC

O Evangelista Lucas, embora não tenha sido apóstolo direto do Senhor, mas de Paulo, em seu trabalho de historiador mais parece um arqueólogo a cavar as histórias jesuânicas a fim de que a sensibilidade e as demais emoções de Jesus sejam percebidas nitidamente. O Mestre não esconde suas emoções de si nem tampouco daqueles que o acompanham, quer discípulos quer multidão.

A narrativa da viúva de Naim (Lucas 7,11-17) é única nos Evangelhos, peculiar do jeito lucano de se interessar pelos meandros da história, como que para adentrar o interior de cada personagem de seus relatos, como médico com o seu bisturi.

Olhando de longe, a gente se dá conta de que o contexto da época era totalmente desfavorável para a mulher: sua dignidade estava atrelada à figura masculina do pai, do esposo ou do filho. Diz o evangelista que aquela viúva em questão era mãe de filho único e que esse jazia morto no esquife. Logo, para sobreviver e não morrer de fome aquela mulher viúva estaria destinada aos guetos da mendicância e/ou da prostituição. A pobreza há muito que batera à sua porta.

A figura da viúva, não nomeada, parece trazer tantas outras que as Sagradas Escrituras nos recordam e outras tantas, atuais, que a história não nos deixa esquecer: tais como as muitas mulheres vitimadas pela dor da perda de seus filhos pela violência urbana, pelas imprudências de trânsito, pelo excesso do álcool, das drogas, entre outros. Sem falar daquelas que são violentadas por seus esposos, namorados, pais, e desconhecidos.

Como não nos lembrar daquela de Sarepta (cf. I Reis 7, 17-24) que se colocou solícita com o profeta Elias, dando-lhe a comer do pouco que restava para si e para seu filho? Os livros sagrados estão permeados de normativas para que tanto a viúva, quanto o órfão e os pobres sejam amparados em seus dissabores, pois tanto um como o (s) outro (s) são objetos da benevolência divina que não deseja a pobreza, mas se identifica e se apieda dos acometidos por ela, lançados por isso à marginalização e a exploração.

Saltam-nos aos olhos o detalhe que Lucas evidencia: “acompanhava-a muita gente da cidade”. É de se estranhar, se levarmos em conta que em velório de pobre não comparece tanta gente como quer enfatizar o autor sagrado. Seria um “exagero literário” para ampliar o fato apresentado? Ou teria mesmo aquela morte causado profunda consternação nas pessoas que, seguindo a dor da mãe que enterrava o filho, sabedores do calvário que a ela estava destinado, quiseram lhe fazer coro? Tanto faz.

O fato é que a dor daquela mãe, viúva e pobre, causou em Jesus o mais basilar dos sentimentos humanos: a capacidade de se colocar no lugar do outro; melhor: colocar-se junto ao outro e sofrer com ele a sua dor: na mesma medida, assumindo-a como sua. Jesus mostra-se pleno e integrado em sua humanidade. Ele se deixa interpelar pela vida de quem por Ele passa. Não olha de longe, simplesmente, nem se deixa tocar por um dó politicamente correto. Não. Ele assume aquela dor como sua e a sente profundamente.

Por causa daquela dor e daquele infortúnio, Jesus muda a sua rota, o seu trajeto e altera sua direção. Tudo o mais é protelado, pois, diante dEle uma vida vai só, embora acompanhada, mas duas serão enterradas: a do filho morto e a da mãe viúva. Diante do cadáver inerte do filho e da vida minguada da mãe, Jesus para o cortejo de dor. Interrompe o trajeto cadavérico e impede a morte de continuar. Toca o esquife, isto é, assume para si aquela morte: morre com ela para ressuscitá-la. Dirige-se ao morto e o chama à vida: “moço, eu te ordeno, levanta-te!”.

A autoridade de Jesus diante da morte é a mesma que o fará entregar-se à morte para cessá-la uma vez por todas, na cruz. Ordenar que a vida volte ao corpo do jovem é testemunhar perante aquela multidão reunida, e especialmente para os seus discípulos, que Ele é “a ressurreição e a vida e quem nele crer, ainda que morto, reviverá” (cf. Jo 11, 25). Não se trata aqui de uma ressurreição em estrito senso, pois novamente aquele jovem, quem sabe na velhice e depois de sua mãe, como costumeiramente chamamos de natural, voltará a morrer. O que houve com aquele jovem foi uma “reanimação do cadáver”. A ressurreição é para além deste tempo e deste espaço, como nos sugere a escatologia vigente, embora dela só possamos dizer uma penúltima palavra.

O jovem, voltando ao seio familiar, ao colo e à convivência da sua mãe põe fim a uma série de contratempos, como aludimos acima. A compaixão de Jesus é compreensível e ainda mais louvável por sua capacidade de entremear-se na história e transformá-la consideravelmente. A primeira atitude do jovem reanimado foi falar.

De fato, a palavra é constitutiva da pessoa que se torna indivíduo autônomo, livre, responsável e senhor de si. Ele fala, pois a vida lhe foi dada novamente: o ar vital o percorre e ele pode se comunicar. A palavra, afinal, rompe o silêncio e a mudez causados pela frieza e desesperança da morte. Jesus o entrega a sua mãe. É a entrega vivaz, pulsante, cadenciada e ritmada dos corações que se alegram e vibram pela vida que agora vive novamente. Diferente de Jesus na cruz que, morto, será entregue desfalecido aos braços silenciosos de Maria, sua mãe, como quis a sensibilidade artística de tantos poetas das tintas esboçar [como a pietá de Michelangelo].

Frente ao evento estupefato que viu, a multidão incrédula e absorta pelo fantástico, pelo maravilhoso, enche-se de temor e tremor, sinais concretos daquilo que nos escapa e que não podemos discernir bem. Estão todos envoltos pelo mistério da vida. E maior milagre não há. E a confissão que fazem não é outra, senão a comprovação de que “Deus voltou seus olhos para o seu povo”. Outra frase que nos faz pensar: Em que momento Deus havia distanciado o seu olhar? Para onde ou para quem Ele estaria olhando senão para o seu povo?

Talvez como hoje, os desafortunados da época, sufocados por tantas mazelas e infortúnios, não conseguissem fazer a experiência da proximidade e do amor de Deus que os acompanha, colocando-se junto a cada um que sofre e morre. Talvez faltassem aos homens e às mulheres de outrora, como a muitos de agora em nossa história, quem lhes despertasse a esperança e a convicção de que Deus jamais estará do lado dos grandes que oprimem, sejam eles de que ordem e posto forem.

Não faltou e não faltarão na história homens e mulheres de alma pequena, pusilânimes, que recolhem até as últimas migalhas daqueles que nada têm ou possuem. Basta olharmos atentamente para nossos jovens, pais, mães, crianças e anciãos preteridos do mínimo para sobreviverem e terem uma vida condizente com a dignidade de pessoas. E não precisamos ir longe ou distante de nós: para onde vão tantos impostos que opressivamente somos obrigados a pagar? E o direito inelutável de cada homem e de cada mulher de terem sua saúde, sua moradia, seu emprego, sua educação e sua segurança garantidos pelos poderes constituídos?

A vida de Jesus e o modo como Ele a viveu é a maior e mais terrível denúncia feita aos ditames que matam e impedem a vida de continuar. Enquanto nos furtarmos deste horizonte cuja imagem privilegiada é a vida digna para todos, nossa missão será equivocada, inerte e morta como aquela a passear dentro de um esquife. De nada valerá nossas lágrimas, nossos lamentos e nossas parcas indignações se diante da dor e da “morte alheia” não ousarmos parar o trajeto e ordenar que o ciclo mortífero tenha fim para que a vida possa de novo voltar.

Oxalá o Senhor da vida e da História nos (re)anime uma vez mais, nos ajude e nos encoraje até as últimas consequências.