Um padre não se torna pastor no dia em que ordena. É bem depois, e aos poucos.

Primeiro, a Igreja lhe confia uma porção do povo de Deus. Ele então se aproxima; ambos estão desconfiados. Nenhum deles ainda é capaz de reconhecer a voz um do outro. A ovelha e o pastor estão ariscos. O vozerio no redil sempre foi intenso. Houve outros pastores, haviam outras ovelhas e o terreno e o clima podem ter sido hostis. Mas o que contará, de fato, será a persistência do pastor e a docilidade das ovelhas. Um e outro terão que se deixar alcançar. O processo será longo.

Depois, à medida que o tempo passa, as barreiras diminuem, as porteiras se abrem e a planície enverdece. O coração do pastor, enfim, amadurece. Como fruto temporão, ele saberá oferecer o seu melhor sabor. Ele já não se deixará levar pelas intempéries do mau tempo. Ele aprenderá a se antecipar ao sol. E como chuva primaveril, regará a terra.

O padre se torna pastor é no exercício do seu pastoreio. É junto daqueles que a mãe-igreja lhe confiou. E seu maior aprendizado – e esse será o seu mérito – é o de amar indististintamente. Cuidar de todos sem reservas nem predileções. Amar o que lhe parecer mais difícil; respeitar o caluniador, quem o difama e o persegue. Ser pai para quem não deseja ser filho e irmão para quem insiste em ir sozinho. Corrigir os que teimam em ser à parte e incluir quem preferiu se excluir.

Um padre é realmente pastor quando se importa mais com a felicidade dos seus do que com a sua própria. Quando seu cansaço e solidão, ignorados pelas ovelhas, são oblação constante e se traduzem em vigilância e sacrifício pelas vidas sob sua proteção.

Ali, sobre o altar, o padre tornado pastor é alimento para quem chegou com fome e com sede de plenitude e, sem perceber, foi saciado pelo alimento que nutre uma vida inteira e para a vida eterna: Eukharistein. Eu sou padre graças ao povo. Para o povo e com o povo. O povo me tem feito pastor, diuturnamente.

Oxalá, o meu coração, no exercício do meu ministério presbiteral, se deixe configurar ao Coração Sacerdotal de Jesus, o único e verdadeiro modelo do “Bom Pastor”; aquele que doa a vida por suas ovelhas.

 

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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