“Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia. Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2, 23-25).

Particularmente, gosto muito desse trecho do Evangelho de São João. Considero-o um dos mais fortes em todos os evangelistas. Ele expõe, em carne viva, a humanidade do Cristo. Sua humanidade não era distante nem diferente da dos demais homens com os quais conviveu. Ele os conhecia por dentro, isto é, Ele era também humano e sabia, muito bem, do que o homem é capaz. Somos capazes do melhor e do pior; do mais belo e do mais feio, podemos ascender ao máximo ou descer às baixezas das realidades humanas. Jesus não era facilmente influenciável. Ele não se deixava enganar pela aparência.

Esse trecho está logo depois do episódio da expulsão dos mercadores que haviam se instalado no Templo, lugar do culto e do sacrifício ritual. Ali, se vendia de tudo: desde o par de rolas até o cordeiro sem mancha, para as celebrações anuais do Yom Kippur (Dia do Perdão) ou para simples rituais de purificação. Era um comércio “necessário” e que se ajuntou ao redor do Templo como hoje, em nossas igrejas: tendas e mais tendas de souvenires e apetrechos religiosos para os fiéis devotos, seus familiares e amigos. É quase impossível pensarmos em um grande centro religioso sem o apelo do consumismo e da publicidade religiosa. Tudo, absolutamente tudo, se torna item de decoração, lembrança e, claro, de lucro.

Ao ler o texto do Evangelho (João 2,13-25) podemos pensar, facilmente, que é disso que se trata o imbróglio todo. Sim e não. Mas é mais do que isso. Esse dado é secundário e, em certa medida, até irrelevante. A grande questão para Jesus é com relação à manipulação da religião para fins escusos. Religião não foi feita para escravizar ninguém. Antes, deveria ser causadora de verdadeira libertação, tomada de consciência e transformação das realidades injustas. Infelizmente, nem sempre foi e é assim. O Templo, como lugar tangível da religião, estava mais a serviço dos grandes, dos poderosos, do sistema opressor e desagregador do que para o anúncio da boa-nova do Reino e da denúncia dos seus contra-valores. Havia pouco interesse e compromisso para com os pequenos, os desamparados e oprimidos. Os religiosos eram uma casta de privilegiados que, associados ao poder político e econômico, mantinham o status quo, pois também se beneficiavam dele.

A ira de Jesus é justificável. Afinal, como o anunciador por excelência do Reino do Pai, Ele tinha o grave dever de denunciar os descaminhos e as incoerências, sobretudo, daqueles que se diziam tementes a Deus. Sua revolta não é contra o que fizeram com o Templo físico que, a bem da verdade, foi relativizado na Sua pregação. O Templo perdeu a sua função e a sua exclusividade. Não é mais nele ou unicamente através dele que o homem poderá se conectar com o Transcendente: “Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias” (vv. 19). O verdadeiro Templo agora será outro: o próprio Cristo; e mais: cada ser humano. Todo homem e toda mulher se tornaram, depois de Cristo, lugares teológicos por excelência.

O absurdo denunciado por Jesus está no fato de que, muitos desses templos – vidas humanas – estão sendo manipulados, desrespeitados, injustiçados, esquecidos, oprimidos e mortos, inclusive pela religião, com a anuência ou o silêncio dela. Há muitos famintos, violentados e abandonados entre nós. A religião, nesse sentido, continua sendo em muitos casos promotora de discriminação, preconceito e indiferença. Ainda nos preocupamos demasiadamente com os ritos e com o culto, com as normas e as rubricas, e pouco nos importamos com as realidades de morte e de violência, de opressão e de injustiça, de mentira e de corrupção, presentes no mundo. O clamor dos desempregados, dos sem lazer e cultura, dos jovens e das crianças sem escola, dos enfermos sem hospitais e atendimento digno, dos encarcerados em prisões desumanas e sem o mínimo de condição de ressocialização, das muitas vítimas da violência banal e insana em nossos grandes centros, parecem nos constranger pouco ou quase nada.

O verdadeiro Templo do Senhor continua a ser desrespeitado e vilipendiado. Muitos religiosos, no entanto, leigos(as), padres e bispos, consagrados e religiosos, parecem não se dar conta do equívoco que sustentam, do qual são coniventes e até, em certo sentido, cúmplices. Em nome da religião, mataram-se milhares de pessoas ao longo da história; cruzadas, inquisições, guerras santas, excomunhões, fogueiras e incontáveis segregações. Ainda hoje, matam-se milhões em nome de Deus, de Alláh, de Buda, entre outros. Porém, em nome do autêntico Evangelho de Jesus Cristo ninguém mata; morre-se.

Oxalá, o chicote de Jesus nos acerte a todos e nos desperte desta diabólica resignação e apatia. Que a Quaresma do Senhor nos ajude a redescobrir que somos, de fato, “todos irmãos”, e que atentar contra a vida do outro é atentar contra a Santidade de Deus, pois, “o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro” (Ex 20,7). Afinal, amá-lo acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos é cumprir toda a Lei, os Profetas e o Evangelho. E é disso que precisamos, urgentemente: menos religião e mais, bem mais, Evangelho!

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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