“Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 16-17).

O encontro de Jesus com Nicodemos é revelador. Nele, se dá o principal anúncio de Jesus acerca de quem é Deus: Deus é um pai amoroso que ama e quer salvar a todos. Tudo quanto Ele fez e faz é por amor. O ato de enviar o Seu único Filho foi a expressão máxima desse seu amor pela humanidade inteira. Deus não amou nem ama apenas alguns; os da nossa congregação, da nossa igreja, da nossa religião, do nosso país, do nosso continente. Apenas os mais santos, os mais bonitos, os abastados, os perfeitos. Não. Deus ama a todos, sem distinção nem impor condições. Logo, não foi o pecado que “forçou” Deus a enviar o seu Filho. Ainda que o pecado seja uma realidade concreta e destruidora, como nos apresenta a primeira leitura (2 Crônicas 36,14-16.19-23).

O pecado, símbolo da infidelidade do povo, foi a causa do exílio babilônico, é verdade. E é isso o que o autor sagrado deseja mostrar com a sua narrativa: pecado-castigo-salvação. Os grandes do povo foram levados à fórceps para a cidade-estado da Babilônia. O Templo, lugar da materialização do sagrado e casa de Deus, foi destruído. Um duro golpe na fé de Israel. Um escândalo e uma humilhação. Neste cenário de desolação, porém, o salmista canta o amor perdoador de Deus pelos seus eleitos: “Que se prenda minha língua ao céu da boca se de ti, Jerusalém, eu me esquecer” (136/137). Deus nunca se esquece dos seus. Dizem os exegetas, que a Glória de Deus acompanhou o povo para o exílio. Deus se exilou com o seu povo na Babilônia – como hoje, Deus se refugia com os refugiados da Venezuela, da Síria e dos demais países em guerra. Deus é vitimado nas vitimas da violência, da criminalidade e da corrupção. Deus é perseguido e morto nas muitas vidas abruptamente interrompidas -.

Mas depois, no reinado de Ciro, o rei pagão da Pérsia – graças ao seu edito -, o povo pode regressar para a sua terra, sua pátria, a fim de reconstruir a vida e o Templo, inclusive. Deus cumpriu com a Sua palavra: a de salvar o seu povo das mãos do inimigo. O amor perdoador de Deus mostrou, mais uma vez, a sua fidelidade. Deus não é um Deus castigador, mas de carinho e proteção. Deus nunca castiga. O pecado é que, quando consentido, cobra um preço alto demais. Todo pecado exigirá um “resgate”, por vezes impagável. Daí um outro motivo da vinda do Filho, mas não o principal deles. Não foi o pecado a causa-mor da vinda de Jesus. Antes, foi o amor eterno e ilimitado de Deus que decidira, desde toda a eternidade, que “um da Trindade haveria de se encarnar” para revelar ao homem a sua grandeza de filho de Deus, adotado no Filho Unigênito.

Portanto, o principal motivo da vinda do Cristo foi nos revelar o amor do Pai por todas as suas criaturas. Eis a graça das graças: “quando estávamos mortos em consequência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo – é por graça que fostes salvos! -, juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, com Cristo Jesus” (Ef 2, 5-6). Logo, o mundo é objeto desse amor de Deus. Não se pode demonizar o mundo. O mundo não é o “quintal do mal”. Não caminhamos à deriva. Não fomos abandonados à nossa sorte. Ainda que as experiências de dor e de pecado no mundo sejam visíveis e reais, ele, o mundo, é criação do amor de Deus. Deus não deseja e não condenará o mundo. Aliás, condenar não faz parte da alçada de Deus. Ele só sabe e pode salvar.

Por isso, toda espiritualidade que nos proponha fugir do mundo em razão de um “céu alhures” é anticristã. Deus nos deseja comprometidos com este mundo, sobre o qual pisam os nossos pés, na superação e na transformação desta terra. É com os pés bem firmes no chão que Deus nos deseja salvar, isto é, conosco, mas não sem nós. A salvação é integral: é o homem todo, na sua totalidade. Não existe salvação sem corpo, só alma. Não há céu sem terra, sem identidade, sem história, sem encarnação. Não há Deus sem povo; sem gente. É na nossa carnalidade tão humana que Ele se deixa transpassar.

A vida de Jesus foi uma grande exposição do amor de Deus. Mesmo na cruz, e especialmente lá, Ele pregou a desmesura do amor do Pai. Esse amor foi até às mais duras e últimas consequências. Naquilo que era símbolo de perdição, loucura e maldição, como a serpente, Deus extraiu um remédio salutar: quem fora ofendido por uma cobra, ao olhar para a serpente de bronze suspensa numa haste, era curado. Pecar é como ser ferido de morte por uma serpente, uma cobra venenosíssima. O pecado é tão nocivo quanto o pior dos venenos de cobra. Mas não há pecado que Deus não perdoe. Basta que o pecador, arrependido, olhe com fé para o contrário do pecado: olhe para o inocente pregado numa cruz. Jesus é o único e o verdadeiro remédio contra todo e qualquer pecado.

Eis a alegria desta Liturgia: a de nos sabermos amados. E é esta experiência, vivida e partilhada, que nos salva radicalmente. Oxalá não tenhamos receio de voltar atrás; de ouvir o apelo do Mestre para que não fujamos nem condenemos o mundo. Basta de condenação! No mundo já existem condenações suficientes. O que o mundo precisa é do anúncio corajoso da salvação e do perdão do nosso Deus. O doente precisa de médico, de hospital e de remédios. E o nosso mundo está enfermo. Disso, sabemos muito bem. As relações estão adoecidas, e há prantos para todos os lados. Há inúmeras cruzes mundo afora. É por unguento e por paz que o mundo clama. Sejamos, pois, mensageiros da Boa-Nova alegre e feliz do Evangelho e não abutres que só sabem e sentem prazer em anunciar os vestígios da morte, cujo preço é pago pelo pecado.

Eis porque precisamos pedir continuamente a Jesus: Salva-nos, Senhor, e seremos salvos, para te anunciar ao mundo e aos homens, e não aos anjos nem aos céus, pois é sobre o mundo que se debruça o teu amor. “Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações”. Ajuda-nos a salvar o que está perdido e a perder o medo de salvar quem acredita que já se perdeu. Amém.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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