A Liturgia desse último sábado, da III Semana do Tempo Comum, de certo modo fala da situação do mundo, da Igreja e de cada um de nós. Jesus está numa barca; na barca de Pedro, segundo o Evangelista Marcos. Cansado da missão e desejoso de passar para a outra margem, Jesus procura um lugar sossegado, o fundo do barco, para descansar um pouco. Logo adormece. Uma tempestade imprevista se abate sobre a embarcação. Os discípulos ficam assustados e temem pela morte. São homens experientes na arte do mar – ao menos alguns, entre eles, Pedro, o exímio pescador -. Todavia, em relação aos fenômenos da natureza, eles nada podem fazer. Fogem à sua alçada. Inquietam-lhes, sobremaneira, a passividade com Jesus trata a situação. Ele parece não se importar: “Não te importas que pereçamos?”, questionam-lhe ao acordarem-no. Jesus, talvez ainda um pouco sonolento, mas cheio de autoridade, dá ordens para que tanto o mar quanto o vento deixem de impor medo aos seus discípulos. Após a calmaria, retorna-se para seus discípulos e os corrige: “Por que sois tão fracos na fé?”.

A situação é incomum, daí sua presença no Evangelho de Marcos. Primeiro, ela quer evocar a messianidade de Jesus: Ele é aquele a quem até os ventos e o mar obedecem. Ele tem uma exousia (autoridade) diferente de qualquer outro rabino ou mestre. Sua ação vai além da natureza; ela é também sobrenatural. Vale a pena dar ouvidos ao que Ele diz, afinal, até os fenômenos mais corriqueiros da natureza lhe prestam obediência. Depois, se este relato está ali, narrado em tintas tão concisas, mas eivado do mistério messiânico, não é por acaso. O contexto das primeiras comunidades cristãs é também de “mar bravio”. Elas passam por todo tipo de dificuldades: perseguições, desentendimentos, incompreensões, brigas internas, violência e morte. Muitos pensam que foram esquecidos pelo Senhor. “Estaria Ele dormindo enquanto nós perecemos?”. Essa era a indagação de muitos dos primeiros cristãos. Então o Evangelista tem como intuito corrigir essa visão distorcida: “Não sejamos fracos na fé. Ele nunca nos abandona e tem o poder de por tudo isso em ordem; em silêncio”, é o que os líderes tentam incutir nos corações mais sobressaltados.

Depois, o símbolo do mar é altamente judaico. Ele representa o mundo, e tudo aquilo que é adversário ao Reino de Deus. O mundo é um lugar hostil para os cristãos. Viver neste mundo, tantas vezes mergulhado na corrupção, na mentira, na violência, na perversão e nos mais diversos tipos de crimes é um grande desafio para os discípulos de Jesus Cristo. Eles são agitados por todos os lados. São postos à prova o tempo todo. Sua ações devem destoar das desse mundo e, apesar dos atropelos da missão de anunciar a Boa-Nova da Salvação, é preciso não se esquecer do essencial: Jesus Cristo encontra-se na barca da Igreja. Aqui, um outro símbolo importantíssimo. A igreja desde o início do cristianismo foi tida como a “barca” em que o Senhor, seu esposo, se encontra. Uma pequenina barca que deve atravessar pelo mar da história anunciando, com coragem, a Salvação trazida por Jesus.

Por vezes, a experiência da Igreja foi a de ser sacudida e invadida pelas ondas agitadas e inimigas desse mar bravio que é o mundo. Ao longo da história não faltaram ocasiões em que os discípulos se perguntaram, com honestidade: “Senhor, não te importas que pereçamos?”. Foram muitas as perseguições, mortes, escândalos, pecados, contratestemunhos, vícios e uma infinidade de crimes. Houve momentos realmente obscuros no seio da Igreja. Cismas, heresias, torturas, inquisições, cruzadas, puritanismo, hipocrisia, divisões e muitas outras situações que envergonharam o Evangelho de Cristo. Homens e mulheres, clérigos e leigos, que se prostituíram com esse mundo e renegaram a esponsalidade com Jesus, o único e verdadeiro esposo da Igreja. Porém, mesmo em meio a tantos revezes, Jesus permaneceu no barco de Pedro, com a Sua Igreja. Dos seus discípulos, Ele continua pedindo uma única coisa: “Não sejais fracos na fé”. A fé nos faz enfrentar com coragem, ousadia e dignidade qualquer dissabor.

Por fim, também a nossa vida, frágil e humana, não poucas vezes se vê agitada por ventos contrários. São dificuldades de toda ordem: pessoal, afetiva, sexual, financeira, intelectual, psicológica, familiar e tantas outras. Sentimos, nesses momentos, como se a barca da nossa existência fosse ser lançada contra as pedras do caminho. A morte parecia ser inevitável ou talvez a melhor das opções. Somos incompreendidos, julgados, condenados, difamados, caluniados e perseguidos. Diante dos maiores dramas, humanamente sentimo-nos sós e relegados à própria sorte. Faltam-nos o ânimo e a esperança para acreditar em dias melhores. Aliás, os dias futuros nos parecem os mais sombrios possíveis. Estaria Jesus dormindo o sono dos indiferentes? Teria Ele se esquecido de mim? Onde está Deus? Ele realmente existe? E se existe por que não se importa comigo? Sou, de fato, amado por Deus?

Em todos esses contextos, de dúvida, de dor, de pecado e de desespero, a Liturgia desse último sábado nos convida a darmos um passo na fé. Talvez este passo seja “acordar Jesus”. Os discípulos, no medo e no terror, foram a quem de verdade poderia fazer alguma coisa. Jesus, embora os tenha repreendido, fez o que deveria ter sido feito: deu ordens ao vento e ao mar e tudo se acalmou. Disse-lhes: “Silêncio! Cala-te!”. Ora. Quantas vezes precisamos desta ordem de Jesus diante dos maremotos de nossa vida e de existência cristã! Também frente aos arrochos da história, nas calamidades éticas e morais do mundo em que vivemos, e nas intempéries eclesiais que presenciamos, necessitamos da autoridade do Mestre que põe tudo em ordem e em paz.

Portanto, diante dos momentos inglórios pelos quais passarmos, seja em que âmbito for, não tenhamos receio de acordar aqu’Ele a quem até o vento e o mar obedecem, e lhe falemos com sinceridade discipular: Senhor, não te importas que pereçamos? E nós já sabemos, pelo Evangelho, que Ele realmente se importa com a barca e seus tripulantes. Ele irá corrigir nosso olhar, preso às vicissitudes temporais, e o disparate do nosso coração que ainda crê titubeante, porque é Mestre, mas também se encarregará de nos ajudar a atravessar em segurança pelas vielas do mundo, da Igreja, e aquelas muitas outras pessoais, para chegarmos em segurança à outra margem.

Assim seja.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

One thought on “Jesus e as muitas tempestades

  • Eunice Alves28 de janeiro de 2018 at 12:51

    Amooo demais suas sábias palavras. Deus te cubra de muitas bênçãos e felicidades anjopadre

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *