Desde o Antigo até o Novo testamento não nos faltam figuras femininas de expressiva lembrança. Muitas delas são o que comumente chamamos de “personalidade corporativa”, pois vão muito além delas mesmas, representado uma casta, embora discriminadas e marginalizadas; outras, um povo, uma tribo, um clã, e, algumas delas, solitárias, como a figura da viúva, eram obrigadas a viver numa condição social indigna para qualquer ser humano. Eis o nome de algumas dessas: a viúva de Sarepta, Rute, Holda, Ester, a mãe dos irmãos macabeus, Susana, Isabel, Maria – mãe de Jesus -, Maria Magdala – a quem Jesus ressuscitado apareceu por primeiro -, Marta e Maria – amigas pessoais de Jesus -, Lídia, Priscila, Febe e outras diaconisas colaboradoras do Apóstolo dos gentios.

As mulheres estão presentes ao longo de toda a vida de Jesus. Tudo começa com o anúncio feito a Maria (Lc 1 – 2), sua mãe, e termina com a ternura das mulheres chorando sua morte e velando seu túmulo. Há uma presença constante das mulheres no grupo dos 12: (Lc 8, 19); no caminho do calvário (Lc 23, 27 – 28) onde inclusive Ele as consola, não obstante a dor e o sofrimento; aos pés da cruz (Jo 18, 25; Mt 27, 55); na sepultura (Lc 23, 56; Jo 20, 17; Lc 24, 9); no cenáculo (At 1, 14). Os Evangelhos, concomitantemente, põem na boca de Jesus vários vocativos referentes à “Mulher ”: nas bodas em caná (Jo 2, 4), à samaritana (Jo 4, 21), à cananeia suplicante (Mt 15, 28), a uma mulher possessa, encurvada (Lc 13, 12), à uma adúltera (Jo 8, 10), no calvário, à sua mãe (Jo 19, 26), à Maria de Mágdala (Jo 20, 15), a “apóstola dos apóstolos”.

Jesus nunca se deixou intimidar pelo contexto excludente, machista e misógino de sua época. O ideal bíblico baseado no modelo patriarcal era de famílias numerosas, o que obrigava as mulheres a terem muitos filhos, pois isso era visto como um sinal explícito da benevolência divina. A Mulher, no entanto, era respaldada única e exclusivamente pela tutela de um homem: seu marido, filho, pai ou senhor. Sozinha, ela era ninguém: uma indigente, desprezada e deixada à mercê da própria sorte. A mendicância e a prostituição eram destinos certos. O testemunho de uma mulher valia tanto quanto o de uma criança, um escravo ou um animal, ou seja, nada. Jesus, porém, não se intimidou, mas ao contrário, aproximou-se delas deixando-se “tocar” por mãos tão femininas, sensíveis e humanas, podendo, inclusive, contar com a colaboração primorosa e direta de tantas mulheres durante todo o seu ministério.

Ao longo da história das primeiras comunidades judaico-cristãs, muitas mulheres abriram suas portas aos novos convertidos e os assistiam com seus bens e talentos. Paulo cita especialmente “um bom número de gregos que adoravam o Deus único, e não poucas mulheres da alta sociedade” (Cf. At 17, 4). Menciona também a conversão de Lídia (cf. At 16, 14), a hospitalidade de Priscila que o recebe em Corinto (cf. At 18, 2). Na carta aos Romanos, Paulo envia longas saudações a todos aqueles que o sustentaram. Um quarto dessas pessoas são mulheres, e ele fala calorosamente delas (cf. Rm 16, 1-16). A partir desse dado, é lógico nos perguntarmos: Onde estão as colaboradoras da Igreja primitiva de hoje? Onde e como estão essas abnegadas servidoras do Sagrado?

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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