O que sempre me atraiu em Jesus foi sua humanidade; sua capacidade de se colocar no lugar do outro, sua sensibilidade e compaixão para com todos, especialmente para com os mais sofredores.

Sem cerimônias, Jesus rompia com os ditames enviesados do seu tempo. Ele não tinha medo nem escrúpulos de “sujar as mãos” com os “delinquentes” de seu tempo, algo louvável para um líder carismático, mas tão escasso em nossos dias. Ele não estava preocupado com a opinião alheia, o que iam dizer dele ou das suas ações em favor dos excluídos. Diante de alguém, importava-lhe tão somente a pessoa e o que ela estava passando.

Ele realmente se importava com as pessoas. Por causa delas, Ele enfrentou o sistema opressor do seu tempo. Denunciou com coragem os desmandos e as incoerências da Lei, da Política e da Religião. Ele foi um “subversor” dos protocolos vigentes. Com sua ousadia e coragem, fazia emergir o Espírito da Lei que deveria, antes de tudo, salvar e não condenar; dar vida e não promover a morte. Sua postura intrépida tinha o poder de acordar as consciências mais adormecidas e amainadas pelo anestesiamento social.

A exclusão a que as pessoas leprosas estavam submetidas era algo terrível, ainda que houvesse um caráter de higiene e de saúde compreensível. Os leprosos já não eram mais considerados como gente. Antes, eram vistas como abandonadas e amaldiçoadas inclusive por Deus. E, se até mesmo Deus as abandonou, então era lícito que também os homens, até mesmo os da Religião, as abandonassem também. Algo cruel e perverso até mesmo para a dinâmica daquela sociedade de castas. Jesus, no entanto, não tolera nem sustenta essa lógica desumana.

Com o seu gesto tão carregado de sincera humanidade, Jesus arranca Deus dos Templos para colocá-Lo, de novo, junto de cada ser humano sofredor. Na ação curativa de Jesus, Ele anuncia que Deus se importa com todos os homens, inclusive com os “leprosos”. E mais. Em Jesus, Deus se fez um leproso também; impôs-se o mesmo destino daqueles homens excluídos e lançados para fora das cidades. Ao tocar o leproso, Jesus assume para si toda a carga de exclusão e abandono a que ele tinha sido destinado. Se antes, o leproso era obrigado a viver fora da cidade, ao curá-lo, é Jesus quem ficará impedido de entrar por causa da quantidade de pessoas que o procuram ou por causa da perseguição dos chefes do povo.

“Se queres, tens o poder de curar-me” (Mc 1, 40). É com essa manifestação de Fé em Jesus que o leproso confessa sua adesão à lógica do Reino dos Céus: Que todos tenham vida! Infelizmente, nossa sociedade ainda é excludente, preconceituosa e legalista. Em nossos dias, muitos ainda são tratados como se fossem “leprosos”: os encarcerados, os acometidos de alguma doença grave, os aidéticos, os pobres, os refugiados, os “profissionais do sexo”, os ateus, entre outros.

O cristão, verdadeiramente convertido a Jesus Cristo, deve ser alguém que quebre paradigmas e tenha a coragem de levantar a mão para tocar e incluir quem os sistemas opressores, a saber: político, econômico, cultural ou religioso, ousaram desconsiderar. Afinal, a pior lepra não é aquela que trazemos sobre a pele, mas aquela que trazemos em nosso coração: o preconceito e a discriminação.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *