Minhas impressões acerca da Exortação Apostólica – Gaudete et Exsultate – do papa Francisco

São apenas 5 capítulos, 44 páginas, 117 parágrafos e pode ser lida gratuitamente no site do Vaticano, conforme link.

A linguagem coloquial do papa Francisco ainda me surpreende. Sua maneira direta e simples de dizer as coisas o coloca em diálogo direto com o leitor. É para mim que ele escreve. Ele está falando comigo. Nesta sua 3º Exortação Apostólica (a 1ª foi Evangelii Gaudium e a 2ª Amoris Laetitia), ele aborda o tema da universalidade do chamado à santidade que nos faz parecer com Deus, o Pai, no amor.

Além de desmistificar o conceito de santidade, comumente associado a pietismos, semblante cerrado, mãos postas, e caricaturas pejorativas como “carola” ou “beata”, o papa propõe a santidade como fonte e esplendor da verdadeira alegria cristã. Afinal, não se pode conceber um santo triste e muito menos carrancudo, pessimista, negativo e fechado em si mesmo. Um santo é, antes de tudo, um bem humorado que encontrou a Graça de Deus e a vê em todo e qualquer lugar.

Depois, o papa cita os grandes mestres da espiritualidade cristã, mas não os propõe como únicos modelos a serem seguidos. Eles são exemplos e até podem nos estimular, mas, por vezes, seus modos de viverem a santidade são distantes da nossa realidade e podem até nos desanimar. Por isso, o papa faz questão de propor modelos mais próximos da nossa realidade, sugerindo-nos, inclusive, que prestemos atenção nos próximos de nós; nos da nossa casa, entre nossos parentes e amigos:

“Por exemplo, uma senhora vai ao mercado fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e… surgem as críticas. Mas esta mulher diz para consigo: «Não! Não falarei mal de ninguém». Isto é um passo rumo à santidade. Depois, em casa, o seu filho reclama a atenção dela para falar das suas fantasias e ela, embora cansada, senta-se ao seu lado e escuta com paciência e carinho. Trata-se doutra oferta que santifica. Ou então atravessa um momento de angústia, mas lembra-se do amor da Virgem Maria, pega no terço e reza com fé. Este é outro caminho de santidade. Noutra ocasião, segue pela estrada fora, encontra um pobre e detém-se a conversar carinhosamente com ele. É mais um passo” (n.16).

E nos adverte quanto aos dois inimigos atuais e sutis na Igreja que atentam contra a nossa santidade: o gnosticismo e o pelagianismo. Sobre o gnosticismo, disse:

“O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério», tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros. Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus” (nn. 40-1).

E acerca do pelagianismo, afirmou:

“Com efeito, o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade. Esquecia-se que «isto não depende daquele que quer nem daquele que se esfoça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso» (Rm 9, 16) e que Ele «nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Quem se conforma a esta mentalidade pelagiana ou semipelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, «no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico». Quando alguns deles se dirigem aos frágeis, dizendo-lhes que se pode tudo com a graça de Deus, basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça. Pretende-se ignorar que «nem todos podem tudo», e que, nesta vida, as fragilidades humanas não são curadas, completamente e duma vez por todas, pela graça. Em todo o caso, como ensinava Santo Agostinho, Deus convida-te a fazer o que podes e «a pedir o que não podes»; ou então a dizer humildemente ao Senhor: «dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes” (nn. 46-9).

E denuncia:

“Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurarem os afastados nessas imensas multidões sedentas de Cristo.. Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos. Assim se habituam a reduzir e manietar o Evangelho, despojando-o da sua simplicidade cativante e do seu sabor. É talvez uma forma subtil de pelagianismo, porque parece submeter a vida da graça a certas estruturas humanas. Isto diz respeito a grupos, movimentos e comunidades, e explica por que tantas vezes começam com uma vida intensa no Espírito, mas depressa acabam fossilizados… ou corruptos. Sem nos darmos conta, pelo facto de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue. São Tomás de Aquino lembrava-nos que se deve exigir, com moderação, os preceitos acrescentados ao Evangelho pela Igreja, «para não tornar a vida pesada aos fiéis, [porque assim] se transformaria a nossa religião numa escravidão» (nn. 58-9)

Para tanto, Francisco [re]propõe as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23) como modelo inequívoco de santidade e códice de um verdadeiro santo. Afinal, a santidade nos leva a reconhecer no outro o Cristo que se fez um conosco, assumindo nossa condição humana em sua totalidade. Exorta sobre a figura pessoal do demônio, pai e artífice da mentira, inimigo de nossa santidade, e repropõe a intimidade como Maria, mãe de Jesus. Por fim, ele apresenta a oração como condição indispensável para se alcançar a santidade querida por Deus, por meio da qual se pode pedir o dom do discernimento e da sabedoria, bem como da ousadia e do ardor em anunciar o Evangelho do Mestre em Santidade, Jesus Cristo. E, no mais, a vida na graça sacramental e na atenção ao outro como forma de se crescer e se manter na santidade querida por Deus. Pois, onde houver fechamento, egoísmo, inveja, orgulho, vaidade, intimismo e autorreferencialidade, Deus, o único e verdadeiro Santo, não poderá atuar.

 

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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