Há casos que constrangem a sensatez e o bom-senso. Graças a Deus, a ciência evoluiu e já não vivemos mais o obscurantismo de tempos antigos em que tudo era culpa do “capiroto”. Com o advento da modernidade, alavancou-se também o conhecimento das grandes áreas médicas e, entre elas, a psiquiatria, neurologia e as psicologias. O homem se inteirou da complexidade da vida e do viver humanos. Somos uma infinidade de coisas, de arranjos, de teias e de compreensões e incompreensões. Somos diversos. Temos “n” dimensões: biológica, física, psíquica, emocional, afetiva, sexual, cultural, social, entre outras. Não nos compreendemos bem olhando unicamente para uma área, sob um único prisma. É preciso considerar o diverso em nós se quisermos nos compreender de fato e na sua totalidade – se isso for possível.
 
Infelizmente, não são poucas as vezes que pegamos “diagnósticos” desonestos e imprecisos de religiosos ou leigos que dizem ser “isso” ou “aquilo”, sempre no campo espiritual, sem nem ao menos levar em conta a biologia e o dado médico. Exemplifico: alguém chega em minha sala e diz: “Padre, estou há dias com uma dor localizada, ela sempre é mais forte à noite, e segundo o padre x é porque um ente-querido, já falecido, está influenciando em minha vida atual”. Outros dizem: “Fui a um centro espírita e me disseram que foi algo feito para mim”, ou, então, “depois de receber uma oração, o intercessor disse que isso é influência do demônio”. Nesses casos, faço a pergunta óbvia: Você já foi ao médico? Já se consultou? Já foram esgotadas todas as investigações possíveis na ciência moderna? Alguns me olham com espanto, como se eu lhes dissesse a coisa mais absurda deste mundo. Outros, como se não me escutassem, continuam repetindo os diagnósticos recebidos de outros.
 
Nunca disserto sobre opiniões alheias, ainda mais quando circunscritas unicamente ao campo espiritual. A Igreja, em seu pensamento oficial, sempre optou pela discrição, pela prudência e pelo bom senso. Se houve exageros no passado, ela hoje procura aprender com os seus erros. Se em algum momento da história, o demônio foi o responsável-mor por tudo aquilo que fugia ao conhecimento das áreas médicas, hoje, felizmente, não é mais assim. Influência do mal em nossa vida é algo que deve ser revista a partir do Evangelho. É também uma questão de fé. Ou se crê na Graça que é infinitamente maior do que qualquer outra coisa ou estaremos brincando de ter fé em Deus e no seu Cristo que nos libertou para sermos verdadeiramente livres (cf. Jo 8,36). Não há poder maligno que possa com uma vida vivida na Graça. Alguém que busca continuamente os Sacramentos e se deixa alcançar pela Santidade de Deus não sofrerá os terrores de uma vida mitigada pela ação demoníaca.
 
As pessoas falecidas nada podem fazer contra nós. Já estão em outro “plano”. Um dado evangélico para esta afirmação é a parábola do rico e do pobre Lázaro (Lucas 16, 19-31). Os maus sentimentos de outrem em relação a nós, como a inveja, não nos alcançam se não lhe dermos atenção; se não lhe atribuirmos um poder devastador sobre nós. Quem sente ódio e guarda rancor, nada pode contra aquele por quem nutre tais sentimentos. Antes, envenena-se a si mesmo. Não há “trabalho” ou “coisa feita” que possa atingir os batizados em Cristo Jesus. Uma vida efetivamente ressuscitada já não experimenta mais os horrores de uma vida pagã, sem sentido ou relegada às vicissitudes deste mundo decaído e mergulhado na desesperança e na descrença.
 
É preciso tomar muito cuidado com os “falsos pastores” e os pervidos profetas. Eles tendem a tutorar seus seguidores com diagnósticos apavorantes e com visões ditas “espirituais”. Isso em nada contribui para a real libertação da pessoa. Antes, torna-a ainda mais “doente” e escravizada em conceitos e visões distorcidas e distantes da Graça salvadora de nosso Deus. Não busque a esses. Eles se encontram, infelizmente, por todos os lados, crenças e denominações. Podem ser padres, pastores, leigos ou “gurus” conceituados. São falaciosos, charlatães e nada misericordiosos. “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, porém, avaliai com cuidado se os espíritos procedem de Deus, porquanto muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (I Jo 4, 1). “Eu sei que, logo após minha partida, lobos ferozes se infiltrarão por entre a vossa comunidade e não terão piedade do rebanho” (At 20, 29).
 
Portanto, cuidado e vigiai.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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