“Eu sou o bom pastor. Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas… O mercenário, que não é pastor, quando vê o lobo, abandona as ovelhas e foge…” (Jo 10, 11ss).

O discurso de Jesus é uma dura crítica aos religiosos do seu tempo. Ele nem sequer os chama de “maus” ou “falsos” pastores. Ele não os reconhece. Antes, chama-os de ladrões e mercenários. E o motivo é notório: aqueles líderes religiosos fizeram da religião um trampolim para os seus interesses próprios. Colocaram pesados fardos sobre os ombros do povo, e impostos altíssimos. A participação no culto era oneroso e os sacrifícios enriqueceram ilicitamente os sacerdotes. Eles, no entanto, estavam a serviço das castas superiores e dos abastados da sociedade. Serviam aos ricos e não se condoíam com as mazelas dos pequenos e indefesos. Eram insensíveis e surdos aos clamores dos pobres e infelizes. O sumo sacerdote e seu séquito instrumentalizaram a religião e tornaram-na manipuladora das consciências. De fato, a religião se tornara perversa, desumana e insensível. Ela já não era mais capaz de propor a humanização do homem nem tampouco cumprir com a missão de religar os corações. Indiferente às dores do mundo, ela se alienou [e por isso alienava]. Os seus muitos dogmas, sua doutrina erudita, suas celebrações apoteóticas e suas rubricas rituais conservavam uma religiosidade apenas ritual, além de criar um grande abismo entre o “profano” e o “sagrado” opondo-os, inclusive. Deus era apresentado como algo distante do ser humano (residia no sétimo céu) e era “propriedade de poucos privilegiados”. O povo, os pobres, os pecadores, as prostitutas, as adúlteras, os publicanos, os cobradores de impostos, os doentes, os leprosos, os paralíticos, os cegos, os estrangeiros e os escravos eram postos à margem dessa relação. Não por acaso, o discurso de Jesus foi proferido no “Pórtico de Salomão”, entrada que dava acesso ao interior do Templo e dito logo após a cura do cego de nascença. Afinal, todos esses ditos acima não eram aceitos no Templo, pois eram considerados “impuros”. A denúncia de Jesus, portanto, é clara: “Como vocês não foram capazes de pastorear o rebanho do Senhor, mas ao contrário, o extorquiu, manipulou e subjugou em proveito próprio, Eu mesmo, o Bom Pastor, isto é, o único e verdadeiro, vou arrancá-lo de suas garras de lobos e mercenários para conduzi-lo às pastagens seguras”. Infelizmente, o contexto do Evangelho ainda é muito atual. A religião continua sendo, em muitos casos, usada para apaziguar as consciências e adormecer as indignações justas e necessárias. E não são poucos aqueles que preferem e anunciam um “deus ditador, tirano e legislador”, insensível e distante da história e da vida do homem. Para muitos desses, a religião deveria se ocupar unicamente da dimensão espiritual do homem. Ainda temos medo da liberdade e da autonomia de filhos de Deus que Cristo nos conquistou com a doação da sua vida. Nossas igrejas estão abarrotadas de “pastores-legisladores”, mas pouco “misericordiosos” segundo o modelo do Cristo Bom Pastor. E há ovelhas que preferem a “canga” da lei e o peso da “mão da justiça” por temerem a vastidão da planície e do novo modelo de redil inaugurado por Jesus de Nazaré: sem porteira e sem distinção de nenhuma forma. Não por acaso, Ele relativizou tudo isso: templo, sacerdotes, culto, sacrifícios, uma vez que não há mais distâncias entre Deus e o mundo, e nenhum outro mediador será aceito se não for o próprio Cristo – o Sumo Pontífice – que se fez ponte definitiva entre Deus e o homem. Eis o modelo irrevogável do ” Bom Pastor”. Quem O conhecer de fato – não pelo intelecto nem pela doutrina, senão pelo encontro pessoal – reconhecerá Sua voz, única e inconfundível, entre inúmeras outras e verá n’Ele a face do Pai Misericordioso e Perdoador, e seremos, enfim, um só rebanho-Pastor. Ousaremos hoje tamanha conversão; de sentido e de vida?

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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