O Evangelho de Cristo nos constrange até às entranhas. Revolve tudo dentro de nós, desde a medula até o mais íntimo de nós. Perturba-nos o âmago da alma; desinstala-nos e nos inquieta sobremaneira. É impossível conhecê-Lo e não se sensibilizar com os sofrimentos deste mundo. As dificuldades pelas quais as pessoas passam, nos tocam profundamente. A fome é o grande escândalo desta sociedade aburguesada que desperdiça, segundo a FAO – Fundação para Combate à Fome e à Miséria -, 1/3 dos alimentos produzidos em todo o mundo. E, não obstante, 840 milhões de pessoas sofrem o flagelo da fome. De cada 10 crianças, 5 não chegam à adolescência. E a cada 5 segundos, uma morre de fome. E isso só para citar uma das muitas agruras da vida moderna, sem falar da violência alarmante, da criminalidade, do desemprego que furta a dignidade de tantos homens e mulheres, jovens e adultos. Um dos muitos culpados por esse cenário ignóbil é a falta de políticas públicas sérias que, por outro lado, faz agigantar as carências sociais e aumentar o número dos miseráveis e desafortunados atuais. Por causa do descaso político, um número considerável de pessoas voltaram ao nível de pobreza extrema. 50 milhões de brasileiros vivem na linha da pobreza, com renda familiar de R$ 387,07 mensais, o equivalente a 5,5 dólares por dia, conforme dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -. A falta de vontade política geram vítimas indefesas e provoca a morte de tantas pessoas inocentes. É o chamado “pecado social”: a ausência do espírito de solidariedade e de fraternidade para com todos, especialmente com os mais necessitados. Por isso, pecados como a corrupção, por exemplo, são tão graves e bradam os céus. A injustiça e a impunidade corroboram e financiam tais pecados.

Os problemas sociais são alarmantes. É impossível fechar os olhos e fingir que não os vemos. Seus reflexos estão por toda parte e batem à nossa porta. Ao sairmos de casa, damos com eles pelas ruas e becos, pelos sinais e pelas avenidas. Não são os seres humanos os problemas. Pessoas nunca são problemas. Elas são vítimas de um sistema opressor, desumano, nefasto e diabólico. Somos paulatinamente “educados” para a insensibilidade, a indiferença e a apatia. Não nos sentimos responsáveis pelos dramas alheios. Terceiramos a culpa: para o Estado, para as Religiões, ONGs e afins. Nossa geração continua reproduzindo as antigas desculpas e “lavamos as mãos”. Amainamos nossa consciência já enfraquecida de verdadeiro altruísmo e dormimos o “sono dos justos”. Mas os problemas incontestes só engrossam o caldo do desequilíbrio social. E aí, uma hora, mais cedo ou mais tarde, sofreremos o resultado desse descaso. Em nossas cidades, o aumento considerável do banditismo é fruto desse pecado social. O pouco investimento nas áreas educacionais propicia a “pregação” diuturna de contravalores que entram em nossos lares, nossas famílias, em nossas escolas e nas mais variadas instituições de ensino. Os alunos, mal formados, com valores frágeis e conhecimentos parcos, se deixam tutorar por qualquer outra fonte de conhecimento que lhes pareça mais atraente. Muitas crianças, adolescentes e jovens ociosos encontram nas drogas, no tráfico e no crime uma forma de “dar sentido” às suas vidas já frívolas e sem ideais. Falta ao jovem contemporâneo um ideal pelo qual mereça doar a vida.

Logo, a solução desses revezes sociais passa, necessariamente, pela educação. É graças ao ensino que as consciência são aclaradas e o interior do homem é burilado com toda sorte de bem, de valores e de sincera humanização. Mas, infelizmente, nossa educação pública é capenga de fundamentos sólidos e eficazes. Os professores são mal remunerados e cotidianamente desrespeitados. Os alunos já não recebem a devida atenção dos seus pais e responsáveis, e quando chegam na sala de aula querem-na a qualquer custo. Muitos desses discentes são voluntariosos, problemáticos, violentos e sem a menor noção de urbanidade e respeito para com os outros. Trazem para dentro da escola os seus muitos conflitos interiores. A instituição de ensino, por sua vez, sem o aparato devido, não consegue ajudá-lo na elaboração do seus traumas e suas questões de toda ordem. A escola torna-se, tão somente, um lugar de passagem, mas não de verdadeira humanização. Há, nesse sentido, um falseamenteo do ensino: finge-se que estuda e finge-se que educa. Formado, o aluno é lançado na sociedade sem o suporte humano necessário. Esse jovem não conseguirá suportar o peso de uma vida social com suas demandas e exigências modernas. Embora vítima, ele buscará em quem – ou no quê – descarregar sua tensão e suas razões não satisfatoriamente respondidas. O drama humano, familiar e social é fruto de um problema que se origina desde a primeira infância e que se estende pelos diversos outros locais de educação: família, escola, igreja, etc. Uma criança mal cuidada terá grande probabilidade de se tornar um jovem revoltado e problemático. Sem a atenção devida, seu futuro não será promissor. E quem perde, no fim, com tudo isso é o conjunto social, ou seja, todos nós.

De fato, a solução passa pela educação. Mas não só. Infelizmente, os dramas humanos são de várias ordens. Para se ter uma sociedade saudável e verdadeiramente humana é preciso contemplar todas as frentes de atuação: psíquica, emocional, afetiva, social, biológica, espiritual, cultural, entre outras. As pessoas precisam se sentir respeitadas, valorizadas e estimadas. Só assim gera-se compromisso e responsabilidade para com o todo e a moralidade pública e privada são delimitadas. Ao buscar um atendimento médico, o enfermo tem direito de encontrá-lo e com a devida asseguridade social. Precisa ser um atendimento de ponta. Não dá para colocar o enfermo no chão, em macas nos corredores dos hospitais, ou, pior, não ter médico disponível e a tempo de solucionar sua demanda de saúde. Quem está doente não pode esperar. É preciso garantir o “ir e vir” do cidadão. Vivemos tempos de grandes cerceamentos. Não podemos mais sair de casa em segurança. Nunca sabemos se vamos retornar com vida. Abrimos o portão com receio e dormimos com medo de sermos assaltados ou violentados em nossas próprias casas. As estatísticas demonstram que estamos em situação de guerra. Muitas cidades vivem verdadeiras guerras civis. Os números de vítimas ultrapassam grandes conflitos armados ao redor do mundo.  Só o Estado do Rio de Janeiro, no ano passado – 2017 -, 632 pessoas foram vítimas de balas perdidas, segundo dados da Polícia Civil. Um dado mais do que preocupante para o nosso contexto de época. Não estamos conseguindo impedir nem tampouco diminuir o horror da violência e da criminalidade associadas, em grande parte, ao tráfico de drogas e à impunidade. A população civil é o lado mais frágil dessa “luta de braços” insana. O Estado, por sua vez, se vê impotente diante do poderio bélico e do aparato dos criminosos. A guerra nos grandes centros parece não ter fim.

Enfim, o Evangelho, diante de todas essas mazelas, pede de nós, cristãos, uma resposta plausível. E ela não pode ser apenas a de uma prece – ainda que rezar seja indispensável -. Precisamos ir um pouco além da “sacristia” e do “altar”. É preciso fazer algo de concreto. Não podemos fingir que não vemos, que não ouvimos ou não sentimos o horror de uma sociedade doente e adoecida, que se autodestrói enquanto se consome no consumo desenfreado e sem reflexão. Em nome do direito ao prazer e à felicidade, o homem se encastelou e, ensimesmado, vive a egolatria em se admirar no lago da sua própria existência, incapaz de olhar para o lado e enxergar um simples transeunte. Se alguém nos pede um pedaço de pão, não dá para simplesmente dizer-lhe: Volte amanhã. Se alguém tem necessidade de remédios, de roupas, de algo tangível, não podemos apenas dizer-lhe: Não tenho. Ora. Ainda que não possamos resolver tudo, e temos a humilde consciência de que não podemos mesmo, é preciso, todavia, fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para minimizar o infortúnio alheio. É preciso pôr o Evangelho em prática: “Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive na prisão, e foste me ver” (Mateus 25, 35-36).

Claro que isso não é coisa simples nem fácil de se fazer. É dolorido e sangra. Dói na alma; Dói no corpo. Mas, isso é amor, real, concreto e cristão. Afinal, é preciso duvidar do amor que não custa e não dói (papa Francisco). Para tanto é comungamos. Comunhão é precisamente isso: Comungamos do Corpo e do Sangue do Senhor, morto e ressuscitado, para dá-lo depois, de algum modo, a quem não O pode buscar na procissão da Missa. É imperioso irmos ao encontro do Cristo que sofre e padece, e reconhecê-LO no injustiçado, no pobre e no faminto e no sedento de tantas fomes e tantas sedes. E que ninguém se exima dizendo não ter o quê repartir, pois, “quem possuir bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?” (I Jo 3, 17). Não está. O amor de Deus não se compactua com a mentira e a hipocrisia. “Quem disser que ama a Deus, mas odeia o seu irmão é um mentiroso” (I Jo 4, 20); “um assassino” (I Jo 3, 15).

Eis o barulho que o mundo parece não ouvir. Porém, o cristão mesmo em repouso, o escuta, pois, se autêntico jamais cochila; vigia. E não há modo de vigiar mais evangélico do que este: por amor. Afinal, foi Ele mesmo quem nos ensinou a verdadeira medida de amar: “Deu Sua vida por nós. Também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (I Jo 3, 16).

 

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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