“Orar costuma fazer bem”. Eu era criança, e me lembro de ter ouvido essa expressão certa vez na voz do maior poeta/compositor católico brasileiro: Pe. Zezinho. Ainda hoje, volta-e-meia, ela me vem ao coração. Orar é uma forma humilde de reconhecer que há alguém maior do que nós. Um Ser que tudo criou e fez por amor. Que me ama infinitamente e que deseja o meu bem e a minha felicidade. Orar me coloca em conexão com Ele. Nesse sentido, a oração cria em mim um espaço adequado para Ele vir ao meu encontro, embora Ele já esteja o tempo todo comigo; dentro de mim. Na verdade, a oração me torna mais sensível para percebê-lo. Ela me predispõe a ouvi-lo, prescrutar sua vontade e estar em relacionamento afetivo com Ele. A oração me torna, igualmente, mais sensível ao outro, compassivo e misericordioso. Faz com que eu me responsabilize pelo mundo. Não se ora apenas para pedir, embora eu possa e deva lhe apresentar as minhas necessidades e as dos meus irmãos e irmãs. A petição é também uma forma de orar e que Lhe agrada. Por isso, os pais oram pela conversão dos seus filhos, para que se endireitem na vida e progridam. Se as coisas estão difíceis; se os filhos se tornaram desobedientes, arredios e tendem para caminhos maus, não há melhor coisa a fazer senão isso: orar. Pedir a Deus que os alcance e os instrua. Que os traga de volta para o bom caminho. Talvez nos relacionamentos afetivo-sexuais, na vida profissional, na saúde e nas demais áreas da vida tudo esteja reclamando atenção. Orar é um bom começo. É que a oração nos recentra. Ela nos coloca de novo no eixo, sobre os trilhos da nossa própria história. A oração, quando verdadeira, nos torna mais sadios e equilibrados. Ela nos dá a real dimensão de tudo. Ela nos torna autônomos e proativos. A oração nos apazigua quando tudo lá fora, ou às vezes dentro da gente, está em completa desarmonia. A oração nos repropõe o essencial. Ela nos ajuda a discernir e a obter sabedoria. Ela nos cura da dispersão. Se constante, ela cria intimidade entre Deus e o fiel que reza. Se autêntica, ela provoca sincera mudança interior. Há inúmeros modelos de oração e são todos válidos, sobretudo, a comunitária, aquela que se faz em Igreja. Mas só essa, não basta. É preciso que cada pessoa tenha seu momento especial com Deus, reservado e a sós; em silêncio ou entre lágrimas, e de preferência com a Sua Palavra nas mãos. Daí o conselho de Jesus: “Quando fores orar, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao Teu Pai que está no segredo…” (Mt 6,6). Orar é entrar no segredo de Deus e permitir que Ele adentre o nosso. É deixá-lo vir e lançar suas luzes sobre as trevas da nossa existência. Acender esperança e fé onde jaz a escuridão do medo e da morte. Todavia, há uma lógica na oração: Peça insistentemente e espere pacientemente (cf. Lc 18, 1-7). Pois, a oração quando honesta provoca um tsunami, um terremoto e uma tempestade invisíveis no mundo: ninguém os vê, mas sente. A oração sincera, autêntica e constante é capaz de tudo: de lançar montanhas ao mar e de tornar possível o impossível (cf. Mt 17, 20) e de, inclusive, converter o coração do crente.

 

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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