Perdoar não é coisa simples nem fácil, e não ocorre de um dia para o outro. Às vezes, leva-se uma vida inteira. Inúmeras são as formas de perdão, pois variadas são as ofensas, as agressões, as decepções, as frustrações e os equívocos ao longo da vida. Pode ter sido uma palavra torpe, rude, dirigida num momento impróprio, uma calúnia, uma mentira, uma promessa não cumprida, uma agressão física, verbal, algo contra nós ou, até mesmo, contra alguém que queremos muito bem e de quem tomamos as dores. Não faltariam justificativas para nos mantermos na raiva, no rancor, no ódio, no ressentimento, no desejo de vingança, no desejo de nunca mais perdoar. Há situações em que a simples presença da pessoa por quem nutrimos algum desafeto nos constrange, azeda o nosso dia, faz a pele até arrepiar, o coração dar sinais de taquicardia. Enfim… A falta de perdão é, na verdade, um veneno que vamos tomando em goles suaves e que vai aos poucos nos entorpecendo. Todavia, perdoar é antes de tudo um sinal de sabedoria e de inteligência. De sabedoria porque, ao perdoarmos, nós abrimos a cela na qual duas pessoas estão aprisionadas: eu e a pessoa por quem nutro algum sentimento ruim. Ao perdoá-la, eu a libero ao mesmo tempo que me deixo mais livre. Depois, é inteligência porque ao perdoar alguém eu estou retirando um fardo insuportável do coração. Desse modo, poderei seguir mais leve pela vida. Pois, do contrário, eu terei sempre que me recordar do mal sofrido e dizer à minha bílis o motivo do ódio ou do ressentimento por aquela pessoa. Sem falar o quanto isso nos desgasta, uma vez que exige uma enorme quantidade de energia. Ficamos exauridos. Há quem diga que não é ódio, nem nada. É só uma indiferença, uma certa apatia, um não-sei-o-quê. Pior. Quando não conseguimos dar nome ou tratamos o outro como se ele não existisse, é porque o “mal sentimento” já se cristalizou dentro de nós. Impregnou-se de tal modo que já não nos incomoda mais; faz parte de nós. Isso seria péssimo para a vida presente e, sobretudo, para a vida futura. O conselho de Jesus é para que perdoemos sempre: “setenta vezes sete”. Perdoar não porque o outro mereça – às vezes não merece mesmo; não porque estou me sentindo à vontade ou porque sou magnânimo. Perdoar começa por uma decisão livre, mas consciente, por saber que Deus, o único Justo e Santo, nos perdoa sempre e todos os dias. E que não há pessoa sobre esta terra que não precise pedir ou dar o seu perdão. Perdoamos porque queremos receber de Deus o seu perdão que não questiona o porquê nem o como pecamos, e que não se interessa pelas minúcias do nosso pecado, mas que simplesmente perdoa sem nem mesmo pedir provas de que não retornaremos a pecar. Perdoamos porque condicionamos o perdão de Deus ao perdão que damos ao outro: “Perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem nos tiver ofendido…”. Por fim, perdoar não quer dizer que voltarei a me relacionar com a pessoa em questão ou que simplesmente, como num passe de mágica, esquecerei o que ela me fez. Isso seria hipocrisia ou mentira. Quem perdoa passou por um processo de cura e de conversão, mas pode ser que o outro, que causou a ferida, ainda não. Logo, é prudente não lhe dar margem para novas ofensas ou feridas. Porém, não lhe deseje o mal, mas, se tiver a oportunidade, faze-lhe o bem. Não é preciso evitá-lo, mudar de rua, de calçada, de shopping, de cidade e até de igreja para não encontrá-lo. Isso não seria verdadeiro perdão. Quando verdadeiro, o perdão nos possibilita seguir com naturalidade a vida. Por isso, se no meio da travessia encontrar a pessoa que foi perdoada, estenda-lhe a mão, cumprimente-a e siga o seu caminho em paz. Afinal, o perdão é também uma forma genuína de amar por que se sabe profundamente amado, e sem merecimento.

 

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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