Parei por alguns minutos diante da televisão, surpreso. Aquela pregação no meio da tarde parecia-me pouco cristã. Era cheia de egolatria, de ensimesmamentos, de muito “eu” e pouco “nós”. O pregador, usando palavras agressivas e até de baixo calão e sem se implicar, dizia o que o ouvinte devia ou não fazer para alcançar o céu. Ele vociferava uma dita santidade que em momento algum contemplava, na relação com Deus, um outro ser humano. Era algo exclusivista e fechado entre o indivíduo e Deus. Não havia espaço para um terceiro.

Para aquele homem midiático, santidade era simplesmente “não pecar” contra o sexto mandamento ou algo que o correspondesse. Apesar da primeira leitura da Liturgia do dia enfatizar o amor ao irmão como consequência coerente do amor a Deus, em nenhum momento ele fez referência à caridade como expressão da verdadeira santidade. Solidariedade, sensibilidade alheia e compaixão para com os pobres e sofredores não foram sequer mencionadas. A espiritualidade para aquele “pregador inconteste” estava cincunscrita unicamente ao círculo vicioso: “eu e Deus”. O seu discurso fleumático incomodou-me sobremaneira. Ouvia-o incrédulo.

Sua pregação estendera-se por longínquos minutos, mas todos ali, aparentemente, o ouviam com atenção e prazer, entre risos e lágrimas. A “homilia” se estendeu por quase uma hora. Fatigado com aquela “pregação” estranha para a Teologia que fiz e a Tradição Cristã, desliguei a TV. Constatei, não sem pesar, a decadência religiosa dos nossos tempos. Também para o sagrado tudo se tornou fruto do espetáculo e da força imperiosa da mídia. É considerado verdade aquilo que passa na televisão e nos demais outros meios. A comunicação pessoal, local e feita “olho-no-olho” tem pouca incidência sobre os interlocutores, sobretudo, os das pastorais e dos movimentos eclesiais. É mais credível o que nos chega por meio dos mass media do que aquilo que nos é dito “ao pé do ouvido”.

Infelizmente, a consciência do grande público, a capacidade de argumentação e o nível de criticidade da maioria das pessoas ainda estão em construção. Muitos fiéis preferem uma “pregação” intimista e que apenas conjugue os dramas e anseios pessoais. A reflexão da realidade, a percepção apurada dos dados sociais, políticos e culturais quase sempre são desconsiderados. O Evangelho ficou reduzido a um sentimentalismo vazio e sem nenhuma expressão ética para a vida dos cristãos. Para esses, uma coisa é a fé e outra, bem distinta, a ética. Para essa dinâmica espiritual, pecado é somente aquilo que está no âmbito da sexualidade ou das “rubricas” litúrgicas. Corrupção, mentira, falta de caridade, egoísmo, indiferença e apatia social, por exemplo, não são pecados ou não têm o mesmo peso que um “não pecar contra a castidade”. Pecado é só aquilo que nos exclui o céu na vida futura. Ausentar-se da terra, da vida presente, e não se interessar pelas questões que nos afligem em todos os âmbitos, não são considerados nocivos à salvação eterna.

Nesses tempos de tanto encrudescimento de consciência, de intolerâncias de toda ordem e embrutecimento dos discursos, há quem prefira a fuga da realidade e das responsabilidades pessoais, civis e morais. Muitos preferem relegar a Deus o ordenamento de todo caos. Não faltam pastores e padres, leigos e missionários que anunciem um “Deus” tirano ou “voyeur”, mais preocupado com a nossa intimidade do que com a condução da história, das lutas e dos sofrimentos do ser humano. Tais pregadores preferem o anúncio inflamado de um tipo mesquinho de evangelho que não convoca o homem à razão e não o faz assumir sua parcela de responsabilidade na construção de um mundo mais fraterno, mais digno, justo e verdadeiramente livre.

Enquanto essas “pregações” encontrarem espaço em nossas vidas, não sairemos às ruas para exigir nossos direitos e cobrar dos governantes um modo mais coerente de vida e de gerenciamento do bem comum. Enquanto estivermos centrados numa santidade desencarnada, sem conhecimento de causa dos sofrimentos e das dores do povo, a profecia estará estanque e a libertação será apenas coisa espiritual. Se não nos implicarmos, continuaremos a culpar a antiga serpente por tudo, como sendo a única causadora de todo mal. O exorcismo que iremos pleitear será contra outrem ou contra o “demônio” que julgamos estar dentro de nós, alheio à nossa vontade. Seremos eternas vítimas, mas nunca autores conscientes que optaram deliberadamente pelo mal ou que não aprenderam ou não quiseram fazer o bem. Indiferentes a tudo e a todos, sem olhar para o lado e pouco interessados no faminto, no nu, no doente e no necessitado, continuaremos a levantar nossas mãos e a pedir por cura e libertação. Elas, no entanto, não ocorrerão. Ao contrário, continuaremos doentes e presos no centramento de nós mesmos.

Entretanto, pregações assim doem os ouvidos e magoam o coração. A verdadeira conversão não ocorre e continuaremos os mesmos “fariseus” de outrora, carcomidos pela hipocrisia e pela negação do Cristo que nos pede “um pedaço de pão e um pouco de vinho” no irmão à nossa frente. Tais pregações são mentirosas, pois, não anunciam a genuína mensagem daquele Homem de Nazaré, leigo subversivo, radical e que não mediu esforços em anunciar, oportuna e inoportunamente – enfrentando, inclusive, a casta religiosa de seu tempo -, a chegada do Reino de Deus. Com sua coragem costumeira, e autorizado pelo Pai, enfrentou com destemor os pregadores desonestos de seu tempo, intimando-os a serem anunciadores de um novo mundo, onde a causa do homem seja a causa de Deus e a terra a seara do Senhor. Quem tem ouvidos, ouça!

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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