Terminada a Missa, elas foram à sacristia. Ambas, queriam me contar suas experiências com os leprosos. Uma delas me disse: “Padre, o senhor me fez voltar 70 anos atrás. Éramos crianças. E quando os leprosos, montados em seus cavalos, passavam por nossa fazenda gritando ‘leprosos, leprosos’, nossos pais colocavam sacos com mantimentos na estrada para que eles pudessem pegar. E nós os víamos de longe…”, e se emocionou.
Hoje, a Liturgia do VI Domingo do Tempo Comum trouxe uma das mais belas passagens do Novo Testamento, narrada pelo evangelista Marcos: a cura do Leproso (Mc 1, 40-45). Particularmente, sou tocado especialmente pela humanidade da cena, tão magistralmente pintada pelo narrador sagrado. O modo como Jesus se aproxima daquele homem é de uma ternura sem igual. Sou apaixonado pela humanidade de Jesus. Aliás, preciso confessar, que o que mais me atrai no cristianismo é o lado humano de nosso Deus. Em Jesus, não há caricatura nem falseamento. Suas emoções são plenas e Ele se mostra verdadeiramente interessado pelas pessoas. Não por acaso, o evangelista diz que ao ver o leproso, Jesus sentiu compaixão. E sentir compaixão é colocar-se no lugar do outro. Agir em seu favor. Eis o que Jesus faz.
Diferentemente dos homens religiosos do seu tempo, Jesus não seguiu a Lei à risca. Ela, embora fosse legal, e lhe amparasse na distância e até na indiferença para com aquele homem doente, sua postura foi a de alguém que se apiedou e rompeu com os ditames legais. Ele sabia que a Lei nem sempre é benéfica e, por vezes, ao invés de promover a justiça e a vida, é promotora da exclusão e da morte. A Lei prescrita em atenção aos leprosos tinha, num primeiro momento, parâmetros eminentemente de sanidade pública básica. Porém, com o correr do tempo adquiriu feições de discriminação e de preconceito. E essa é a maior denúncia do Evangelho de hoje: a de nos deixarmos levar por uma religiosidade mesquinha e hipócrita que segrega e exclui, ao invés de incluir e acolher as pessoas.
Logo, a pergunta não poderia ser outra, senão esta: quais são as lepras de nosso tempo?
Houve um tempo na igreja em que mulheres que se tornavam mães sem se casarem eram mal vistas, chamadas de “mães solteiras” – o papa Francisco, com sua delicadeza pastoral, corrigiu esse equívoco: “Não existem mães solteiras. Existem mães! Mãe não é um estado civil” -. Alguns padres e agentes de pastoral se recusavam a acolhê-las e proceder com o batismo dos seus filhos. Muitas delas, infelizmente, eram postas para fora da casa dos pais e também da Igreja, a casa de Deus. Infelizmente, ainda hoje, não é difícil de perceber que em muitos lugares ainda ajam assim. Efetivamente, ainda estamos muito distantes da ética de Jesus. O legalismo corre frouxo em nossas paróquias, dioceses, comunidades cristãs e em nossas famílias. Somos muito bons para identificar os “leprosos”, mas pouco peritos em acolhê-los e estimá-los verdadeiramente.
Mas Jesus não teve dúvidas. Estendeu a mão e tocou aquele homem. Um gesto escandaloso para o seu tempo. Ao tocá-lo, toda a condição de exclusão a que o leproso estava encerrado era automaticamente transferida para Jesus. Ele se tornava um impuro como o impuro que tocara. Por isso, o evangelista termina sua narração mostrando a oposição ao início da cena: o ex-leproso indo ao sacerdote para ter sua cura confirmada, voltando ao seio da comunidade, da sociedade e da família, e, do outro lado, Jesus tendo que viver fora da cidade por causa do burburinho que aquela cura causou. Os cristãos nem sempre estamos dispostos a “sujar as mãos” a exemplo de Jesus. Preferimos nos manter “puros”, intocáveis. Não queremos causar nenhum escândalo. Temos receio das autoridades constituídas, do bispo, das sanções da Santa Sé, dos “Santos Ofícios” modernos e das leis canônicas, do que vão dizer de nós. Acomodamo-nos numa fé morna ou adoçada com discursos e ações pouco transformadores.
A pergunta, por isso mesmo, volta sempre à baila: quais são os “leprosos” de hoje?
Na década de 80 tivemos os aidéticos que, mal vistos e considerados pervertidos sexuais, foram excluídos e relegados à própria sorte. Muitos eram expulsos de suas próprias casas e perdiam tudo: dignidade, família, emprego, etc. O preconceito diminuiu, mas ainda hoje há quem acredite que um simples beijo na face, um abraço apertado,  uma amizade sincera ou uma proximidade maior possam ser contagiosos. Graças ao avanço da ciência, muitos soropositivos podem viver com dignidade e respeito restaurados. O caminho foi e ainda é muito longo. O flagelo do HIV diminuiu, mas ainda é uma realidade muito presente em nossas cidades, sobretudo, na proliferação de relações sexuais sem responsabilidade e sem os devidos cuidados e proteção.
Temos ainda o dado dos casais em segunda união. O divórcio foi considerado por muito tempo um crime pelas leis civis, pecado mortal pela lei canônica e ainda é causa de digladio entre muitas correntes religiosas. O papa Francisco recentemente na Exortação Apostólica “Amoris Laetita” lançou luzes novas sobre essa dura realidade a qual muitos irmãos nossos vivenciam, mas sofreu e ainda sofre enormes perseguições de setores reacionários e hipócritas presentes na Igreja. É uma falácia dizer que todo casal religiosamente unido vive segundo a Lei de Deus. Nós bem sabemos que em muitos lares de recasados há mais testemunho, diálogo, perdão, fidelidade e compromisso do que em muitos outros ditos “cristãos”. Acolhê-los e admiti-los à mesa da Eucaristia é um trabalho pastoral e samaritano ao qual não mais podemos nos ausentar. E ele começa por acolher a todos, indistintamente, com ternura e misericórdia.
Penso, ainda, nos casais homoafetivos. Ainda que a Igreja nunca vá sacramentar a relação entre dois homens ou entre duas mulheres, isso não pode nos impede de acolhê-los e amá-los com honestidade evangélica. São todos bem-vindos à comunidade cristã. Muitos desses casais vivem no bojo de suas relações afetivas o amor e a reciprocidade de um encontro que se deu no tempo e tende a se perpetuar graças à fidelidade e a estima sincera de um para com o outro. Quem os pode acusar do contrário? Que sejam respeitados e se evitem para com eles quaisquer formas de discriminação e de preconceito. Deus os ama e são igualmente filhos e filhas do Deus compassivo de Jesus Cristo. Ser homossexual não é pecado e tampouco se está excluído da Graça de Deus. Sem falar que há muito que deveríamos ter uma pastoral exclusiva dedicada aos casais homoafetivos. Estamos atrasados?
Por fim, ainda que o trecho da II Leitura (1 Coríntios 10,31-11,1) necessite de contexto e a singularidade da comunidade de Corinto precise de uma honesta exegese, é interessante notá-lo no conjunto das leituras de hoje. Paulo pede que os cristãos não causem escândalo: nem no comer nem no beber; nem aos judeus, nem aos pagãos. Embora, ele esteja coberto de razão pelo contexto de época e pela fanfarronice a que a Comunidade de Coríntios estava impregnada, sobretudo, na relação ricos-pobres, enquanto eu ouvia a proclamação da Leitura, pensava: é impossível não haver escândalos neste mundo. Sempre haverá. E se hão de existir, que sejam aos moldes do escândalo causado por Jesus: o escândalo do amor e da compaixão. Aliás, foram tais escândalos que o levaram para a cruz. O escândalo da fé em Deus e no homem. Precisamos cometer, urgentemente, tais escândalos: acolher e não julgar; incluir e não excluir ninguém.
Oxalá, os cristãos não tenhamos medo de provocar, promover e cometer tais escândalos diuturnamente. Pois, esta sociedade mergulhada na indiferença, na corrupção, na criminalidade e na violência, necessita de sinais para voltar a crer e ter esperança. Afinal, somos todos “leprosos”. Quem de nós não traz consigo uma “lepra” no coração, no corpo, na mente? Mas, há um único verdadeiramente são que pode, e quer, nos converter e nos mostrar um outro caminho possível. Digamos-lhe com renovada ousadia: Senhor, se queres, tu tens o poder de curar-me.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

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