Por pura inveja, a Serpente – o antigo inimigo de Deus e da sua criação -, disseminou a desconfiança e a competição no coração dos nossos primeiros pais. Adão acusou Eva que, por sua vez, acusou a serpente (Gn 3,9-15). Por causa da inveja e do consentimento a ela, o pecado “entrou” no mundo e burlou o projeto do amor de Deus para com o ser humano.

A inveja também levou os doutores da Lei, homens instruídos nas Sagradas Escrituras, a acusarem Jesus de charlatanismo e de estar a serviço do “príncipe dos demônios” (Mc 3,20-35). A inveja os cegou. Não foram capazes de perceberem que o que se realizava em Jesus e por meio dele era obra do Espírito de Deus. Era Deus mesmo realizando o seu eterno plano de amor para com a sua criatura: salvando o ser humano de tudo aquilo que o pudesse diminuir enquanto gente.

Por inveja, preferiram difamar Jesus, acusá-lo de estar a serviço de satanás e colocar sob suspeita o bem que Ele fazia. A fama de Jesus crescia à medida que suas palavras e obras iam testemunhando o amor decidido de Deus pelo seu povo, especialmente os pobres, os pecadores e os esquecidos. Mas por inveja, os homens do poder político e religioso e do sistema opressor preferiram desacreditá-Lo perante a opinião pública e lançar dúvidas sobre sua ação salvadora.

Não por acaso, a inveja é um pecado mortal. Ela mata a Graça de Deus em quem a [con]sente e pode ser artifício para a morte física, moral ou psicológica de alguém. Por causa dela, ao longo da história, e em nossas relações interpessoais, muitas pessoas foram acusadas injustamente de algum crime. Outras, perderam o bom nome e houve, ainda, quem perdesse a própria vida. E não há lugar aonde ela não se apresente: na família, no trabalho, entre amigos, cônjuges, irmãos, na vida política e social, e até mesmo dentro dos conventos, seminários, igrejas e no Vaticano.

A inveja, além de ser um pecado mortal é também um pecado capital, pois gera inúmeros outros pecados, destrói vidas inocentes, cancela sonhos e projetos alheios, interrompe amizades e cria barreiras entre membros de uma mesma família. A inveja, tenha ela o tamanho que tiver, é sempre homicida. É um veneno letal. Ela começa pequena, quase insignificante, mas se não for combatida, cresce e ganha proporções inimagináveis dentro da gente. A inveja nos impede de nos alegrarmos sincera e honestamente com a felicidade alheia e de nos regozijarmos verdadeiramente com o sucesso do outro.

Por fim, a inveja, depois de ter conseguido o seu intento malévolo, nos deixa desprotegidos. Ficamos como que “nus” diante de Deus e diante do outro. Como consequência, ela nos incute o medo: medo de Deus e medo da verdade. Pois o seu império foi construído sobre a areia movediça da mentira, da calúnia ou da difamação. Por isso, mais cedo ou mais tarde, a verdade sempre vem à tona, e a inveja se revela pecaminosa, diabólica e demoníaca. E, infelizmente, nem sempre é possível reparar o mal que ela perpetrou.

Vigiemo-nos, portanto, a fim de não cedermos espaço em nós aos dardos inflamáveis do inimigo de Deus e da nossa salvação. Antes, é preciso combatê-los, diuturnamente, em nós e nos lugares por onde passarmos. Pois, quem se entrega à inveja cede a uma rede traiçoeira, cujo fim e limite são desconhecidos.

Sobre o autor:

Padre Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia-MG. Mineiro de nascimento, Poeta por vocação e Escritor por teimosia. Seu lema presbiteral: "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos" I Jo 1, 3.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *